Parar o cronómetro no futebol? Números que contribuem para a discussão

O árbitro Mateu Lahoz

A contagem deve parar sempre? Só por vezes? Os adeptos mais jovens estão a afastar-se do futebol?

Num mundo em mudança constante, também o desporto vai mudando. Algumas modalidades tiveram alterações significativas nos últimos anos – voleibol e hóquei em patins são dois casos evidentes – e o futebol poderá ser mudado, em breve.

O centro das críticas ao futebol actual é, muitas vezes, o anti-jogo. Demorar dois minutos e meio para marcar um livre, quase meio minuto para um lançamento e um minuto para um pontapé de baliza, simulações de lesões incontáveis, impedir a marcação de um livre dos adversários…

A lista poderia continuar. E recentemente apareceu o vídeo-árbitro, que veio travar (ainda) mais o ritmo de muitos jogos de futebol.

No Europeu deste ano, no jogo entre Itália e Bélgica, nos últimos 21 minutos jogaram-se… oito. Cerca de um terço do total. Muitas faltas, muito tempo para cobrar os livres, deixar a bola parada sempre que se podia.

Este assunto originou um artigo de opinião no portal Breaking The Lines, assinado por Dharnish Sizlak, que destaca o que se vê em quase todo o lado: não há limites para o número de paragens e para a duração de cada paragem. Incidentes incontroláveis, objectos atirados para o relvado, treinadores expulsos. Muitos motivos fazem parar o jogo. Mas o relógio nunca pára.

O artigo mostra números da Premier League, de uma análise do Observatório de Futebol do Centro Internacional de Estudos Desportivos, que mostram que o maior tempo útil de jogo nas últimas três épocas verificou-se quando não havia adeptos nos estádios, na temporada passada.

A mesma análise confirma que as equipas que querem mandar na posse de bola são aquelas que protagonizam mais tempo útil. Mas mesmo o líder neste aspecto positivo – Manchester City, nas três épocas – apresenta uma média de 60 minutos de tempo útil por jogo. Ou seja, meia hora com a bola parada, mesmo assim.

Recuando até 2015, nos últimos seis anos de Premier League há vários encontros com menos de 45 minutos de tempo útil. Falamos sempre em “90 minutos de futebol” mas, como se vê, muitas vezes o futebol dura metade disso; ou menos.

E nos cinco principais campeonatos europeus o cenário não melhora muito: 57 minutos de tempo útil na Alemanha, 56 em França, 55 em Itália e Inglaterra e 53 minutos de tempo útil em Espanha.

Estes números (e não só) têm afastado os adeptos mais jovens. Mais do que os números: o que se vê nos jogos de futebol afasta os mais novos. A juventude destes dias tem muito mais formas, e muito mais facilidade, de encontrar entretenimento.

Parar o cronómetro pode ajudar a combater esta falta de interesse. Parar o relógio sempre que a bola está parada ou travar o cronómetro quando há paragens mais longas – são as duas possibilidades levantadas no artigo. Assim o futebol seria mais atraente e o número de “batotices” iria baixar.

Dharnish Sizlak defende que é preciso acabar com o facto de cada jogador “fazer o que quiser” e protestar com o árbitro sempre que quiser, acabar com as invasões de campo sem implicações no cronómetro e com as constantes obstruções ao que deveria ser um jogo de futebol.

“Neste momento o futebol que vemos é como um daqueles pacotes supostamente gigantes de batatas fritas: o tamanho diz ‘grande’ mas, depois de fazermos uma reflexão, vemos que é tudo menos isso“, finaliza o crítico.

  Nuno Teixeira, ZAP //

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