Smyllum Park fechou há quase 40 anos. Os relatos de abusos ainda chocam a Escócia

(dr) Lanark Museum

O orfanato católico Smyllum Park, na Escócia, abriu em 1864 e fechou portas em 1981

Quase 40 anos depois de ter fechado portas, o orfanato católico Smyllum Park, na Escócia, continua a chocar pelos relatos de abusos e violência. Foram detidas 12 pessoas, na passada quinta-feira, entre elas várias freiras.

A polícia escocesa anunciou, na última quinta-feira, a detenção de 12 pessoas, entre elas 11 mulheres, algumas freiras, e um homem com idades entre 62 e 85 anos, como parte da investigação sobre “abusos físicos e sexuais” de crianças cometidos na instituição.

Localizado em Lanark, uma pequena cidade na região central do país, Smyllum Park ficou conhecido como o “orfanato fantasma” quando fechou portas, em 1981, depois de mais de um século comandado pela ordem das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo.

A britânica Marie Peachey foi uma das crianças que viveu neste orfanato católico, juntamente com o irmão mais velho, Samuel, e a irmã mais nova, Brenda. À BBC, a mulher de 50 anos diz ter ficado “chocada, assustada, enjoada e feliz” com a notícia das prisões.

“São muitas emoções numa só”, explica Peachey, que diz que nunca mais se vai esquecer daquilo que viveu no orfanato. “Uma brincadeira pode ser o gatilho que me faz voltar a Smyllum, a ser uma menina assustada. Tenho 50 anos e ainda hoje sinto medo“.

No início deste ano, os testemunhos efetuados como parte das investigações fizeram com que a irmã Ellen Flynn, que está atualmente à frente da ordem católica, fizesse um pedido de desculpas público. A responsável classificou como “horripilantes” os relatos das vítimas e declarou que estes factos vão “totalmente contra” aquilo que a ordem representa.

Segundo o jornal britânico The Scottish Daily Mail, a polícia também começou a investigar as Irmãs de Nazaré, outra ordem católica que administrava lares para crianças.

400 crianças enterradas em cova clandestina

Mais de 11,6 mil crianças passaram pelo Smyllum Park desde a sua abertura, em 1864, até ser encerrado 117 anos depois. Algumas eram órfãs, outras faziam parte de famílias que não tinham condições para sustentá-las.

Há vários anos que a Scottish Child Abuse Inquiry (SCAI) analisa as denúncias sobre os alegados abusos cometidos neste local. A maioria das pessoas que testemunharam garante que, enquanto ali viveram, foram agredidas, submetidas a castigos e algumas dizem ainda ter sido vítimas de abusos sexuais.

Gregor Rolfe, advogado das Filhas da Caridade, reconheceu no ano passado perante o SCAI que um ex-funcionário pode ter abusado sexualmente de menores e que, embora tenham sido feitas denúncias às freiras, estas nunca chegaram à polícia.

Alguns testemunhos dão conta de um grande número de crianças que teriam morrido no orfanato, mas a forma exata como essas mortes aconteceram e onde terão sido enterrados os corpos é algo que não se soube durante anos.

Em 2003, um dos sobreviventes encontrou uma cova clandestina num terreno próximo ao orfanato onde, segundo uma investigação da BBC, foram enterradas pelo menos 400 crianças.

“Comi relva porque tinha fome”

Ainda que a maioria dos jovens que viveram no orfanato já tenha morrido, as denúncias do processo continuam pelos que ainda estão vivos. No final de 2017, o SCAI revelou alguns dos testemunhos das pessoas que teriam sido vítimas de abusos.

Uma destas pessoas afirmou que as freiras o agrediam e o deixavam preso e que, numa certa ocasião, chegaram mesmo a enfiar a sua cabeça numa sanita. “Estava histérico, porque pensava que ia desaparecer por ali”, contou.

Outra vítima, ao ser interrogada sobre a comida no orfanato, disse que estava sempre com fome. “Não me lembro de comida. Lembro-me de ter comido relva porque tinha fome“, recorda.

Outra testemunha que diz ter vivido no local desde os quatro anos afirmou ter recebido choques elétricos e contou que ficou amarrada a uma cama e amordaçada durante várias horas, engasgada com uma almofada.

Theresa Tolmie-McGrane, que se apresenta como uma das vítimas, contou à BBC que tinha seis anos quando chegou ao orfanato e que viveu ali “mais de uma década de abusos físicos, sexuais e mentais”.

“Todas as crianças foram agredidas, castigadas, trancadas em quartos escuros. Faziam-nos comer o nosso próprio vómito. Diria que muitos de nós tivemos a boca lavada com sabão”, recorda.

Depois de quase três anos de investigações, o SCAI planeia divulgar um relatório preliminar sobre os abusos nas próximas semanas e uma decisão final em 2019.

Igreja vive momento negro

Este fim-de-semana, o Papa Francisco visitou a Irlanda, onde se encontrou com vítimas de abusos cometidos por padres quando eram crianças. Na sua primeira passagem pelo país em 39 anos, o líder da Igreja Católica disse ter ficado envergonhado pelo fracasso da instituição em lidar de forma adequada com estes “crimes repugnantes”.

Esta foi a 24.ª viagem ao exterior do Papa, que ocorre num momento que está a abalar a Igreja Católica, com revelações, na semana passada, de antigos abusos sexuais perpetrados pelo clero nos Estados Unidos.

Uma investigação no estado norte-americano da Pensilvânia revelou que mais de mil menores foram abusados por 300 padres e que os casos foram ocultados pela Igreja.

Agora, o antigo núncio apostólico nos EUA, o arcebispo Carlo Maria Viganò, acusa o Papa Francisco de conhecer, desde junho de 2013, as acusações de abusos sexuais sobre o cardeal Theodore McCarrick, pedindo-lhe que renuncie.

O Papa não considerou necessário comentar estas acusações. “Não vou dizer uma palavra sobre isso, acho que o comunicado fala por si“, declarou Francisco, questionado durante o regresso a Roma.

“Eu li o comunicado esta manhã”, disse o Papa aos jornalistas que o acompanharam no avião. “Leiam o comunicado atentamente e façam o vosso próprio julgamento”.

“Têm capacidade jornalística suficiente para tirar conclusões. É um ato de confiança. Quando passar algum tempo e vocês tiverem tirado as conclusões talvez eu fale, mas gostaria que a vossa maturidade profissional fizesse isso”, adiantou o pontífice.

 

ZAP // BBC

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