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A perda de Ronaldo e Georgina é comum a muitas famílias — mas o tabu persiste

Quando o tema é a morte de um bebé, há ainda muitas palavras insensíveis vindas de quem não sabe o que dizer ou muitos silêncios constrangedores. A situação é mais frequente do que se pensa, mas o tabu continua.

Na segunda-feira, Cristiano Ronaldo e a companheira Georgina Rodríguez anunciaram que um dos gémeos que esperavam não sobreviveu ao parto, tendo o menino perdido a vida e apenas a irmã sobrevivido.

“É com a mais profunda tristeza que comunicamos o falecimento do nosso bebé. É a maior dor que quaisquer pais podem sentir. Estamos devastados. Pedimos privacidade neste momento tão difícil. Nosso menino, és o nosso anjo. Vamos amar-te para sempre”, lê-se no comunicado publicado nas redes sociais do futebolista.

Desde então, o casal tem recebido muitas mensagens de solidariedade e até os adeptos do Liverpool, históricos adversários do Manchester United, puseram a rivalidade do futebol de lado em nome de uma causa maior e manifestaram o seu apoio para com o clã Aveiro ao sétimo minuto do jogo em Anfield.

A família do craque português está longe de ser a única a viver esta perda. Em 2020, a modelo Chrissy Teigen e o cantor John Legend partilharam a sua história e comoveram o mundo ao anunciarem que o seu terceiro filho morreu devido a complicações no parto. Michelle Obama, Meghan Markle e Beyoncé também já revelaram que sofreram abortos espontâneos.

Os dados da Unicef mostram que um bebé nasce sem vida a cada 16 segundos, o que se traduz numa média de 2 milhões de nados-mortos por ano. Estudos apontam  que, em média, até uma em cada quatro gravidezes acabe com um aborto espontâneo e há muitas mães que desenvolvem distúrbios mentais devido ao trauma.

Mesmo com a evolução da Medicina — que tem ajudado a prevenir muitas destas mortes — os números mostram que a morte de um filho bebé, infelizmente, ainda é uma tragédia comum, mas que, paradoxalmente, é também negligenciada e abafada nas nossas discussões públicas devido ao tabu que teima em não desaparecer e ao silêncio ensurdecedor de quem não sabe o que dizer para apaziguar a dor.

Os especialistas dizem que ainda se fala muito pouco sobre o impacto que os abortos espontâneos e as perdas de crianças nos partos têm nas famílias e que as poucas conversas que se têm são ofuscadas pela ignorância e os estigmas, o que pode fazer com que os pais se sintam ainda mais alienados e sozinhos no luto.

“Não há ‘pelo menos’: o bebé deles morreu e isso é devastador”

Fundada em 1978, a SANDS (Stillbirth and Neonatal Death Charity) é a principal organização de caridade dedicada à prevenção da mortalidade infantil no Reino Unido e também oferece apoio aos pais em luto.

A directora da SANDS, Jen Coates, revela ao The Guardian que, por vezes, até os amigos ou famílias podem acabar por dizer coisas insensíveis ou indelicadas aos pais, sendo essencial uma discussão alargada para que haja uma maior educação sobre o que fazer nestes casos.

“As vidas dos pais são irrevogavelmente mudadas com a perda do recém-nascido e até aqueles que estão dentro da família podem acabar por dizer coisas erradas. Qualquer coisa que comece com “pelo menos” é geralmente incrivelmente inútil e doloroso. Este pode ser o caso quando um gémeo morre e outro sobrevive. Não há “pelo menos”: o bebé deles morreu e isso é devastador”, vinca.

Nicky Rygielski, do grupo de apoio Sophia Pregnancy Loss Support, partilha da mesma opinião. “O bebé nunca pode ser substituído independentemente de quantos mais filhos os pais possam vir a ter. Se estiverem a apoiar um pai em luto, não tenham medo de falar com ele sobre a perda. Ajudem-nos a encontrar um novo normal que inclui a perda da criança”, aconselha.

