Protestos e confrontos na Catalunha: “Começámos um ciclo de desobediência civil”

Quique Garcia / EPA

O Supremo Tribunal de Espanha condenou na segunda-feira nove dirigentes envolvidos no processo de proclamação de independência da Catalunha, em 2017, a penas entre os nove e os 13 anos de prisão, levando a protestos, perturbações nas redes de transportes e confrontos entre os manifestantes e a polícia.

Oriol Junqueras, ex-vice-presidente da Generalitat (Governo catalão), recebeu a pena mais pesada, 13 anos, por delito de sedição e má gestão de fundos públicos, e disse tratar-se de uma “vingança do Estado” espanhol. O primeiro-ministro, Pedro Sánchez, garantiu que a sentença é para cumprir, noticiou o Expresso.

Segundo a agência Lusa, foram condenados a 12 anos de cadeia os ex-conselheiros Jordi Turull (ex-conselheiro da Presidência), Raul Romeva (ex-conselheiro do Trabalho) e Dolors Bassa (ex-conselheira para as Relações Exteriores) por delitos de sedição e má gestão.

O antigo titular do cargo de conselheiro do Interior, Joaquim Forn e Josep Rull (Território) foram condenados a 10 anos de cadeia. Jordi Cuixart, responsável pela instituição Òmnium Cultural, foi condenado a nove anos de prisão por sedição.

O atual presidente da Generalitat, Quim Torra, classificou as penas como “injustas e antidemocráticas” e anunciou ter enviado cartas a solicitar uma “reunião urgente” com o rei de Espanha, Felipe VI, e com Pedro Sánchez.

Cerca de quatro horas depois do anúncio da decisão, o Supremo reativou também o mandado de detenção europeu sobre Carles Puigdemont, com vista à extradição do ex-presidente do Executivo regional, continuou o Expresso.

 

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Entretanto, as ruas da Catalunha enchiam-se de manifestantes. No centro de Barcelona foram milhares os que se concentraram e resistiram até à noite. A sede da Câmara Municipal e as ruas adjacentes foram alguns dos focos do protesto contra a decisão judicial mas cedo o aeroporto de Barcelona assumiu protagonismo.

Na cidade catalã de Tarragona, uma mulher protagonizou um dos vídeos do dia ao ser agredida quando exibia uma bandeira de Espanha e dançava perante um grupo de manifestantes independentistas. “Olé, olé! Estás a pisar solo espanhol”, cantava ela quando um homem lhe arrancou a bandeira das mãos e a agrediu, acabando a mulher no chão.

Os Mossos d’Esquadra carregaram sobre os manifestantes dentro e fora do aeroporto de Barcelona. Dos 1066 voos programados para esta segunda-feira, 110 foram cancelados, revelou a sociedade aeroportuária Aena. Várias ligações ferroviárias foram cortadas ou sofreram perturbações e 50 comboios de alta velocidade foram suspensos.

De acordo com a agência Lusa, os agentes da polícia dispararam balas de borracha. A ação policial destinou-se a evitar que os manifestantes forçassem a entrada no aeroporto de El Prat, onde centenas de manifestantes pró-independentistas gritavam palavras de ordem e procuravam obstruir o acesso aos terminais.

As manifestações no Aeroporto de Barcelona acabaram na segunda-feira à noite e, nesta terça-feira, já não há lá manifestantes. No entanto, segundo apurou a agência ACN, há 45 voos cancelados entre os 986 que estavam previstos para esta terça-feira. Os cancelamentos devem-se ao facto de os aviões que iriam partir ao longo do dia de hoje não terem chegado a Barcelona ontem, lê-se no Observador.

O serviço de emergências médicas prestou assistência a 78 pessoas durante o dia, três delas ao longo da manhã e as restantes 75 no terminal 1 do Aeroporto de Barcelona. A polícia deteve três pessoas: uma no aeroporto, outra em Mataró e ainda outra em Lleida, acrescentou o Expresso.

Entretanto, de acordo com o Observador, o número de feridos subiu para 131, de acordo com os Serviços de Emergência Médica (SEM) da Catalunha. Destes, um total de 115 estava nas manifestações Terminal 1 do Aeroporto de Barcelona, tendo 91 sido assistidos no local, onde tiveram alta.

