PSP apresenta queixa contra jornal Público por causa de cartoon no “Inimigo Público”

(dr) Nuno Saraiva / Inimigo Público

A PSP anunciou esta sexta-feira que vai apresentar queixa contra o jornal Público pela publicação, no suplemento Inimigo Público, de um cartoon com uma figura vestida de uniforme, “aparentemente relacionado com uma ação com conotação política” junto à sede da SOS Racismo.

Em comunicado, a Polícia de Segurança Pública considera que os factos “ofendem a credibilidade, o prestígio e a confiança devidos à instituição, consubstanciando a prática de crime” e que vai ainda hoje apresentar queixa ao Ministério Público.

Segundo a PSP, o cartoon de Nuno Saraiva está aparentemente relacionado com uma ação com conotação política, ocorrida no passado sábado, em frente à sede da organização SOS Racismo, em Lisboa, e associa “de forma explicita” a polícia “a um qualquer movimento político-ideológico”.

O cartoon de Nuno Saraiva na capa da edição desta sexta-feira do Inimigo Público, suplemento satírico do PúblicoMais em https://inimigo.publico.pt

Publicado por Público em Quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Essa conotação, adianta a nota, afeta “publicamente a isenção e apartidarismo que caracterizam a instituição, resultantes não só de obrigação estatutária e da condição policial, mas também da convicção dos polícias”.

A PSP “lamenta a leviandade com que o jornal e o cartoon em questão feriram a boa imagem da instituição e dos polícias que nela servem e protegem os nossos concidadãos” e lembra que a Estratégia 2020/2022 contempla a “isenção e rejeição de qualquer forma de extremismo e discriminação” como um valor e um pilar ético fundamental.

Além de sair na versão em papel, o cartoon foi publicado nas redes sociais do matutino.

Reagindo ao anúncio da PSP, o ilustrador Nuno Saraiva considerou criminoso atentar contra a liberdade de expressão e mostrou-se “preocupado” com o rumo do país.

“Criminoso é acharem que isto é um crime, que um criativo, um jornalista, um ‘opinion maker’, um cartoonista não pode ter direito à sua liberdade de expressão”, afirmou Nuno Saraiva, em declarações à agência Lusa.

Realçando que nem sequer é adepto dos cartoons “mais escatológicos e altamente ofensivos”, do género dos do jornal satírico francês Charlie Hebdo, o ilustrador português considera que este é até “um cartoon bastante pacífico”.

Por isso mesmo, julga “absolutamente exagerado e sem sentido para uma queixa-crime”.

Quanto a esta possibilidade, Nuno Saraiva deixa claro que não está minimamente preocupado consigo, mas sim com “o caminho que o país está a trilhar”. “Parece que estamos a dar uma reviravolta para mais de 40 anos, isso é que me preocupa. E o silêncio institucional preocupa-me também”, afirmou, considerando que nos últimos tempos sente que “está tudo muito pesado e esquisito”, uma situação que, confessa, o “assusta”.

Diretor do Inimigo Público “perplexo”

Por sua vez, o diretor do Inimigo Público, Luís Pedro Nunes, manifestou-se esta sexta-feira “perplexo” com a intenção da PSP em apresentar queixa contra o Público devido a um cartoon que inclui uma figura vestida de uniforme.

Não deixo de ficar perplexo“, começou por dizer Luís Pedro Nunes à Lusa.

“Estou espantado, numa semana que foi das mais complexas dos últimos tempos a nível a questões ligadas ao racismo, às ameaças a deputados, a declarações dos vários setores da sociedade portuguesa, a direção nacional da PSP arranjou tempo para, aparentemente, processar um cartoon do Inimigo Público à sexta-feira”, apontou.

“Sou diretor do Inimigo Público desde 2004, fazemos isto semanalmente, milhares de cartoons, nunca fomos processados“, salientou Luís Pedro Nunes.

“Acho um pouco estranho, tanto mais que isto começou de manhã com exigência do Movimento Zero para que a direção nacional fizesse alguma coisa”, acrescentou.

“Quando uma sociedade que está com problemas mediatizados a nível de questões sociais vai atrás de cartoons ou se vira contra os cartoons, nós já sabemos que isso é um sintoma de algo está verdadeiramente mal”, prosseguiu.

“Os cartoonistas, ultimamente, têm sido as primeiras vítimas de que qualquer coisa está errada na sociedade”, considerou. Além disso, no que respeita ao cartoon publicado, “nem sequer se pode dizer que [aquele] é aquilo que está a ser acusado”, sublinhou.

Estamos a falar de um jornal satírico“, enfatizou o diretor do Inimigo Público.

ZAP // Lusa

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5 COMENTÁRIOS

    • Onde esta a falta de respeito???
      Ja ouviu falar em humor, jornais e revistas satíricas??
      ou será que faz parte do clube de fanáticos daqueles que perpetraram ataques terroristas na Holanda por 1 cartoonista ter desenhado 1a caricatura de Maomé e que atacaram o Charlie Hebdo??
      Liberdade de expressão diz lhe alguma coisa???

  1. Onde esta a falta de respeito???
    Ja ouviu falar em humor, jornais e revistas satíricas??
    ou será que faz parte do clube de fanáticos daqueles que perpetraram ataques terroristas na Holanda por 1 cartoonista ter desenhado 1a caricatura de Maomé e que atacaram o Charlie Hebdo??
    Liberdade de expressão diz lhe alguma coisa???

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