Dizer que há recursos para tudo é “mentir e desresponsabilizar as pessoas”, afirma médico intensivista

José Coelho / Lusa

Hospital de São João, Porto

O São João, no Porto, tem 14 “máquinas que substituem o coração e os pulmões”, 11 das quais alocadas à covid-19. Dizer que há recursos para tudo é “mentir e desresponsabilizar as pessoas”, disse o médico intensivista Roberto Roncon.

“Em pandemia é uma ilusão acharmos que temos os recursos ideais. Nunca vamos ter. Se perguntar se tenho os recursos ideais para o programa de ECMO [Oxigenação por Membrana Extracorporal], não. Mas também não temos para cuidados intensivos, nem para a urgência (…). Não podemos ter mais procura do que oferta. Dizer a verdade é uma forma de responsabilizar as pessoas”, referiu o especialista do Hospital de São João.

Em Portugal existem três centros hospitalares com resposta ECMO, a técnica que permite substituir temporariamente a função do coração e dos pulmões através de um circuito extracorporal, e que foi introduzida no país há 10 anos por causa da gripe A.

Com a covid-19, esta “espécie de tecnologia de ponta”, que era encarada como “técnica de resgate de última linha”, começou a ser aplicada “mais precocemente” em doentes que se encontram em cuidados intensivos.

O Hospital de São João já “resgatou” doentes dos Açores referenciados para ECMO e Lisboa, onde quer o Hospital São José, quer o Santa Maria têm reposta ECMO, já “veio buscar” ao Norte. Na sexta-feira, 13 das 14 camas ECMO (para todas as patologias) do São João estavam ocupadas.

Em entrevista à agência Lusa, o coordenador do Centro de Referência de ECMO do Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ) é claro e direto sobre a capacidade de resposta dos hospitais: “Dizer que é fácil e que vamos responder a todas as solicitações é contar a história da carochinha. Estamos num contexto pandémico”.

E nessa lógica de limitação de recursos a ECMO não é exceção. “Não posso garantir que iremos ter recursos para todos os doentes. Isso é mentir. Mas considero aceitável o tipo de resposta ECMO que estamos a dar quando comparada a países como a França, Alemanha, Espanha. E penso que a resposta que temos no Norte do país é muito aceitável”, indicou.

A ECMO, uma espécie de circuito de diálise, que no caso da covid-19 grave faz a substituição da função pulmonar, é acionada quando o tratamento convencional que inclui o ventilador não é suficiente.

O tempo que um doente necessita dessa técnica é “muito variável, mas na covid-19 é elevado” e esse, admitiu Roberto Roncon, “também é um dos fatores de preocupação” atuais porque “é raro o doente que precisa de menos de duas, três semanas de ECMO e existem casos de um ou dois meses”.

“Em termos de consumo de recursos isto é brutal”, admitiu.

Segundo Roberto Roncon, para garantir resposta a solução está na rede e não na generalização, até porque “os países que tentaram generalizar o ECMO tiveram resultados péssimos”.

Giuseppe Lami / EPA

O médico lembrou as razões clínicas e económicas que sustentam a tese de que “é preferível ter um centro que faz 100 casos por ano do que três centros que fazem 30”.

“A primeira razão clínica para não se generalizar é que não se deve levar a cabo uma técnica quando não se dispõe das especialidades cirúrgicas capazes de resolver as complicações. Ou seja, a razão é a segurança do doente. Para diminuir a taxa de complicações, é preciso ganhar experiência”, descreveu.

Entre outros aspetos, em causa está o facto deste circuito extracorporal exigir a introdução de cânulas (cateteres) de grande calibre no doente. Perante complicações, são necessárias cirurgias, como as cardíacas e as vasculares, que não existem em todos os hospitais.

“Pessoas com experiência fazem com que a taxa de complicação diminua. Faz sentido concentrar equipas e experiência (…). Mas um doente covid-19 grave vai morrer porque está num hospital que não tem ECMO? Ideia errada. Desde há cerca de 10 anos existe a miniaturização [máquinas compactas e portáveis] dos circuitos extracorporais. Pode-se ir buscar um doente a outra unidade hospitalar e levar a um centro de ECMO”, descreveu.

É o que acontece em Portugal. Na semana passada, quando o Hospital de Matosinhos referenciou uma doente para ECMO, o São José “veio” buscá-la.

“Curiosamente no dia seguinte o São João já teria mais folga. Mas se temos o privilégio de ter um SNS em que estas questões são fáceis de enquadrar (…), porquê correr o risco de esperar pelo dia seguinte? Nos Estados Unidos, por exemplo, não há rede e cada hospital tenta ser autossuficiente”, sustentou Roberto Roncon.

