A dupla “política e religião” está em risco. Pela primeira vez os evangélicos estão divididos na reeleição de Trump

Stefani Reynolds / EPA

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

Entre comícios e sondagens, há muito que é dado como certo que a maioria dos cristãos evangélicos norte-americanos irão dar o seu voto a Donald Trump nas próximas eleições presidenciais. Contudo, parece que esta fação supostamente fiel e fanática pelo lado republicano começa a divergir nas suas opiniões.

A verdade é que previsões podem realmente verificar-se. Contudo, sinais recentes mostram que há menos evangélicos estão do lado do candidato republicano, sobretudo quando comparado com o apoio que estes lhe derem em 2016.

Numa pesquisa realizada em agosto de 2020 para a Fox News, entre os evangélicos brancos, Donald Trump registou uma vantagem de 38 pontos sobre o seu adversário Joe Biden. Esta vantagem parece avassaladora, mas quando comparada com os 61 pontos de vantagem que o republicano tinha em 2016 sobre a sua opositora Hillary Clinton, traduz-se numa diferença muito significativa.



Agora, uma pesquisa do Pew que ocorreu durante este mês, revelou que o apoio dos evangélicos brancos a Trump caiu desde agosto, de 83% para 78%. Ainda assim, o apoio desta fação ao presidente dos EUA é esmagador.

De acordo com o The Conversation, o abrandamento entre os eleitores evangélicos, deve-se à mudança de opinião em relação a Trump. Há uma divisão crescente entre aqueles que o amam, e aqueles que cada vez mais questionam se o candidato republicano se deve manter no cargo.

Como escreve o teólogo Stewart Clem, muitos dos evangélicos brancos estão a começar a reconsiderar a relação entre liderança e caráter e isso deixa dúvidas sobre a reeleição de Trump, coisa que não aconteceu em 2016.

Política vs Religião

Quando Trump começou a fazer campanha há quatro anos, muitos dos cristãos evangélicos admitiram que embora não aprovassem a sua personalidade hostil, acreditavam nas suas políticas. Este apoio ao então candidato também se pode ter devido às suas promessas de proteger a liberdade religiosa e ao compromisso de derrubar Roe v. Wade.

Porém, os cristãos evangélicos norte-americanos não são um bloco eleitoral que apoia candidatos conservadores. Um exemplo disso é Jim Wallis, fundador da revista evangélica de tendência esquerdista Sojourners que foi membro do Conselho Consultivo do Presidente Barack Obama.

Ainda assim, esta mudança nos últimos quatro anos deve-se ao descrédito dos evangélicos conservadores em Trump, e não daqueles que já não o apoiavam. Trata-se daqueles que priorizam as restrições ao aborto, a oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e a liberdade religiosa. Estes concordam agora menos com o presidente dos EUA.

O líder cristão Sid Jansma Jr. explicou num artigo recente que “a Bíblia associa a boa liderança a alguém com caráter, o que inclui características como justiça, paciência, compaixão, humildade, integridade, honestidade, sabedoria, coragem e disciplina”, virtudes que o evangélico considera que Donald Trump não tem, por isso acredita que muitos seguidores desta doutrina estão a começar a abrir os olhos.

O menor dos dois males?

Em 2016, um número considerável de evangélicos desaprovou fortemente o comportamento de Trump, mas referiu que não conseguia imaginar-se a votar num candidato democrata. Para esses eleitores, a conduta do Partido Democrata e as suas posições sobre o aborto e os direitos LGBTQ foram suficientes para eleger o candidato Donald Trump como o menor dos dois males.

Wayne Grudem, autor evangélico e professor de seminário, explicou que o republicano era “egoísta, bombástico e ousado”, mas que por outro lado representava uma “oportunidade incomum” para derrotar o “pró-aborto , pró-confusão de género ou a liberdade anti-religiosa”, assuntos que foram associados a Hillary Clinton pela comunidade religiosa.

Alguns teólogos defendem que o presidente dos EUA se apropria das princípios do Cristianismo para propósitos contrários aos seus valores. D. Stephen Long, da Southern Methodist University, chegou ao ponto de escrever num artigo: “devemos chamar Donald Trump de ‘anticristo’?”.

Mesmo na perspetiva dos eleitores cristãos, que se baseiam na premissa do “menor de dois males”, não é óbvio que Trump mereça o seu apoio, por isso nesta fação conservadora os votos a favor de Trump estão cada vez mais na corda bamba.

Apesar de supostamente, e no seu intimo, gozar com os cristãos e com as suas crenças, o presidente norte-americano é visto por muitos evangélicos como o candidato escolhido por Deus. Os dados, no entanto, sugerem uma divisão crescente entre os evangélicos, com os eleitores cada vez menos convencidos da sua prestação política.

De acordo com Clem, a maioria dos evangélicos conservadores vai votar em Trump, mas uma minoria significativa concluiu durante a campanha eleitoral de 2020 que esta escolha é de facto o pior dos dois males, optando assim por votar num candidato que não seja republicano – talvez pela primeira vez nas suas vidas.

ZAP //

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