“É muito debilitante”. O que já se sabe sobre os efeitos a longo prazo da covid-19

USDoE

Quase um ano depois do aparecimento do novo coronavírus, ainda há muitas dúvidas acerca da recuperação dos pacientes após a infeção – há quem recupere rapidamente e há quem sofra efeitos a longo prazo. Um novo estudo, realizado no Reino Unido, analisou tudo o que se sabe sobre as consequências do vírus.

Quando a pandemia de covid-19 começou, no início deste ano, a informação sobre o vírus era escassa. No entanto, sabia-se que se tratava de uma doença respiratória, da qual a maioria das pessoas recuperava no período de duas ou três semanas. Mas, a cada dia que passa, surgem novos dados e há dezenas de milhares de pessoas, senão centenas de milhares, em todo o mundo que relatam continuar a ter sintomas meses após a infeção.

O Instituto Nacional de Pesquisa de Saúde (NIHR), no Reino Unido, realizou uma pesquisa baseada num grupo de pacientes, que forneceu novos conhecimentos e perspetivas acerca das consequências da covid-19.

O relatório divulgado quinta-feira sugere que a Long Covid – termo não-oficial usado por pessoas que sofrem sintomas da doença meses após terem sido infetadas – pode não ser uma doença única, mas até quatro diferentes, e que alguns pacientes podem experiência-las simultaneamente ao longo do tempo.

“Acreditamos que o termo Long Covid está a ser usado para mais de uma síndrome, possivelmente até quatro”, disse Elaine Maxwell, autora do relatório, ao The Guardian.

Ainda existe pouca informação acerca do número de pessoas em risco de sofrer efeitos a longo prazo causados pelo novo coronavírus ou sobre a duração desses sintomas. Mas o NIHR identificou quatro subtipos de Long Covid que incluem: pacientes que sentem as sequelas do tratamento intensivo hospitalar, fadiga pós-viral, danos permanentes nos órgãos e sintomas oscilantes que afetam vários sistemas.

“Para algumas pessoas, a infeção por covid-19 não é um episódio discreto, marca o início de sintomas a longo prazo e muitas vezes debilitantes. Para alguns, isto relaciona-se com a reabilitação após um internamento hospitalar, mas outros relatam sequelas depois de sofrer uma infeção que foi tratada em casa, com os sintomas a tornarem-se mais severos à medida que o tempo passa”, diz o artigo.

Quais são os sintomas de longo prazo da covid-19?

Alguns sintomas de longo prazo são oscilantes e afetam diversos sistemas – primeiro surgem num sistema fisiológico e, quando começam a diminuir de intensidade, aparecerem outros sintomas num sistema diferente. Uma pesquisa descobriu que 70% das pessoas sentiram oscilações no tipo e 89% na intensidade dos sintomas.

“É muito debilitante. Tenho sintomas de cansaço severo, dores de garganta recorrentes e ‘nevoeiro’ cerebral. Tudo isto teve um enorme impacto não só na minha saúde, mas também na minha família, vida social e emprego. E o que torna tudo pior é que ninguém sabe quanto tempo irá demorar até recuperar totalmente”, disse Pretty, citada pelo NIHR.

Uma equipa de investigadores italiana revelou que 87% dos pacientes que tiveram alta de um hospital em Roma continuaram a ter pelo menos um sintoma, 60 dias depois de serem infetadas. Além disso, 55% tinham três ou mais sintomas, incluindo cansaço (53%), dificuldade respiratória (43%), dores nas articulações (27%) e dores no peito (22%).

“A covid-19 é, claramente, uma doença complexa que afeta vários sistemas, não só o sistema cardiovascular. Isto ocorre tanto na fase aguda, como na fase de recuperação” disse Alex Bennett, professor de Reumatologia e Reabilitação em Stanford Hall, explicando que as sequelas mais comuns em doentes que foram infetados com o vírus são “o cansaço (que pode ser grave), dores musculares, ansiedade, mau humor, problemas cognitivos e dor torácica atípica.”

A falta de ar frequente, tosse e o batimento cardíaco acelerado podem ser sintomas de danos nos pulmões ou no coração, o que não significa que estes órgãos fiquem permanentemente afetados.

As lesões pulmonares parecem particularmente prevalecentes entre pacientes que necessitaram de tratamento médico e um estudo recente descobriu que seis semanas após a alta hospitalar, cerca de metade dos pacientes ainda sentia falta de ar, valor que reduziu para os 39% em 12 semanas.

