“A sombra de Sarkozy” e a filha de imigrantes cabo-verdianos. Novo Governo de Macron vira à direita

Ludovic Marin / EPA

O Presidente francês, Emmanuel Macron

É um “Governo mais à direita do que nunca”. O desabafo é do líder dos socialistas franceses, Olivier Faure, numa crítica ao Presidente Emmanuel Macron pelas escolhas que fez para o novo Governo do país. O executivo tem uma filha de imigrantes cabo-verdianos na pasta da Igualdade e é dominado por mulheres.

O novo Governo francês, liderado por Jean Castex, é composto por 17 mulheres e 15 homens, uma maioria do sexo feminino que já tinha acontecido durante a Presidência de Macron, com o executivo em funções entre Julho e Setembro de 2019.

Com uma clara aposta em membros mais jovens, é também evidente a “viragem à direita” de Macron, como constatam os analistas políticos franceses.

Macron conseguiu “reunir quase todas as correntes da direita” no Governo, como analisa o antigo conselheiro de Nicolas Sarkozy, Camille Pascal, em declarações divulgadas pelo Le Figaro.

Um dos “fiéis” de Macron nota a este jornal francês que entre os seus apoiantes ainda se está a fazer “a digestão dos anúncios” do novo Governo, sendo que fica patente que os elementos do partido do Presidente francês, o República Em Marcha, perderam predominância no executivo.

O novo porta-voz do Governo, Gabriel Attal, um dos poucos ligados ao partido de Macron, trata de acalmar os ânimos, frisando que o “Macronismo” sempre passou por “permitir a pessoas de diferentes origens que trabalhem juntas numa base comum”.

Mas é certa uma clara aposta no reforço da linha de centro-direita, verificando-se a saída dos ex-socialistas Christophe Castaner (Interior), Nicole Belloubet (Justiça), Didier Guillaume (Agricultura) e Sibeth Ndiaye (porta-voz).

O partido de Macron assume-se como social-liberal, surgindo como uma opção que pretendia romper com o equilíbrio de forças entre direita e esquerda.

“Na Macronia, todos os caminhos levam a Sarkozy”

Uma das grandes surpresas do executivo é Roselyne Bachelot, nova ministra da Cultura que é próxima do ex-primeiro-ministro François Fillon, que concorreu às presidenciais contra Macron, e que foi ministra da Saúde de Nicolas Sarkozy, antigo Presidente da República de França.

Outro nome de destaque é o de Gérald Darmanin que foi o escolhido para o Ministério do Interior, o que é visto como uma promoção para o homem que tinha a pasta das Contas Públicas no anterior executivo.

Além da revolta que gerou entre as feministas por enfrentar uma acusação de violação que refuta, Darmanin é outra figura associada a Sarkozy, já que foi director de campanha do antigo Presidente gaulês em 2016.

O advogado Éric Dupond-Moretti foi o escolhido para a Justiça. Trata-se de mais uma escolha polémica por declarações que fez e que são consideradas anti-feministas, e por ter sido advogado de figuras como Bernard Tapie, ex-presidente do Marselha e antigo ministro acusado de fraude fiscal, e Abdelkader Merah, o irmão do terrorista Mohammed Merah que esteve envolvido num tiroteio em Março de 2012 que culminou na morte de 7 pessoas.

Dupond-Moretti é outra figura próxima do ex-Presidente francês. “A sombra de Sarkozy” paira, assim, nesta remodelação, constata o Le Figaro.

O próprio Jean Castex foi secretário-geral adjunto do Eliseu durante a Presidência de Sarkozy. O primeiro telefonema do primeiro-ministro após ter sido nomeado por Macron terá sido mesmo para o antigo Presidente da República, ainda segundo o Le Figaro.

O jornal não hesita, deste modo, em concluir que “na Macronia, todos os caminhos levam agora a Nicolas Sarkozy”.

Já uma crónica no Le Monde reforça a aposta em “personalidades fortes, identificadas pelos franceses”, que “devem aproximar Emmanuel Macron das pessoas“, citando especificamente os casos de Dupond-Moretti e de Bachelot que, nos últimos tempos, têm aparecido na televisão como comentadores.

“É o governo da causa do povo”, considera ao Le Monde um próximo de Macron, falando da “urgência” de “encontrar a França, os seus valores, os seus marcos, as suas raízes”.

No fundo, é Macron já a pensar nas presidenciais de 2022 numa altura em que a sua popularidade continua em negativos, depois das crises dos Coletes Amarelos e de algumas medidas polémicas que promoveu, a que se juntam as críticas pela gestão da pandemia de covid-19.

Filha de cabo-verdianos é ministra da Igualdade

Outro dos destaques do novo Governo francês é a nomeação da franco-cabo-verdiana Elisabeth Moreno para ministra-delegada da Igualdade Mulheres-Homens.

A empresária de 49 anos era, até agora, directora-geral para África do Grupo HP (Hewlett-Packard) depois de ter feito carreira na área dos negócios de tecnologia.

Filha de imigrantes cabo-verdianos em França, Elisabeth Moreno chegou ao país com apenas 6 anos e cinco irmãos, representando um caso improvável de sucesso, como a própria assumiu numa entrevista ao Le Figaro em 2019.

“Marquei todos os quadrados da impossibilidade: pais que não sabem ler nem escrever, uma mulher negra, criada numa cidade”, como referiu.

Novidades do executivo de Jean Castex são ainda Brigitte Bourguignon (Autonomia), Alain Griset (Pequenas e Médias Empresas), Nadia Hai (Cidades), Brigitte Klinkert (Inserção) e a ecologista Barbara Pompili (Transição Ecológica).

Jean-Yves Le Drian (Negócios Estrangeiros), Jean-Michel Blanquer (Educação Nacional), Florence Parly (Defesa), Olivier Véran (Saúde), Marc Fesneau (Relações com o Parlamento) e Roxana Maracineanu (Desportos) mantêm as pastas que já tinham no anterior executivo.

De destacar também que Élisabeth Borne sai da Transição Ecológica para o Trabalho e Julien Denormandie passa da Habitação para a Agricultura e Alimentação.

Bruno Le Maire mantém a pasta da Economia e Finanças, à qual se acrescenta o peso do Relançamento económico do país.

Os “quatro grandes eixos” do novo Governo nomeado por Macron são a “reconstrução do país”, o “patriotismo republicano”, “mais liberdades e associações” e “a Europa”, como enumerou Gabriel Attal aos jornalistas.

Susana Valente SV, ZAP //

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