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Diretor da PJ acusa PJ Militar de ter “armadilhado” investigação do assalto a Tancos

Manuel de Almeida / Lusa

Depois da ex-procuradora geral da República, Joana Marques Vidal, o diretor nacional da Polícia Judiciária (PJ) Luís Neves foi a segunda testemunha ouvida esta terça-feira no Tribunal de Santarém, durante o julgamento do roubo e restituição das armas de Tancos.

Na altura do assalto, Luís Neves era diretor da Unidade Nacional de Contra-Terrorismo (UNCT) da PJ.

No julgamento, Luís Neves recordou um telefonema na véspera com o coronel Luís Vieira, que lhe deu conta que tinha ocorrido um assalto de grande gravidade.

“Escolhi uma conjunto de pessoas, ex-militares, para ajudar a PJM [Polícia Judiciária Militar], disse, citado pelo semanário Expresso.

Nessa noite, Luís Neves determinou que o inspetor-chefe Manuel Chantre da PJ de Vila Real viesse “para baixo para o Algarve” para falar com a pessoa que tinha passado a informação, “um tal Fechas que era o Fechaduras”.

“Terá havido mais alguns contactos com Paulo Lemos posteriormente”, afirmou Luís Neves.

Na manhã de 30 de junho, Luís Neves reuniu com o coronel Manuel Estalagem e Manuel Bengalinha, na PJM, dando-lhes conta que havia “informação pertinente”. Na reunião na PGR, no mesmo dia, Marques Vidal pedia que a investigação fosse centralizada na UNCT. “Dei conhecimento a Luís Vieira, diretor da PJM, desse facto”, continuou.

A 3 de julho, nas instalações da PJ houve uma nova reunião com os dois elementos da PJM. O Ministério Público (MP) enfatizou que a investigação tinha passado para a PJ, mas o coronel Estalagem disse que eram crimes estritamente militares.

Os procuradores consideraram que a PJM daria um apoio institucional à PJ no caso. “A PJM teria de identificar pessoas e rondas em Tancos e dar elementos sobre os objetos furtados”.

Foi-lhe comunicado algum tempo depois que os explosivos roubados estariam num edifício da embaixada do Chile, em Lisboa. A PJ foi ao local, mas não terá encontrado nada.

Segundo a testemunha, a partir de 4 de julho de 2017, ficaram “escaldados”, depois da visita a Tancos por de altas figuras de estado. “Nessa noite, um comentador dá informação sobre o processo. A partir daí, a tranquilidade do processo ficou em causa. Foram elementos da PJM que passaram essa informação, verbalizando matéria em segredo de justiça.”

Uma das “maiores barbaridades” para fazer destruir a investigação deu-se com uma notícia sobre diligências que a PJ iria fazer com a PJM. “Os suspeitos sabem que estavam a ser investigados. Levámos algum tempo a recompor-nos disto.”

Luís Neves acusou em tribunal a PJM de ter “armadilhado” toda a investigação, ao vazar para a comunicação social toda a informação que recebia da PJ civil sobre a investigação ao caso.“Estou convencido que se tal não acontecesse, em final de julho, teríamos o processo resolvido”, disse.

“Não nos passou pelo cabeça o comportamento enviesado perante o Código do Processo Penal.”

O diretor da PJ afirmou ainda que todos os suspeitos sob escuta pareciam saber que estavam a ser escutados e acrescentou que, a partir de determinada altura, as próprias propostas dos elementos da PJM para avançar com a investigação “não faziam sentido”.

Por outro lado, admitiu que a PJ não esteve bem em alguns momentos, uma vez que comunicou a situação a destempo.

O processo de Tancos tem 23 arguidos, dez arguidos respondem por associação criminosa, tráfico e mediação de armas e terrorismo, pelo alegado envolvimento no furto do armamento e os restantes 13, entre eles Azeredo Lopes, dois elementos da PJM e vários militares da GNR, sobre a manobra de encenação na recuperação do material ocorrida na região da Chamusca, numa operação que envolveu a PJM, em colaboração com elementos da GNR de Loulé.

  Maria Campos, ZAP //

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