Outro estudo – realizado com pacientes que apresentavam sintomas relativamente leves quando foram infetados, em março – revelou que 78% apresentava alterações estruturais anormais no coração. No entanto, essas mudanças não causaram necessariamente sintomas e pensa-se que se possam dissipar com o tempo.

Já os doentes que ficam internados em unidades de cuidados intensivos sentem-se, frequentemente, muito fracos para se sentarem ou levantarem os braços e alguns podem, até, sentir dificuldade em falar e engolir – consequência da ventilação. Outras sequelas menos comuns são, a depressão ou o transtorno de stresse pós-traumático.

As estimativas sugerem que 10% dos pacientes infetados com covid-19 apresentam sintomas que duram mais de três semanas, e cerca de um em cada 50 ainda se sentirá doente após três meses.

Além disso, o relatório do NIHR indica que esses sintomas duradouros foram observados em todas as faixas etárias, incluindo crianças. “Acima dos 18 anos, o risco de sintomas que duram mais de um mês parece aumentar com a idade”, disse Tim Spector, professor de epidemiologia genética do King’s College, em Londres.

Sofia Teixeira Santos STS , ZAP //

PARTILHAR

2 COMENTÁRIOS

RESPONDER

Uma das maiores camas do céu. JetBlue revela a nova classe executiva do Airbus A321neo

Uma das maiores camas no céu deverá estrear dentro de alguns meses, quando a JetBlue começar a voar com os seus A321neo de Boston e Nova Iorque a Londres. No dia 26 de fevereiro, a norte-americana …

Putin diz que Internet pode destruir a sociedade se não for regida pela moral

 Internet pode destruir a sociedade a partir se não não for regida por valores e leis da moral, considerou Vladimir Putin. O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, advertiu que a Internet pode destruir a sociedade a …

China torna-se o primeiro país do mundo a ter mais de mil multimilionários

A China tornou-se o primeiro país do mundo a ultrapassar a marca dos mil multimilionários, tendo neste momento um total de 1058 pessoas que têm a sorte de poder fazer parte desse grupo restrito. De acordo …

Gil Vicente 0-2 Porto | Vida fácil para o “dragão” em Barcelos

O FC Porto venceu o Gil Vicente em Barcelos, por 2-0. Pepe e Corona saíram ao intervalo com problemas físicos. O Porto foi a Barcelos conquistar três pontos de forma tranquila, perante um Gil Vicente que …

Na Índia, o comércio ilegal de burros está a crescer. A sua carne é considerada afrodisíaca

Viagra? Não, a população do estado de Andhra Pradesh, na Índia, tem um novo método para aumentar o desejo sexual: carne de burro. Esta crença está a fazer com que o comércio ilegal de carne …

Com as fronteiras fechadas, companhia aérea australiana lança "voos mistério"

A companhia aérea australiana Qantas anunciou “voos mistério”, nos quais os passageiros não fazem ideia para onde vão, numa tentativa de atrair mais clientes. As fronteiras internacionais da Austrália estão atualmente fechadas e parece improvável que …

Açores e Madeira acusam DGS de não usar dados verdadeiros nos boletins

A Direção Regional da Saúde (DRS) da Madeira garantiu que os números reportados no boletim epidemiológico da Direção-Geral da Saúde (DGS) esta sexta-feira não correspondem à realidade. A DRS dos Açores também assume a existência …

Resorts do Reino Unido criaram uma lista de "hóspedes indesejáveis" (com nomes irlandeses)

Uma rede de resorts da Grã-Bretanha tinha uma lista de "hóspedes indesejáveis" com apelidos irlandeses numa tentativa de impedir a entrada de membros da comunidade de viajantes irlandeses (Pavee). Esta notícia foi avançada por uma investigação …

Tensão entre China e Austrália pode beneficiar Portugal na exportação de vinho

Em novembro, a China impôs tarifas paralisantes sobre o vinho australiano. Portugal pode ser o beneficiado desta "guerra" alfandegária. O presidente da Associação Comercial Internacional para os Mercados Lusófonos (ACIML) disse, este sábado, à Lusa que …

Índice de transmissibilidade sobe. É de 0,71 em Portugal Continental (e acima de 1 nas ilhas)

O índice de transmissibilidade da covid-19 subiu ligeiramente a nível nacional nas últimas duas semanas. Entre 24 e 28 de fevereiro, o índice foi de 0,71. O índice médio de transmissibilidade (Rt) do vírus SARS-CoV-2 está …