A morte de um filho bebé pode ser ainda mais dolorosa do que a perda de um filho adulto, segundo Amy Jackson, co-fundadora da Lily Mae Foundation, que nomeou em homenagem à filha recém-nascida que perdeu em 2010.

“Não estamos a fazer o luto de uma vida de um indivíduo que pôde viver muitas coisas. Estamos a fazer o luto de uma vida de oportunidades perdidas e de memórias que planeamos fazer com o nosso bebé”, afirma.

Ben Moorhouse, co-fundador da Kallipateira Moorhouse Foundation, que perdeu a filha no parto, revela que esta é a maior dor que se pode sentir, mas lembra que os pais não são tratados com a mesma empatia que as mães: “Esperavam que eu fosse forte. Até agora, as pessoas pensam que eu já estou bem quando não estou, a dor dos pais é muitas vezes esquecida”.

Os irmãos também sentem a perda

Para além do pai e a mãe, o resto da família também sofre. No caso dos avós, estão não só a sofrer com a morte do neto mas também ao verem a dor dos seus filhos com a perda.

Uma questão delicada surge também quando tem de se explicar o que aconteceu aos irmãos do bebé que faleceu. A organização Zero To Three, que se dedica ao apoio e financiamento de projectos dirigidos a crianças, sugere que se fale com as crianças de forma directa e de acordo com a sua idade.

Apesar de ser tentador tentar evitar o assunto com os mais pequenos, as crianças notam que alguma coisa que passou na família e podem fazer perguntas sobre quanto o irmão vai chegar.

É importante validar os sentimentos das crianças e explicar-lhes o que aconteceu para que estas também sintam que o irmão que partiu também faz parte da família. Devem evitar-se respostas mais vagas, como dizer que o bebé “foi para um lugar melhor”, já que a criança pode interpretar estas expressões de forma literal.

Caso a criança faça perguntas sobre o que é a morte explicações simples como “o corpo do bebé deixou de funcionar e ele não podia comer e mexer-se” podem ajudar. Se esta resposta suscitar medo de que a própria criança ou os pais também possam morrer, a melhor forma de a confortar é assegurar-lhe que ainda falta muito tempo até isso acontecer.

Como apoiar famílias nesta situação

Nestes momentos, é importante oferecer palavras carinhosas e de apoio a quem está a sofrer. Os familiares, amigos e pessoal médico podem também ajudar ao recordarem as suas memórias da gravidez.

Devido ao silêncio social generalizado que há sobre este assunto e o desconforto que as conversas geram, muitas vezes os pais acabam por sentir que foi como se o seu bebé não tivesse existido. Relembrar o impacto que a criança teve pode ajudar os pais a sentir que o seu bebé foi importante na vida da família e dos amigos.

Para além do apoio emocional, a ajuda mais práctica e logística também é bem-vinda. É natural que os pais estejam transtornados e acabem por não estar nas melhores condições para cuidarem dos outros filhos ou de tarefas domésticas, pelo que o apoio nestes afazeres é importante.

Alguns pais gostam de ficar com fotografias, marcas das mãos ou madeixas de cabelo dos bebés. Uns escolhem um nome para a criança falecida, outros preferem não o fazer. Há pais que organizam rituais fúnebres para se despedirem da criança, enquanto que outros consideram isto ainda mais doloroso.

Todas estas decisões são privadas e variam de família para família, pelo que o mais importante é deixar claro que não há forma certa ou errada de lidar com a perda.

Caso esteja a passar por uma situação semelhante, pode contactar a Associação Projecto Artémis, que dá apoio a famílias que tenham sofrido abortos espontâneos ou perdido bebés recém-nascidos.

A página A de Aborto, no Instagram, partilha testemunhos de pessoas que perderam bebés, o que pode fazer com que quem estiver a passar pelo mesmo se sinta mais ouvido e menos sozinho.

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  Adriana Peixoto, ZAP //

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