Sobem para quatro as mortes de professores que a Fenprof quer ver investigadas

Rodrigo Antunes / Lusa

A morte repentina de três professores enquanto trabalhavam nos últimos meses fez soar os alarmes na Federação Nacional dos Professores (Fenprof).

Numa conferência que decorreu no Porto, Mário Nogueira, secretário-geral da organização sindical, revelou que vai pedir ao Ministério Público (MP) que investigue as causas das mortes.

Logo após o anúncio, chegou à Fenprof mais um caso: uma professora da Escola Básica e Secundária de Fajões, em Oliveira de Azeméis, morreu recentemente enquanto corrigia testes de avaliação.

“São pessoas que morrem a trabalhar. Perante tantos casos em tão pouco tempo, temos de perceber se é apenas coincidência ou se é mais do que isso”, diz o dirigente ao Diário de Notícias, acrescentando que “provavelmente vão surgir mais” denúncias nos próximos dias.

Para Mário Nogueira, é preciso “apurar os motivos das mortes”, para determinar se podem estar relacionadas com “o desgaste, burnout, o facto de alguns colegas estarem a chegar ao limite”.

Se a investigação provar que as quatro mortes não foram coincidência, “a Fenprof vai colocar uma ação contra o Estado português para que seja responsabilizado não só pelas mortes mas também pelo desgaste, a exaustão, o burnout a que chegou o corpo docente português”.

Na conferência de imprensa em que fez a avaliação do ano letivo e o balanço da legislatura, o secretário-geral da Fenprof falou em três casos de mortes de professores enquanto trabalhavam.

Em Manteigas, uma professora “em plena sala de aula, fulminantemente, caiu para o lado”. Já no Fundão, outra docente “estava a corrigir 60 provas aferidas, a lançar as notas dos seus alunos e a fazer vigilâncias de exames. Aparece morta em cima do teclado do computador em pleno lançamento das notas”.

Um terceiro caso ocorreu num agrupamento de Odivelas. “O professor enviou por email, cerca da 1h, os dados pedidos pela escola. No outro dia não apareceu, a medicina legal concluiu que teria morrido por essa hora”, acrescentou.

“Temos o problema dos horários sobrecarregados, com todo o trabalho que é imposto de forma abusiva e ilegal”, refere Mário Nogueira, lembrando que “os professores trabalham muito próximo das 50 horas semanais, sem tempo para descanso, para a família ou para o lazer”.

Há casos em que os docentes “entram em burnout, ficam de baixa e medicados, o que pode levar a casos mais extremos”. “Temos de perceber se foi isso que aconteceu”, sublinha.

De acordo com o DN, as conclusões do inquérito nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal, coordenado pela investigadora Raquel Varela, da Universidade Nova, que envolveu cerca de 19 mil docentes, revelam que mais de três em cada quatro professores apresentam sinais de esgotamento emocional.

Uma das principais causas de burnout “é a sobrecarga de trabalho e há estudos que a relacionam diretamente com algumas doenças, nomeadamente cardíacas“. Sabe-se, por exemplo, que “há uma relação íntima com a hipertensão – doenças que, no limite, podem levar à morte e necessariamente ao adoecimento”.

Há um número elevado de professores que se veem obrigados a deixar de trabalhar temporariamente. De acordo com a estimativa de Mário Nogueira, “o número de professores de baixa ao longo do ano situa-se entre os dez e os 12 mil”, o que corresponde acerca de 10% do corpo docente, “constituído por 115 a 120 mil professores”.

Aproximadamente metade dos professores ao serviço têm pelo menos 50 anos e cerca de 15% têm 60 ou mais anos.

ZAP //

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11 COMENTÁRIOS

  1. Como é que este Sr. prova qual o nexo de causalidade entre a morte e a actividade profissional dos professores? Será ele bruxo?

    • Caro Joaquim Pereira, acha que Mário Nogueira está a provar alguma coisa? Quem parece querer provar… é o Senhor com as interrogações que coloca.
      Uma coisa é certa: a vida de professor não é fácil, ao contrário da opinião de muita gente.

