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Reino Unido em conversações com os talibãs para assegurar retirada de civis britânicos e afegãos

Stringer / EPA

É a primeira confirmação oficial de uma nação ocidental em contactos com os extremistas islâmicos, o que pode ser interpretado como um passo face ao reconhecimento do grupo como autoridade máxima e legítima no Afeganistão.

O Reino Unido iniciou conversações com os talibãs para assegurar a “livre passagem” dos seus nacionais e aliados para fora do Afeganistão depois de o movimento extremista islâmico ter assumido o controlo do país. Simon Gass, representante especial britânico para a transição no Afeganistão, terá viajado para Doha para se encontrar com os líderes talibãs que ali instalaram a sua base.

Gass “vai encontrar-se com altos representantes talibãs para salientar a importância da livre passagem para fora do Afeganistão para os cidadãos britânicos e afegãos que trabalharam para nós”, disse o porta-voz do Governo em comunicado. A solução pode passar pelos países vizinhos, como o Paquistão, o Uzbequistão ou o Tajiquistão — uma via que já está a ser explorada pela Alemanha.

Segundo o The Guardian, milhares de afegãos que constam na lista do Reino Unido como elegíveis para evacuação não conseguiram sair do Afeganistão na ponte aérea que decorreu ao longo das últimas semanas e terminou no passado fim-de-semana. Estima-se que cerca de mil intérpretes e as respetivas famílias permaneçam no país, mas com o desejo de viajarem para o Reino Unido.

Downing Street já confirmou a veracidade dos relatos, através de um porta-voz. “O representante especial do primeiro-ministro, Simon Gass, viajou para Doha e encontrar-se-á com um representante sénior dos talibã para sublinhar a importância de uma saída segura do Afeganistão para os cidadãos britânicos e para os afegãos que trabalharam connosco ao longo dos últimos vinte anos.”

Esta é a primeira confirmação pública dos movimentos diplomáticos entre Londres e os talibãs. Como tal, o encontro de Simon Gass, também presidente do comité das agências de inteligência britânicas, pode também ser interpretado como um esforço do Reino Unido e dos seus aliados ocidentais em chegar a um entendimento com os talibãs que pode culminar no reconhecimento do grupo como autoridade máxima legítima no Afeganistão.

Londres juntou-se aos Estados Unidos numa operação gigantesca para retirar mais de 100.000 pessoas do Afeganistão, depois de o exército afegão se ter rendido aos talibãs. No entanto, o processo não decorreu da forma mais pacífica. Inicialmente, surgiram relatos de que o secretário britânicos para os Assuntos Externos não teria ordenado a evacuação de civis britânicos do Afeganistão antes de Cabul ter caído às mãos dos extremistas islâmicos.

Segundo relatou a imprensa britânica, Dominic Raab, que se encontrava de férias, terá delegado a tarefa de contactar o seu homologo afegão (para lhe transmitir a ordem) a um ministro júnior, com quem o ministro dos Negócios Estrangeiros então no cargo se terá recusado falar. Hanif Atmar terá mesmo pedido o adiamento da chamada telefónica para o dia seguinte, de forma a falar com Raab, mas tal acabaria por não acontecer face ao rápido e inesperado avanço dos talibãs.

Posteriormente, surgiram notícias de que os britânicos conseguiram resgatar famílias afegãs cujos membros tinham colaborado com as forças ocidentais durante os vinte anos que durou a guerra e que, perante a urgência de evacuar funcionários diplomáticos e abandonar as embaixadas, viram os seus dados pessoais deixados para trás e, possivelmente, nas mãos do grupo extremista.

Mais recentemente, os altos cargos diplomáticos e militares britânicos e norte-americanos também se envolveram em trocas de acusações a propósito do ataque suicida que causou mais de 170 mortos à entrada do aeroporto de Cabul. Segundo os norte americanos, a porta (Abbey gate) em que o ataque ocorreu estava aberta a pedido dos britânicos, que processavam os seus civis e afegãos elegíveis para evacuação através daquela via. Ontem, Dominic Raab negou esta tese, afirmando que todas as decisões foram tomadas em coordenação com as forças militares dos EUA.

Até agora, mais de 8.000 afegãos que ajudaram as forças da NATO conseguiram deixar o Afeganistão, e Londres deu garantias de que podem permanecer no Reino Unido.

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