SNS já está a enviar doentes covid-19 para o privado. Hospital de Penafiel à beira da rutura

Giuseppe Lami / EPA

O jornal Público avança esta quarta-feira que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) já está a encaminhar doentes com covid-19 para os hospitais privados.

De acordo com o matutino, há pelo menos uma unidade privada no norte do país, o Hospital Escola Fernando Pessoa, em Gondomar, que está a receber pacientes enviados pelo público por falta de capacidade para dar resposta à elevada afluência.

Na terça-feira, o referido hospital tinha já dez doentes internados com covid-19 transferidos do Centro Hospitalar Tâmega e Sousa, que não está a conseguir dar resposta à procura, e assegura ter capacidade para receber mais 20 doentes infetados.

O Hospital Escola Fernando Pessoa tinha já um acordo com o Centro Hospitalar Tâmega e Sousa, que tem unidades em Penafiel e Amarante e serve as populações de Penafiel, Paredes, Castelo de Paiva, Lousada, Felgueiras, Paços de Ferreira, Amarante, Baião, Marco de Canaveses, Celorico de Basto, Cinfães e Resende.

Contudo, a semana passada, a Administração Regional de Saúde do Norte acionou também a convenção que existe desde abril que possibilita o encaminhamento ao privado de doentes com covid-19.

Hospital de Penafiel à beira da rutura

A Ordem dos Enfermeiros Norte denunciou esta quarta-feira a “situação insustentável” do Hospital Padre Américo, em Penafiel, apontando que às 22:00 de segunda-feira a área respiratória do serviço de urgência tinha 115 doentes, 29 dos quais com covid-19.

“Isto para quatro enfermeiros. O conselho de administração tenta gerir, conseguiu um reforço de enfermeiros a meio da noite, mas não é humanamente possível (…). A tutela tem de tomar uma decisão importantíssima e olhar para este hospital, o mais preocupante a norte, de forma incisiva”, disse à agência Lusa o presidente da secção regional do Norte da Ordem dos Enfermeiros.

João Paulo Carvalho disse ter conhecimento de que “às 22:00 de ontem [segunda-feira] a área respiratória da urgência tinha 115 doentes”, sendo que “31 tinham sido triados por enfermeiros e tinham seis horas de espera para observação médica”.

Somavam-se 55 doentes à espera de exames complementares e 29 casos covid-19 a partilhar o mesmo espaço. Hoje às 08:00 eram 60 os doentes na mesma área e às 16:00 eram 101, 35 dos quais internados na urgência”, acrescentou.

Às informações que disse terem-lhe sido transmitidas por “colegas exaustos e no limite”, João Paulo Carvalho juntou críticas e apelos.

É impossível prestar cuidados nestas condições. Ontem [segunda-feira] conseguiram mais três enfermeiros para reforçar a equipa. Quando a tutela oferecer contratos de quatro meses, os chamados ‘contratos covid’, as dificuldades em contratar enfermeiros são muitas”, disse o presidente da secção regional do Norte.

Com unidades em Penafiel e em Amarante, em causa está um hospital do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa (CHTS) que presta apoio a cerca de 520 mil pessoas de uma região que inclui Paços de Ferreira, Lousada e Felgueiras, concelhos onde o Conselho de Ministros decretou dever de permanência no domicílio.

João Paulo Carvalho acrescentou saber que 13 enfermeiros deste centro hospitalar estão infetados com o novo coronavírus e que no Hospital Padre Américo estão internados 164 internados covid-19, num total de capacidade instalada de 454 camas.

“Alguma coisa tem de ser feira. A tutela, de forma pomposa e mediática, colocou lá na semana passada um hospital de campanha. Pergunto aos meus colegas e dizem-me que só serve para fazer colheitas e que não existem recursos humanos. Não é uma resposta eficaz”, referiu João Paulo Carvalho.

João Paulo Carvalho pede cerca sanitária

O presidente da secção regional do Norte da Ordem dos Enfermeiros, que defende uma cerca sanitária a concelhos daquela região, alertou que “dos seis concelhos com mais novos casos covid-19 nas últimas duas semanas, cinco são do Vale do Sousa”, referindo-se a Paços de Ferreira, Lousada, Paredes, Felgueiras e Penafiel.

“São todos da mesma área, todos de uma área onde foi construído um hospital pensado para 350 mil pessoas, mas a apoiar mais 200 mil. De que forma é que os doentes não covid estão a ser tratados? Estamos muito focados e a esgotar recursos na covid, mas há outras situações muito complexas”.

“Quando o lençol é curto, não dá para tapar a cabeça e os pés”, sublinhou.

O responsável também defende que os doentes da área do CHTS “comecem a ser desviados” para outras unidades hospitalares e que os setores privado e social “sejam envolvidos no processo”. “Isto tem de ser feito urgentemente. Neste momento as pessoas não aguentam mais. Risco é grande e, numa situação destas, os procedimentos não podem ser aligeirados como já começam a ser”, concluiu.

A agência Lusa solicitou informações ao CHTS, mas até ao momento sem sucesso. Na sexta-feira, o presidente do CHTS, Carlos Alberto Silva, garantiu que “não está em rutura”, revelando que contratou 130 profissionais devido à “pressão” da pandemia da covid-19.

O Hospital de São João, no Porto, está já a sentir alguma “pressão”, numa altura em que ainda não começaram as típicas doenças de inverno.

“Sabíamos que a pressão ia acontecer nesta altura do ano por causa das doenças respiratórias. O nosso inverno normal é assim. Já tínhamos doentes a mais, já tínhamos de gerir as camas até à exaustão. Agora há doentes que necessitam de isolamento, o que obriga a que não estejam juntos. Estamos em outubro e vem pela frente novembro, dezembro, janeiro e fevereiro. A mudança de temperatura, por si só, descompensa as doenças crónicas que estiveram muito afastadas dos cuidados de saúde”, refere o diretor do Serviço de Medicina Interna do Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ).

ZAP // Lusa

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4 COMENTÁRIOS

  1. Governantes de M—- estavam á espera de quê? Que só acontece aos outros? Mentalidade pequenina. Só tem habilidade para Mentir, Roubar. Cambada de Vigaristas.
    Eles estão Sempre protegidos, senão for de uma forma é de outra, agora o Povo não querem saber. Só mesmo quando são empurrados e mesmo assim…
    Politicos é só palavras, actos nem vê-los.

  2. Por onde andam os tais médicos e enfermeiros prometidos várias vezes e que serviram até de propaganda política para descarregar o ódio sobre o governo de Passos Coelho condicionado e de mãos atadas devido à intervenção da troika? De promessas está o inferno cheio! Até o próprio BE se descarta agora ao admitir que foram apenas promessas não cumpridas.

  3. Há qualquer coisa que não joga certo, devem haver negócios escuros por aí.
    Onde estão os hospitais de campanha do INEM, da Cruz Vermelha e outros, estão armazenados ou montados em lugares onde não fazem falta? E os hospitais militares, o que foi feito deles, estão todos cheios?
    Há uns anos acidentei-me em Lisboa, zona onde eu moro e trabalho, e fui parar parar ao S. João do Porto porque as unidades de queimados na minha zona estavam completas. Qual foi o problema e qual é agora se alguns pacientes forem transferidos para outros hospitais, deixam de ser atendidos?
    E é preciso recorrer a hospitais privados quando existem vagas no público?
    Cheira-me a negócios chorudos…

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