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Profissionais de saúde pedem clarificação das normas de vacinação dos jovens entre os 12 e os 15 anos

José Coelho / Lusa

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães

Dificuldades na comunicação das diretrizes da Direção Geral de Saúde tem gerado dúvidas às famílias, aos profissionais de saúde e até ao Presidente da República.

A polémica em torno da vacinação dos jovens entre os 12 e os 15 anos está instalada e promete não desaparecer tão cedo. Agora são os profissionais de saúde que exigem uma clarificação das normas emitidas pela Direção Geral de Saúde que dizem respeito às comorbilidades que devem ser tidas em consideração nestas faixas etárias para efeitos de vacinação prioritária.

Segundo avança o Público, a norma da DGS ainda não está publicada — encontra-se mesmo em elaboração —, mas deverá estar concluída “brevemente”, de acordo com informações avançadas pelo organismo liderado por Graças Freitas. Do lado dos profissionais de saúde surgem apelos para que os critérios sejam claros, numa altura em que ainda não são conhecidas as doenças consagradas na norma.

Esta segunda-feira, a Ordem dos Médicos (OM) contestou a decisão da DGS por considerar que estão a ser criadas “desigualdades” entre as famílias, reclamando, por isso, uma rápida revisão das diretrizes emitidas na sexta-feira e anunciadas por Graças Freitas. Neste contexto, a DGS deixou em aberto a possibilidade de abrir a vacinação nas faixas etárias entre os 12 e os 15 anos a todos os indivíduos, fazendo depender a decisão de mais dados.

Segundo a Ordem dos Médicos, a informação transmitida está a confundir não só a população, como os profissionais de saúde, pelo que o apelo para o esclarecimento se justifica com o reforço da “confiança na evidência científica e na ampla experiência já existente”.

“Neste primeiro dia da semana, já chegaram à Ordem dos Médicos relatos de aumento de contactos com os centros de saúde de pessoas interessadas em vacinar os filhos nestas idades. Mesmo entre os profissionais de saúde a norma [o parecer da DGS] não foi recebida de forma clara, com alguns especialistas a saudarem a norma, mas a virem, mais tarde, criticar este acesso condicionado”, diz a OM em comunicado.

Na visão da OM, a DGS entrou em contradições, já que começou por defender que “para um eventual alargamento será necessária mais evidência científica”, e depois ter dito que “desde que haja indicação médica, qualquer adolescentes poderá ter acesso à vacina”.

Segundo Miguel Guimarães, “um organismo como a DGS não pode fazer isto“. “Tem de optar por um lado ou por outro. Isto são duas decisões que agradam a gregos e a troianos. Daí este apelo”, disse o Bastonário dos Médicos ao jornal Público.

Depois da DGS anunciar, na sexta-feira, que a vacina contra a covid-19 estaria disponível para os indivíduos com comorbilidades, as dúvidas adensaram-se quando Marcelo Rebelo de Sousa afirmou aos jornalistas que qualquer jovem poderia vacinar-se caso esta fosse a vontade dos pais, a DGS veio a público corrigir o Presidente da República, esclarecendo que será necessária “indicação médica” para que a vacina seja efetivamente administrada.

As dúvidas entre os profissionais de saúde também têm deixado alguns médicos, contactados por pais, sem respostas concretas. “Desde as 7h que estou a receber telefonemas, sobretudo de médicos de família, que estão a ser contactados por pessoas interessadas em vacinar os filhos. Há logo uma corrida e, por isso, a norma tinha de existir”, considera Miguel Guimarães, que defende que o parecer da DGS não deveria ter sido anunciado antes da norma estar concluída. “A DGS tem de definir na norma a lista de comorbilidades”, aponta.

Rui Nogueira, ex-presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, revelou ao mesmo jornal a vacinação estar dependente de uma prescrição médica “não faz sentido”. “O que pode haver é uma priorização como aconteceu nos adultos, mas ainda não foram definidas as doenças. Para a vacinação universal não é preciso prescrição, nem faz sentido”, argumenta, defendendo que “a norma tem mesmo de clarificar” esta questão.

É impensável a DGS dizer que quer aguardar por mais estudos e depois dizer que o médico decide. Não penso que possa haver uma fase intermédia. Isso é colocar a responsabilidade em cima de nós. Tem de haver critérios.” Questionado sobre o parecer que tem transmitido aos pais que o têm contactado, o também médico de família defende que tem apelado aos pais que sigam em frente.

“Nunca usamos tanto um medicamento em tão curto espaço de tempo e estamos seguros, nada disto é experimental”, diz. Perante a existência de vacinas, Rui Nogueira defende que, a um mês e meio do início das aulas, este é o momento oportuno para vacinar os jovens.

O apelo por informações mais claras é partilhado por Diogo Urjas, presidente da Associação Nacional de Unidades de Saúde Familiar. “É importante para evitar mais ruído que a DGS emane a norma e esta seja clara. Há uma sobrecarga junto dos profissionais que são invadidos com perguntas e não têm resposta”, afirma, considerando mesmo que “não é correto a DGS colocar o ónus no profissional de saúde“.

“Tem de estar na norma quais os critérios para vacinar, quem deve ser vacinado, qual a lista de doenças”, acrescentou, defendendo que “os profissionais devem ser informados atempadamente”, resumiu.

  ARM, ZAP //

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