Além destes, 24 foram levados a unidades hospitalares. Um deles tem uma lesão particularmente grave, num olho. De acordo com a ONG Irídia, esse ferimento ocular foi provocado por uma bala de borracha. De acordo com aquela organização, um total de seis feridos foram tratados por terem sido atingidos por aqueles projéteis.

Sobram ainda oito feridos em Barcelona (sete tiveram alta no local, um foi levado para o hospital), quatro em Maçanet (todos com alta no local), três em Lleida (um com alta no local, dois transferidos para o hospital) e ainda um assistido em Reus, que ali teve alta.

Ao final da noite, o movimento anónimo Tsunami Democràtic, que organizou as mobilizações, desconvocou os protestos mas prometeu regressar já esta terça-feira. “Fomos um tsunami. Faremos de cada mobilização uma vitória. Começámos um ciclo de desobediência civil não violenta. Damos a ação por finalizada com êxito e os objetivos alcançados. Esta terça-feira voltaremos a fazê-lo com um novo desafio”, anunciou o movimento em comunicado.

Puigdemont acusa Madrid de vingança

O ex-presidente do governo regional catalão, Carles Puigdemont, afirmou na segunda-feira que a condenação dos dirigentes do processo independentista da Catalunha confirma uma estratégia de “repressão e vingança” e pediu uma resposta nas urnas nas legislativas de 10 de novembro, revelou a agência Lusa.

“A sentença do Supremo Tribunal contra membros do governo, do parlamento e das entidades sociais mais importantes da Catalunha confirmam a estratégia de repressão e vingança contra todos os cidadãos e cidadãs que procuraram a via da democracia”, disse Carles Puigdemont à imprensa em Bruxelas, onde se exilou em 2017.

A sentença, afirmou, “condena mais de dois milhões de pessoas que tornaram possível o referendo de autodeterminação de 01 de outubro de 2017”, consulta declarada ilegal pela justiça de espanhola.

Carles Puigdemont apelou para a mobilização não-violenta e para uma “resposta sonora” nas eleições legislativas marcadas para 10 de novembro.

“Temos de nos mobilizar e fazer ouvir a nossa voz. Há muitas formas e todas elas devem ser democráticas e não-violentas, como sempre […] Temos de converter as eleições numa mostra maciça de repúdio”, disse o ex-presidente da Generalitat.

Olivier Hoslet / EPA

O ex-presidente do governo da Catalunha, Carles Puigdemont

O político catalão criticou também a União Europeia (UE), que acusou de “se calar” em face “da violência” exercida no dia do referendo “contra um povo que tinha saído para votar”.

“Uma Europa que dança ao som da música do Estado espanhol, que impede que os representantes de mais de dois milhões de cidadãos europeus estejam sentados no Parlamento Europeu”, disse, referindo-se aos três eurodeputados catalães impedidos de tomar posse na assembleia europeia.

Quanto ao mandato de detenção europeu que foi entretanto reaberto, Carles Puigdemont não teceu comentários. Já o seu advogado na Bélgica, Paul Bekaert, assegurou que o mesmo irá colaborar com a justiça belga e não deixará de se apresentar se for convocado.

O advogado disse não ter ainda confirmação de que a Procuradoria da Bélgica já tenha recebido o mandado, um documento de 57 páginas em que se pede a entrega de Carles Puigdemont a Espanha.

“Vamos falar com o procurador e o meu cliente, se for convocado a apresentar-se a um juiz, não se vai esconder. Colaborará com a justiça belga. Confia na justiça belga, é por essa razão que está em Bruxelas”, disse.

Plataforma Tsunami Demòcratic investigada

A garantia foi dada pelo ministro da Justiça em funções, Fernando Grande-Marlaska: as autoridades espanholas estão a investigar quem está por trás do Tsunami Demòcratic, a plataforma de protesto independentista que esteve por trás da convocatória da tentativa de bloqueio dos aeroportos de Barcelona e Madrid de ontem, informou o Observador.

“Claro que há investigações”, respondeu na manhã desta terça-feira, a uma pergunta que lhe foi dirigida no programa matinal Los Desayunos, da TVE24. “Temos serviços secretos e de informação realmente eficazes e que não haja dúvida que acabaremos por saber quem é que está por trás deste movimento do Tsunami Demòcratic“, completou o ex-juiz.

O minstro da Justiça em funções disse ainda que espera que “[Careles] Puigdemont seja entregue em Espanha em consequência da ordem de detenção europeia para que seja julgado pelos crimes que lhe são imputados”.

ZAP // //

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