Resultado de Ventura nas presidenciais agita PSD. Autárquicas serão o primeiro teste

Mário Cruz / Lusa

O resultado de André Ventura nas eleições presidenciais está agitar o PSD, uma vez que o líder do Chega conseguiu chegar a vários tipos de eleitorados. As eleições autárquicas serão o primeiro teste para o partido de Rui Rio.

Em declarações ao Diário de Notícias, o ex-deputado social democrata Miguel Morgado disse que Rui Rio dá sinais de ainda não saber como lidar com esta nova realidade política.

Para justificar esta afirmação, o antigo assessor político de Pedro Passos Coelho usa o discurso de Rio na noite eleitoral. “Disse que era extremista e radical, mas fez o elogio ao esmagamento da extrema-esquerda, nomeadamente no Alentejo, o que aconteceu à custa de Ventura”, disse.”Não percebi o que foi aquele discurso, porque se diz que Ventura é radical, não há entendimento possível com o Chega, a quem por outro lado elogia o feito político”.

Para o ex-deputado, o primeiro teste serão as eleições autárquicas de outubro, uma vez que Ventura conseguiu boa votação em quase todos os distritos, mostrando que o Chega terá um impacto na próxima ida às urnas.

“O PSD terá agora que fazer contas e perceber que, sem coligações com o Chega, poderá perder algumas câmaras ou não ganhar outras que desejava“, frisou.

Rui Rio tem estado em silêncio sobre os nomes para as autárquicas de 2021.

Em dezembro, o Jornal de Notícias avançou que Pedro Santana Lopes poderia estar de volta ao partido de Rui Rio, após um jantar num restaurante de Lisboa com o líder cor-de-laranja. O JN avançou que o PSD estaria a equacionar o antigo primeiro-ministro para cabeça de lista por Lisboa nas eleições autárquicas de 2021.

No entanto, o atual líder do PSD e o seu antigo presidente negaram que o encontro entre os dois tenha tido algum intuito relacionado com as eleições autárquicas de 2021. Santana Lopes assegurou que não houve qualquer convite sobre autárquicas ao jantar e disse ainda não querer ser candidato.

No dia seguinte, o semanário Expresso adiantou que Gonçalo Reis, presidente do Conselho de Administração da RTP, será o preferido da direção do PSD para candidato à Câmara Municial de Lisboa.

Para o Porto, segundo o Público, o eurodeputado social-democrata Paulo Rangel é um dos nomes com mais apoio nas estruturas do partido. Porém, recentemente, o eurodeputado do PSD também afastou essa hipótese.

“É altura de preparar seriamente as eleições autárquicas”

O ex-dirigente democrata-cristão Diogo Feio defendeu esta segunda-feira que o centro-direita precisa de um “programa verdadeiramente reformista”, sugeriu que PSD e CDS devem refletir sobre a sua ação futura, e que é altura de preparar as autárquicas.

Contactado pela Lusa, Diogo Feio, que foi líder parlamentar do CDS-PP, e preside atualmente ao conselho diretivo do IDL – Instituto Amaro da Costa, defendeu que o espaço não socialista “vai ter de ter um programa, um conjunto de ideias, a apresentar de uma forma estruturada aos eleitores”.

“Diria que tem de ter um programa verdadeiramente reformista. Acho que o centro-direita em Portugal tem de ter uma posição muito clara em relação à forma de combater a pandemia, em relação ao modo como surgem os apoios, ou não, de natureza económica neste momento, e aos moldes pelos quais vamos sair da crise”, disse Diogo Feio.

European Parliament / Flickr

Diogo Feio, ex-líder parlamentar do CDS-PP

O antigo secretário de Estado da Educação advertiu que o PSD e o CDS “têm de ter discursos claros” e mostrou-se “perfeitamente convencido de que serão discursos bem diferentes daqueles que tem” o Chega, a força política liderada por André Ventura, que ficou em terceiro lugar nas eleições presidenciais de domingo, obtendo 11,9%, correspondendo a 496.661 votos.

“O PSD e o CDS assumiram não o fazer [apresentar candidatos do próprio partido) e, portanto, agora também devem ler os resultados eleitorais de umas eleições em que não eram diretamente participantes e retirar conclusões em relação à sua ação futura. Diria que, neste momento, é altura de preparar seriamente as eleições autárquicas”.

Já o antigo presidente do CDS José Ribeiro e Castro defendeu esta terça-feira que a formação de coligações entre os democratas-cristãos, PSD e Chega para as eleições autárquicas seria “completamente deslocado”, e apelou a uma “profunda introspeção” do centro-direita.

