Tancos. Major Pinto da Costa diz que mentiu ao Ministério Público por ordem superior

Paulo Cunha / Lusa

Guarita abandonada no complexo militar de Tancos

O investigador da Polícia Judiciária Militar major Pinto da Costa revelou hoje que o seu superior coronel Estalagem lhe pediu para mentir aos procuradores do Ministério Público sobre o armamento furtado em Tancos ter sido recuperado devido a uma chamada anónima.

“O coronel Estalagem, meu superior, disse-me no caminho entre Santa Margarida e o Departamento Central de Investigação e Ação Penal no dia em que as armas foram recuperadas: ‘Tens de confirmar a questão da chamada anónima’, e eu cumpri”, afirmou arguido e investigador da Polícia Judiciária Militar (PJM) no julgamento do processo Tancos, apesar de assumir que sabia que o material bélico tinha sido recuperado devido à colaboração de um informador.

Para explicar a sua atitude, Pinto da Costa referiu diversas vezes durante o interrogatório que sempre cumpriu ordens e que, enquanto militar, nunca as questionava tal como aconteceu com o que lhe “mandaram dizer” na reunião do DCIAP, acrescentando que não falou da existência de um informador “porque não lhe pediram para dizer”.

Segundo o major, sempre trabalhou como investigador da PJM no processo do furto de armas dos paióis de Tancos [que tinha o n.º 48] e sempre prestou contas aos seus superiores, nomeadamente ao coronel Estalagem e ao capitão Bengalinha.

“Para mim tudo estava dentro da legalidade, havia um processo aberto e eu sempre trabalhei nele”, dando conta das várias diligências que efetuou com elementos da GNR de Loulé, nomeadamente com o arguido Bruno e Ataíde e sargento Lima Santos.

O oficial do polo da PJM do Porto afirmou também que tinha conhecimento que o processo de Tancos estava a ser acompanhado ao mais alto nível.

“A minha convicção era que o Presidente da República e o ministro estavam a par de todo processo de investigação, porque o coronel Estalagem estaria a passar toda a informação recolhida”, afirmou Pinto da Costa, acrescentando que assistiu ao envio de um e-mail por parte de Luis Vieira ao chefe da casa militar de Marcelo Rebelo de Sousa, tenente-general João Cordeiro, e depois a um telefonema entre ambos.

Questionado sobre a investigação ao furto, que realizou juntamente com os militares da GNR Lima Santos e Bruno Ataíde, o investigador chefe da PJM, disse que teve alguns encontros com o informador João Paulino, que sabia ser amigo de infância do arguido Ataíde, mas que “nunca soube que ele estava implicado no roubo e que entregava as armas a troco da sua não implicação no furto”.

Informou ainda os juízes que estas diligências com a GNR de Loulé “eram do conhecimento do coronel Luis Vieira e do Estalagem”.

Segundo o arguido a sua implicação na encenação da recuperação do armamento roubado deve-se ao facto de ter “cumprido ordens”.

“Estou aqui [em julgamento] porque cumpri ordens. Fiz um juramento à nação. Andei sempre a trabalhar no processo que a PJM tinha”, afirmou o arguido, contestando a existência de um pacto de silêncio, como alega o Ministério Público.

“Não há nenhum pacto de silêncio. Passei todas as informações ao coronel Estalagem e ao capitão Bengalinha, e o Estalagem não está aqui, contestou.

Pinto da Costa está acusado de sete crimes, cinco dos quais em coautoria: Associação criminosa, tráfico e mediação de armas, falsificação ou contrafação de documentos, denegação de justiça e prevaricação, favorecimento pessoal praticado por funcionário e dois crimes de detenção de arma proibida.

O processo de Tancos tem 23 arguidos, dez arguidos respondem por associação criminosa, tráfico e mediação de armas e terrorismo, pelo alegado envolvimento no furto do armamento e os restantes 13, entre eles Azeredo Lopes, dois elementos da PJM e vários militares da GNR, sobre a manobra de encenação da recuperação do material ocorrida na região da Chamusca, numa operação que envolveu a PJM, em colaboração com elementos da GNR de Loulé.

Lusa // Lusa

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