Critico de expressões como “milagre português” ou pragmático na análise sobre um “virar de página súbito do desconfinamento” entre a chamada primeira vaga e a aquilo que agora vê como um “planalto”, o especialista em medicina interna e medicina intensiva do CHUSJ respondeu à Lusa apontando o que acha ser necessário que as pessoas entendam.

“Para nós, um doente covid-19 não é um doente ‘vip’ (…). A população portuguesa pode continuar a contar connosco [profissionais de saúde]. Estamos cansados, mas não vamos desistir. As pessoas não vão ficar para trás. Já a outra parte dos recursos [os hospitais] responde quanto menos internados tiver e quanto menos internados, menos cuidados intensivos e menos necessidade ECMO”, frisou.

Professor auxiliar na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Roberto Roncon considerou que “é preciso cuidado com o discurso covidocêntrico” porque “a confiança para retomar a economia não se constrói só com discurso político, constrói-se com saúde pública controlada”.

Quanto ao chamado negacionismo que se espelha em movimentos antimáscaras, entre outros, “sem desvalorizar”, considerou que “não se lhes deve dar protagonismo”.

“Não temos um problema significativo de negacionismo em Portugal, temos é pessoas desesperadas. Sempre que falo com alguém que tenta negar alguma evidência científica faço sempre o mesmo convite: passar visita na minha unidade sem máscara. Até agora ninguém aceitou”, concluiu.

// Lusa

PARTILHAR

1 COMENTÁRIO

  1. Quem mata é condenado por homicídio. Por falta de planeamento, preparação e má gestão dos recursos, milhares – se não mesmo milhões – de utentes do SNS ficam sem terem consultas, sem serem rastreados e tratados, o que, inevitavelmente, assassinará muitos deles. Pergunto: QUEM VAI SER CONDENADO POR ESSES HOMICÍDIOS?

RESPONDER

Meteorito atinge casa de homem indonésio e transforma-o em milionário

O caso insólito aconteceu em Kolang, na Sumatra do Norte, Indonésia. Um fabricante de caixões de 33 anos encontrou um meteorito no seu jardim, depois deste atingir o telhado da sua casa em agosto. O protagonista …

Há 20 anos que ninguém sabe do paradeiro de dois cadernos de Charles Darwin

Dois dos cadernos do naturalista Charles Darwin, um dos quais com o rascunho da “Árvore da Vida” (1837), estão desaparecidos há cerca de 20 anos e terão sido muito provavelmente roubados, anunciou esta terça-feira a …

Cientistas reconstruiram explosão de Beirute através das redes sociais

Cientistas forenses recorreram a imagens partilhadas nas redes sociais para reconstruirem a explosão de Beirute, em agosto, que matou 191 pessoas. A 4 de agosto, uma série de explosões causadas por 2.750 toneladas de nitrato de …

Professor alemão do ensino básico é suspeito de canibalismo e homicídio

Depois de uma pilha de ossos ter sido encontrada por transeuntes no parque de Berlim, as autoridades alemãs descobriram que se tratava de uma vítima de canibalismo. As pistas conduziram-nas, mais tarde, à casa do …

Marselha 0-2 FC Porto | Dragão vence e abre porta dos "oitavos"

Basta apenas um ponto para que o FC Porto carimbe uma vaga nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Na noite desta quarta-feira, os “dragões” venceram o Marseille por 2-0 – com os contributos de Zaidu …

Mais de 100 mil crianças morreram com VIH e 320 mil ficaram infetadas. A pandemia pode piorar o cenário

De acordo com um relatório da UNICEF, a cada 100 segundos uma criança ou jovem com menos de 20 anos foi infetado pelo VIH no ano passado. Com os novos dados, o número total de …

Animação mostra como foram construídas as pontes do século XIV

Construir uma ponte sobre a água parece uma tarefa complicada e a verdade é que, apesar dos inúmeros avanços tecnológicos, os fundamentos pouco alteraram desde os tempos medievais. A Ponte Carlos tem 618 anos, mas não …

Médicos sem Fronteiras deixam hospital da Venezuela devido a restrições

A Médicos sem Fronteiras (MSF) vai se retirar de uma colaboração com um hospital venezuelano que visa tratar pacientes com covid-19 devido a restrições na entrada de especialistas no país, informou a organização na terça-feira. A …

O novo amplificador de guitarra tem maior capacidade de encaixe (e é mais poderoso)

Em 2016, o engenheiro eletrónico Chris Prendergast lançou um projeto Kickstarter para o amplificador de guitarra portátil JamStack. Este encaixava-se num pino de correia e emitia sons gerados por um smartphone. Agora foi lançada a …

Etiópia. Comissão de direitos humanos denuncia massacre de 600 civis na região de Tigré

A organização independente que investiga acusações de violência contra civis na Etiópia corroborou o relatório da Amnistia Internacional que denunciou a chacina de pelo menos 600 pessoas na região de Tigré, no Norte do país. Segundo …