Contactado pela Lusa, José Ribeiro e Castro, fundador do CDS e antigo secretário de Estado adjunto do vice-primeiro-ministro Diogo Freitas do Amaral nos governos da Aliança Democrática (de 1980 a 1983), rejeitou possíveis cenários de “coligação autárquica com o Chega”.

“O Chega nunca concorreu a nenhumas eleições autárquicas, estas serão as primeiras, e, portanto, seria completamente deslocado fazer coligações conjuntas com partidos que nunca se apresentaram a eleições. Que eu saiba, isso só acontece em Portugal com o PEV, que nunca se apresentou a eleições e vai sempre coligado com o PCP. À parte da CDU, não conheço nenhum caso em que haja coligações entre partidos que têm uma implantação e um trabalho autárquico, e partidos que surgem pela primeira vez”, sustentou.

Pedro Nunes / Lusa

O ex-presidente do CDS-PP, José Ribeiro e Castro

As autárquicas, previstas para o final do ano, “serão importantes”, no entanto, para “ver o grau de consistência e implantação” de Chega e da Iniciativa Liberal.

Já PSD e CDS-PP têm de fazer uma reflexão sobre a reorganização que está a decorrer na direita: “O que eu gostaria era que o PSD e o CDS fizessem uma profunda introspeção, verificassem como é que são capazes de ir de novo ao encontro do seu eleitorado, o que é que fizeram para se desencontrarem, não é só agora com o Chega, as pessoas já se afastaram há mais tempo.”

O antigo dirigente democrata-cristão reconheceu que está a ocorrer uma “restruturação partidária” na direita e que as eleições presidenciais “foram uma peça da movimentação desse xadrez”, em particular o terceiro lugar de André Ventura no domingo com 11,9%, correspondendo a 496.661 votos.

Contudo, José Ribeiro e Castro considerou que é “muito ilusório” retirar “conclusões imediatamente sobre esses resultados”, uma vez a “história do país” nas presidenciais mostra que o resultado “esgota-se nos dias a seguir”.

Ribeiro e Castro considerou também que o Chega tem “uma linguagem, uma programa e propostas políticas” que fazem com que seja “impossível qualquer acordo” políticos com centristas e sociais-democratas.

“[O Chega] É completamente reprovável do ponto de vista do discurso político que usa, uma linguagem às vezes até mal-educada, azedando o debate político para além daquilo que é política. As discussões em política devem ser bravas, duras e firmes, mas isso é completamente diferente de uma linguagem as vezes desvairada, que só introduz um clima de zaragata e de conflito na sociedade portuguesa, que não é necessário”, criticou o também antigo eurodeputado.

Maria Campos Maria Campos, ZAP // Lusa

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5 COMENTÁRIOS

  1. Vai ser muito difícil nos meios mais pequenos alguém se aventurar no Chega. É só ciganada, e como diz o provérbio “quem tem cú, tem medo”. Essa gente é um perigo! Mas, por algum lado se tem de começar para meter a corja na linha e acabar com a subsidiodependência.

  2. Isto está a ficar mau… Ainda hoje de manhã um certo jornalista, e comentador, no fórum de uma certa rádio chamou de fascistas, racistas e xenófobos a mais de meio milhão de portugueses. E serão muito mais de 1 milhão, tendo em conta os que não votaram e os que tiveram medo de votar. Será que esse jornalista apenas conhece o livro O Capital de Karl Marx?! É preciso ter lata. Não aceitam o voto dos outros, e ainda se dizem democratas! Estalinistas é o que eles são!!

  3. Por mais que se queira disfarçar a situação politica, a verdade é que todos os dirigentes partidários, sentem o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. O medo indisfarçável dos líderes políticos parece impedi-los, até, de raciocinar sobre o que aconteceu.
    Quer se goste ou não do Chega, esta sua aparição em forte estilo, tem a grande virtude de colocar quer o Presidente, quer os dirigentes socialistas, a pensar em executar (finalmente) algumas reformas, para de alguma forma acalmar os mais revoltados.
    Ainda ontem, Ana Catarina Mendes, líder parlamentar do PS, proferia estas mesmas palavras na televisão, assumindo assim a sua preocupação com o Chega.
    Mas o caminho é inserto. Pequenas reformas para engodar um povo descrente, podem não ser suficientes para refrear o ânimo do Chega e o tempo é muito curto, porque as autárquicas estão já aí.
    Tenho pena. Muita pena, que seja preciso aparecer um partido ameaçador, para os detentores do poder pensarem, sob pressão, fazer reformas que deviam ter feito, mas nunca quiseram fazer. E finalmente há que pensar um pouco. Quem tem afinal culpas no cartório?
    O Chega, ou outros ao mesmo estilo, ou um governo socialista que tanto tem prejudicado o país?

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