Pedrógão Grande: um mês de tragédia

António Cotrim / Lusa

Rescaldo do incêndio em Valongo, Pedrogao Grande

Há um mês, vivia-se um dia de muito calor em Portugal. Pedrógão Grande estava sob alerta laranja e risco muito elevado de incêndio. As primeiras chamas foram detetadas às 14h43.

A conta de mortes concluiu-se em 64 e foi esse mesmo número que atirou Pedrógão para a lista das maiores tragédias a acontecer em Portugal, nos últimos 50 anos.

Mais de 200 pessoas ficaram feridas e o fogo, que atingiu mais sete concelhos, afetou cerca de 500 imóveis, sendo que 169 eram casas de primeira habitação.

De acordo com a Sábado, algumas obras de recuperação do local que foi devastado pelo incêndio já arrancaram. Porém, como há casas que ficaram muito danificadas, as intervenções terão de ser projetadas e licenciadas.

Serão pagas pelo Fundo Revita, que serve para gerir os donativos entregues às vítimas do incêndio e de Pedrógão Grande, e que cobre os valores não cobertos pelas seguradoras. A mesma fonte indica que as seguradoras já aprovisionaram ou pagaram 18,8 milhões de euros em indemnizações.

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e a União das Misericórdias são dois órgãos que vão intervir diretamente na reabilitação de casas, não destinando o dinheiro ao Revita. A prioridade passa pelas “famílias sem recursos económicos, conforme atestados emitidos pelas juntas de freguesia”.

Empresas e postos de trabalho afetados

A Lusa estima que quase 50 empresas de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes foram afetadas a par de 372 postos de trabalho. 20% estão em risco caso não sejam tomadas medidas concretas, indica o Governo.

Esse é também o caso de Sandra Carvalho, segundo a Renascença. A gestora da Serração Progresso Castanheirense não trabalhou durante um mês: durante os 30 dias que passaram desde o incêndio, mais precisamente.

Ao longo de centenas de metros, estende-se um cemitério de máquinas e de material. Ali trabalham 50 pessoas com contas para pagar e vidas para resolver. E sem dinheiro nada feito.

As autarquias e o Governo apressaram-se a dizer que iam centrar esforços na recuperação das empresas locais e que dão o raro emprego que ali há. O ministro do Planeamento e Infra-estruturas, Pedro Marques, disse que, independentemente de haver ou não fundos europeus, não faltaria apoio às empresas.

“Tudo isso se pode dizer, tudo isso se diz, mas onde é que está? Até agora nada. Houve muita solidariedade, houve muitos donativos. Há pessoas que vão ligando até com alguma revolta porque parece que nada chega. Os portugueses uniram-se em prol de uma causa e é de louvar. Ninguém está desalojado, mas nós aqui não conseguimos fazer as coisas sem dinheiro e sem a nossa força”, diz a gestora da serração, Sandra Carvalho.

No dia do funeral do bombeiro Gonçalo Conceição, uma das 64 vítimas mortais dos incêndios, uma comitiva que veio para a cerimónia, com vários secretários de Estado e entidades, visitou as instalações. “Depois disso, mais nada. Nada nos foi prometido“, conta.

Também na agricultura, os incêndios provocaram prejuízos: 20 milhões de euros em prejuízo, para precisar, devido à perda de plantações, explorações agrícolas e equipamentos. 81% da área de floresta ardeu em Pedrógão Grande. Em Figueiró dos Vinhos e em Castanheira de Pera, foi 66 e 56%, respetivamente.

O presidente da Câmara de Pedrógão Grande, Valdemar Alves, defendeu que parte dos fundos do Revita sejam aplicados nas empresas. Contudo, o Governo deverá recuperar a atividade económica com fundos europeus, a que as empresas podem destinar as suas candidaturas, dentro de cerca de duas semanas. A candidatura nacional ao Fundo de Solidariedade da União Europeia será realizada esta semana.

Nelson Souza, o secretário de Estado da Coesão e Desenvolvimento, afirmou que “até ao final de Julho” as verbas que foram doadas pelos portugueses vão chegar às vítimas dos incêndios. As doações serão geridas pelo Fundo Revita. Pedro Marques, ministro do Planeamento e das Infraestruturas, já fez saber que as primeiras habitações são a prioridade.

A Comissão Europeia, através do Fundo Europeu de Solidariedade, atribuirá 12,5 milhões de euros no máximo a Portugal. O Governo deverá ainda investir 100 milhões de euros num projeto-piloto de gestão florestal no Pinhal Interior, e 58 para arborização e rearborização dos terrenos ardidos.

As falhas do SIRESP

A rede de emergência SIRESP foi uma das maiores polémicas do incêndio. Segundo relatórios, o SIRESP falhou entre 17 e 20 de Junho, mas a entidade que a gere considera que não houve interrupções. Houve evacuações que não se conseguiram fazer a tempo devido às falhas nas comunicações.

A estrada nacional 236-1 – que ficou conhecida como a Estrada da Morte – só foi fechada pela GNR depois de 33 pessoas terem lá morrido, e de 14 terem perdido a vida a tentar alcançar a via.

Houve troços de fibra ótica que ligam as estações base do SIRESP à rede que ficaram destruídos e fizeram com que cinco das 16 estações entrassem em modo local. A estação-móvel pedida à Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna – SGMAI – só começou a funcionar no dia 18.