  2. Docentes que começam a trabalhar aos 25 anos e chegam aos 50 ou 60 a ensinar crianças e jovens, num contexto de currículos extensos totalmente incoerentes e repletos de inutilidades, de jovens e famílias desmotivados, de brutal carga burocrática, com reuniões a pretexto de tudo e de nada que mais não visam do que controlar os professores e trazer-lhes a rédea curta, com projetos, com planos de recuperação e de atividades que, muitas vezes, para nada ou quase nada servem, tais docentes numa situação assim só podem estar muito doentes, física mental e moralmente. A sua alegria de viver é nenhuma, a sua motivação é nula, o seu futuro é triste e negro e, portanto, os que não morrem repentinamente a trabalhar, vão morrendo aos poucos, num assédio satânico em que está transformada a política educativa em Portugal, qual rede que se atira sobre bichos para lhes manietar os movimentos. O direito ao tempo livre despreocupado, ao lazer, ao desporto, ao convívio privado ou público, à vida pessoal, a fazer outras coisas que dêem prazer e energia fazem parte do direito à vida e à integridade pessoal.
    É preciso urgentemente mudar currículos e mudar horários. Um professor não pode passar o dia na escola e à noite levar, ainda, a escola para casa. Isto é um trato desumano e cruel. Os currículos têm de ser mais curtos, muito mais incisivos e muito mais direccionados para a emergente e nova realidade sócio-económica – a chamada Revolução 4.0, onde muitas das chamadas ciências sociais e humanas têm/terão apenas um papel suplementar e, por isso, devem ser opcionais Por exemplo, no ensino secundário por que razão a filosofia e a história não hão-de ser disciplinas de opção e por que razão não há-de ser cada escola a elaborar o respetivo programa? Se assim fosse, estas disciplinas passariam a ser muito mais interessantes e úteis e passariam a ter uma procura maior, por estarem sob os signos da liberdade e da criatividade. Bastante mais haveria a dizer e a ponderar sobre matéria curricular, nomeadamente sobre cursos profissionais, mas este não é o fórum mais adequado.
    Já os horários deveriam, se fosse possível a excelência, ser inteiramente flexíveis e fixados por acordo entre docentes e discentes, observando um acertado equilíbrio entre o trabalho presencial e não presencial, mobilizando os novos meios digitais de comunicação e informação. Evidentemente, isto não é ainda possível de todo. Mas porque não ir substituindo, pouco a pouco, uma escola de massas por uma escola de cidadãos, onde professores e alunos se encontrem um ou dois dias por semana para avaliarem o trabalho feito sob rigorosa planificação e calendarização comum, voluntariamente trabalhada, aceite e respeitada por todos, com o auxílio da redes sociais e da vídeo-conferência, para que ninguém perca contacto com ninguém e se possam monitorizar, em vista da proficiência, uns aos outros? Estamos em crer que um ensino nestes moldes, além de antecipar o futuro próximo, tiraria muita tensão e cansaço aos professores. Precisam-se de ações regulares em didáticas específicas para espevitar a criatividade, ações que os centros de formação têm descorado de forma grosseira. Essas ações ajudarão, e muito, a difícil vida de ser professor.

    • Que bom texto, Sr. (a) Professor (a)! Escusava de se ter dado ao trabalho, porque é pão-de-ló para burros. Ainda assim, esqueceu-se de esconjurar as “diretorinhas” e os “diretorinhos” que, tendo-lhes subido à cabeça o cargo, se transformaram naqueles broncos e psicopatas ditadores sul-americanos dos anos 70 e 80 do século 20 e passam o tempo a fazer a vida negra aos professores e funcionários que aceitam e sofrem todas as tiranias, só lhes faltando baixar as calças ou levantar as saias – e nalguns casos até o fazem – por causa das malditas progressões, do “muito bom” ou do “excelente” a fim de não ficarem parados no mesmo escalão 15, 20 ou mais anos a ver passar comboios, a contar cabelos brancos e cheios de dívidas para pagar. Não foi só por questões políticas que o Mário Nogueira pediu um inquérito às mortes. Esse senhor é uma velha raposa e sabe da podridão que grassa nas escolas portuguesas, salvo as honrosas exceções que só confirmam as regra, de norte a sul do país. Uma colega que esteve numa escola do norte, contava o caso de um «energúmeno de um diretor» que trata os colegas aos berros; que está há mais de 30 anos à frente da escola, como presidente diretivo e executivo primeiro e, agora, como diretor, cometendo toda a sorte de tropelias e arbitrariedades, instalando um clima de medo e terror como estratégia de domínio, suportado pelos caciques da comunidade local, que têm a ferocidade como boa pedagogia. Dizia-se que durante muito tempo alugou, à noite, o pavilhão desportivo da escola, recebendo o dinheiro e não passando recibo e que, com o negócio das presidências e direções, terá amealhado uma fortuna. Nunca foi investigado, que se saiba; e a colega veio de lá muito doente e traumatizada e ninguém a terá indemnizado pelos prejuízos reais causados na sua vida e saúde.

  3. bem se formos a pensar assim,e então aqueles que morrem nas outras profições? enfim mais uma para os senhores professores alegar mais regalias, enfim

  4. Qualquer óbito no exercício da profissão, é de lamentar desde o trolha ao mais alto cargo. Quando acontece, geralmente a causa de morte é diagnosticada por autopsia, estes casos não são de forma nenhuma “casos isolados ou singulares”, infelizmente acontecem !…… Servir-se destas situações para campanha politica, é simplesmente degradante, mas vindo de quem vem mais nada me admira !

  5. Cada profissão tem os seus riscos: na construção civil morre-se por queda ou desabamentos, os professores morrem por “burnout”, os deputados morrem de tédio…

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