PCP culpa militantes do partido por maus resultados

Miguel A. Lopes / Lusa

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa

Pela primeira vez, o PCP assumiu publicamente que há militantes e ex-militantes do partido que estão em discordância radical com o rumo dos últimos quatro anos.

O PCP responsabiliza-os, em parte, pelo resultado da CDU nas legislativas (descida de 17 para 12 deputados, descida de 444,9 mil votos para 329,2 mil votos, ou seja, menos 115,7 do que em 2015).

A referência aos “ex-membros e membros do partido” surge no comunicado da reunião do Comité Central do PCP que, na terça-feira, analisou o resultado das legislativas, de acordo com o Diário de Notícias. A referência, no entanto, foi omitida por Jerónimo de Sousa na conferência de imprensa em que, no dia seguinte, apresentou as conclusões da reunião.

O problema interno é contextualizado quando se explica que o resultado da CDU nas legislativas surge na sequência de “um processo marcado pelo prolongado e sistemático ataque dirigido contra o PCP“.

É nesse ataque que “alguns ex-membros e membros do Partido se têm inserido” e que se caracteriza “pela animação de ideias e conceções retrógradas e populistas”, passando também pelo “branqueamento do fascismo e do que ele representou”, por “operações provocatórias que a partir de estruturas e movimentações diversas visam dividir os trabalhadores e descredibilizar a sua luta e as suas organizações representativas de classe” e “pela difusão de elementos que têm como alvo a própria democracia e a ação política em geral, independentemente do conteúdo concreto que ela expressa, pela inscrição de objetivos que procuram novos passos na subversão da Constituição da República Portuguesa”.

Os “ex-membros e membros do PCP” que o comunicado do Comité Central refere não são identificados. Contudo, segundo o DN, a direção do partido entende que o criticismo interno à participação do partido na geringonça tem expressão pública, nomeadamente, num blogue anónimo feito por militantes do PCP e denominado “Que fazer?”.

Nessa página considera-se que aquilo que o PCP obteve para os trabalhadores por causa da posição conjunta assinada com o PS em 2015 não foi mais do que “um rol de migalhas para conter a pressão social e enganar o povo”.

Por outro lado, afirma que a direção poderá estar a protagonizar um desvio de direita, recordando outros do passado do partido: “As tentativas de destruição do PCP ou a sua transformação num partido social-democrata por dentro são históricas e constantes.”

“Quer-se acabar com o que já foi este Partido. Nos dias de hoje a atual direção vive às custas do passado, do que foi o nosso Partido desde a sua fundação em 1921 até aos tempos da clandestinidade onde heróicos camaradas foram torturados, exilados, assassinados. Hoje vivemos de aparências: uma organização em cacos. Na verdade a nossa organização revolucionária foi propositadamente estropiada para deixar de o ser e passar a ser outra coisa” e tudo isto é “sintoma de uma doença mais grave” que “tem um nome: desvio de direita, oportunismo.”

Também se faz um diagnóstico duro do que tem sido a discussão política dentro do PCP: “Nos dias de hoje muitos somos convocados para reuniões onde às vezes nem ordem de trabalhos existe. Mas, independentemente da existência ou não de uma ordem de trabalhos, o que sentimos é que não há espaço para discutir a linha política do Partido, para discutir a situação política nacional e internacional. Há reuniões que se limitam a distribuir tarefas e argumenta-se que “não há tempo para discutir a situação política”.

Outro argumento apresentado é que, “mesmo nos sectores que ainda reúnem pelo menos uma vez por mês, podem passar-se meses sem haver um ponto de discussão da situação política nacional e internacional. O que está em cima da mesa são tarefas, metas, objetivos e fundos.”

No comunicado, fala-se na “necessidade da realização de reuniões e plenários de militantes aos diversos níveis da estrutura partidária, promovendo a análise da situação atual e programando o seu trabalho e intervenção”, e anunciam-se três iniciativas de curto prazo: um comício esta sexta-feira no Fórum Lisboa; um encontro regional de quadros dia 19 de outubro, no Porto; e um comício a 26 de outubro na península de Setúbal.

“Impõe-se, no seguimento da intensa intervenção do Partido, tomar medidas para o reforço do trabalho de direção aos vários níveis, assegurar a responsabilização de quadros e militantes por tarefas e responsabilidades permanentes, prosseguir a ação de formação política e ideológica, promover a afirmação dos princípios de funcionamento do Partido”, lê-se no comunicado.

“É necessário promover o reforço de quadros e meios, assegurando uma ação que tenha como preocupação fundamental o conhecimento dos problemas, das aspirações, das reivindicações e do estado de espírito dos trabalhadores e a iniciativa para promover a sua unidade, organização e luta, articulada com a afirmação e o reforço do Partido.”

ZAP //

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3 COMENTÁRIOS

  1. Enquanto os comunisas continuarem a defender cegamente regimes totalitários apenas porque são socialistas, tais como Coreia do Norte, Cuba ou Venezuela, onde os direitos humanos não são respeitados, pouca gente votará num partido que, mesmo tendo as melhores ideias de defesa do trabalhador, será sempre um partido que defende a ditadura socialista.
    De ditaduras fiquei eu farto.

  2. Já olhas te p/ TI? Para aquilo que representas? Só os loucos hoje em dia que seguem essa ideologia.
    O Regime Soviético foi a baixo, e ainda bem, todos os outros países que mantem regime comunista como vive o Povo? Na MISERIA. Ainda pior do que o tu chamas de capitalismo, fascismo etc. Tem juízo e vai p/ casa, já era tempo não?

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