O incêndio será agora avaliado por uma comissão técnica independente, composta por 12 especialistas e que funcionará durante três meses, no máximo.

A ministra Constança Urbano de Sousa pediu uma auditoria à SGMAI a realizar pela Inspeção-Geral da Administração Interna, por incongruências no relatório sobre o fogo e o SIRESP, um estudo ao Instituto de Comunicações sobre o funcionamento da rede de emergência, e uma avaliação ao contrato do SIRESP ao escritório de advogados Linklaters.

Maximiano: o homem que se salvou para encontrar pai e mãe mortos

Salvou-se e salvou a sua casa, mas quando conseguiu socorrer os pais, encontrou o cenário que não queria. À casa dos pais chegou quando já era tarde demais: entrou para os encontra deitados na cozinha já mortos, sem nada a fazer. Trouxe-os para fora de casa e durante seis horas esperou ao lado dos corpos dos pais até alguém aparecer. “Podia ter feito mais?” é a pergunta que Maximiano faz repetidamente.

“É chato pensar que se tenho ido mais cedo os podia salvar e eles tinham outro tipo de morte, sem tanto sofrimento. A partir daí, uma pessoa tem de fazer um dia atrás do outro”, confessa.

Mas, dia atrás de dia, Maximiano vai-se convencendo que fez o que havia a fazer. Viu pessoas a morrer na conhecida “Estrada da Morte”, uma delas que tinha visto a nascer. “Se tenho lá ido buscá-los… Mas um gajo lá pensa que vai acontecer uma coisa destas. Tinha lá ido logo às sete e meia”.

Ti Rosalina, por sua vez, é também uma sobrevivente. Aos 79 anos, confessa que trabalhou “como uma mula” de sol a sol, no campo. Já viu o marido morrer e tem o filho de 53 anos dependente dela. Agora, Rosalina da Figueira tem um novo caminho pela frente.

O fogo levou-lhe a casa e com ela foram-se todos os objetos e valores que demoraram uma vida a conquistar. Tudo reduzido a cinzas, a pedra, a pó.

Nem os 30 dias que já passaram servem de almofada. “A minha cabeça ainda não anda certa. Não sou capaz, vejo a minha casa com tudo ardido… Foi tudo, não ficou nada, os móveis, a roupa, nadinha.” A voz sai quase sempre arrastada como se antes de cada palavra pudesse soltar uma lágrima.

A casa desta mulher foi uma das 122 que ficaram totalmente ou parcialmente destruídas em Pedrógão Grande. Para as recuperar será necessário um investimento de quase 28 milhões de euros.

Com o incêndio foi-se a casa de Rosalina, foi-se a horta em que plantava, foram-se os barracões em que guardavam as ferramentas, foram-se os animais que davam algum sustento. Ficaram os 450 euros que tem de reforma dela e do falecido marido. O café pouco ou nada dá. “Às vezes tenho de meter dinheiro do meu.”

Habitou-se a “viver com a mão fechada”, até porque o filho – e é sempre nele que Rosalina pensa nas decisões que toma – precisa de ir muitas vezes ao médico. De cada vez que tem de ir a Coimbra a consultas, e não são poucas, gasta 50 euros só de táxi.

Ainda assim, e com toda a desgraça e privação, tem espaço no coração para agradecer. “Deus Nosso Senhor ainda nos deixou aqui e temos de dar muitas graças. Deixou-me viva a mim e ao meu filho”.

Presidente da República pede resposta rápida

A partir do México, onde se encontra para uma visita de estado de 48 horas, Marcelo Rebelo de Sousa não quis comentar polémicas em torno de novas falhas no SIRESP, agora durante o combate às chamas em Alijó, mas falou aos jornalistas sobre Pedrógão.

“Embora distante, tenho o meu pensamento na tragédia que ocorreu, as vítimas da tragédia, os seus familiares, os feridos ainda hospitalizados, os muitos que lutaram contra o fogo e os muitíssimos que manifestaram solidariedade”, disse aos jornalistas.

Numa nota colocada no site da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa “agradece as sugestões, opiniões, palavras de solidariedade e votos de pesar que lhe foram dirigidos pelos Portugueses” e apela ao apuramento rápido de responsabilidades.

“Depois de termos vivido uma dor sem medida perante uma tragédia quase sem precedente na história do Portugal Democrático, aguardamos pela resposta rápida e exaustiva às interrogações sobre factos e responsabilidades”, lê-se.

Mas, ao mesmo tempo, prossegue o Presidente da República, deve-se “louvar o espírito nacional de entreajuda e de reconstrução, que muito tem contribuído para que seja mais rápida a recuperação das pessoas e comunidades atingidas pela tragédia”, referindo-se aos donativos conseguidos, no valor de 13,3 milhões de euros.

“Tudo com a visão nacional, sempre demonstrada pela nossa pátria, ao longo dos séculos, perante as adversidades mais pesadas e complexas”, concluiu o Presidente, que se encontra no México em visita de Estado.

CF, ZAP //

1 COMENTÁRIO

  1. Por favor Srs jornalistas. Pedrógão já enjoa, mudem o tema. Ainda não perceberam que Pedrógão já não vende? Já ha outros incendios, bem mais pequenos, mas pronto, são outra noticia. Ao menos mudem o disco. Incendio ainda SÓ é noticia pro Dr Coelho e prá menina Cristas. QUE SE ENTRETENHAM OS DOIS…. e que DEMITAM OS MINISTROS. PRONTO!

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