“Salvadores brancos”. Organização vai acabar com as viagens de celebridades a África

(dr)

A organização Comic Relief vai deixar de enviar celebridades como Ed Sheeran ou Stacey Dooley para fazerem filmes promocionais em países africanos após decidir que a abordagem reforça estereótipos ultrapassados sobre “salvadores brancos”.

Além de acabar com as viagens de celebridades a África, a instituição de caridade anti-pobreza, mais conhecida pelos seus eventos de angariação de fundos do Dia do Nariz Vermelho, vai também deixar de retratar o continente com imagens de pessoas famintas ou crianças doentes.

Em vez disse, de acordo com o jornal britânico The Guardian, a Comic Relief vai destacar o seu trabalho em nações africanas, promovendo histórias da vida quotidiana no continente capturadas por cineastas e fotógrafos locais.

A decisão surge após as crescentes críticas à abordagem de décadas da Comic Relief para arrecadação de fundos, que muitas vezes incluía enviar uma celebridade britânica branca a um país africano, filmar a sua reação às condições que encontrava e depois pedir dinheiro ao público.

No ano passado, o parlamentar trabalhista David Lammy criticou as fotos de Stacey Dooley a segurar um jovem do Uganda numa viagem da Comic Relief, dizendo que a apresentadora da BBC estava a perpetuar “estereótipos cansados ​​e inúteis”. Embora não duvidasse das boas intenções de Dooley, Lammy disse que o mundo não precisava de mais “salvadores brancos”.

Lammy escreveu mais tarde que estas viagens convenceram o público britânico de que a África é “uma bolha homogénea de dor, sofrimento e fome” em vez de um continente com muitas culturas e nações diversas.

Ed Sheeran também foi criticado em 2017, depois de ter visitado a Libéria e encontrado duas crianças a dormir num barco numa praia. O artista britânico ofereceu-se para pagar a estadia num hotel para dar-lhes abrigo seguro. O vídeo tornou-se viral e ajudou a arrecadar milhões de libras, mas foi rotulado de “pornografia da pobreza”.

Lenny Henry, um dos cofundadores da Comic Relief, disse, em declarações ao The Guardian, que era hora da instituição de caridade mudar a sua abordagem.

“Diversidade e inclusão são importantes tanto na frente como atrás das câmaras. Os tempos mudaram e a sociedade evoluiu e devemos evoluir também. Os africanos não querem que contemos as suas histórias para eles, o que precisam é de mais agência, uma plataforma e parceria”.

“Eu vi em primeira mão o que significa para as comunidades africanas ver alguém que se parece com elas encarregado de dirigir filmes… Investir em talentos locais em toda a África para contar histórias das suas comunidades é ótimo e um passo em frente muito necessário, mas como sempre há mais a ser feito”.

A executiva-chefe da instituição de caridade, Ruth Davison, disse que a sua organização ouviu os opositores da sua abordagem tradicional de arrecadação de fundos, que a instituição tem usado desde que foi fundada em 1985 para combater a fome na Etiópia.

“Os tempos mudaram, o público mudou, África mudou”, disse Davison. “Existe uma fórmula para a forma como a arrecadação de fundos tem sido feita, mas não precisa de ser assim.”

A abordagem antiga arrecadou 1,4 mil milhões de libras nos últimos 35 anos, mas a mudança no tom ajudará a evitar a fadiga dos doadores com a ideia de que décadas de doações pelo público britânico não conseguiram melhorar as nações africanas.

O novo objetivo é mostrar como as nações africanas estão a desenvolver-se rapidamente, mas ainda sofrem o impacto da desigualdade crescente.

“O que leva as pessoas a doar é uma conexão emocional – isso não precisa de ser pena”, disse Davison. “Pode ser alegria, pode ser raiva, pode ser uma sensação de positividade e esperança.”

A instituição fará uma pré-estreia de três filmes de cineastas de todo o continente africano a explorar o impacto das questões de saúde mental, mudanças climáticas e mulheres jovens que escapam de casamentos forçados.

O próximo evento do Red Nose Day está previsto para ser realizado em março de 2021, quando as mudanças se deverão tornar aparentes para os telespectadores.

Pela primeira vez, a Comic Relief também está a usar o seu dinheiro para abordar diretamente as desigualdades raciais na Grã-Bretanha, gastando quase seis milhões de libras para apoiar organizações lideradas por negros e minorias em todo o Reino Unido.

ZAP //

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