Pandemia pode causar “fome de proporções bíblicas”

United Nations Photo / Flickr

A pandemia de coronavírus poderá levar o mundo a enfrentar fome generalizada “de proporções bíblicas” dentro de alguns meses caso não sejam tomadas ações imediatas, alertou o diretor da agência de ajuda alimentar da Organização das Nações Unidas (ONU).

Como apontou a NPR, aproximadamente 135 milhões de pessoas em todo o mundo viviam à beira da fome em 2019, de acordo com o Programa Alimentar Mundial. Um relatório realizado pela ONU e por outras organizações, divulgado na quinta-feira, mostra que pelo menos 265 milhões de pessoas estarão nessa situação em 2020, devido à pandemia.

Citado pelo Guardian, o diretor executivo do Programa Alimentar Mundial, David Beasley, disse que 30 países em desenvolvimento podem atingir uma situação de fome generalizada e, em 10 desses – Iémen, Congo, Afeganistão, Venezuela, Etiópia, Sudão do Sul, Síria, Sudão, Nigéria e Haiti -, já existem mais de um milhão de pessoas à beira da fome.

“Não estamos a falar de pessoas que vão dormir com fome”, disse o responsável ao Guardian. “Estamos a falar de condições extremas, estado de emergência – pessoas a caminhar literalmente para a beira da fome. Se não conseguirmos comida para essas pessoas, elas vão morrer”, sublinhou.

Esta “é mais do que apenas uma pandemia – está a criar uma pandemia de fome. É uma catástrofe humanitária e alimentar”, frisou Beasley, que levou a sua mensagem ao conselho de segurança da ONU na terça-feira, alertando os líderes mundiais para uma ação rápida e pedindo que adiantassem cerca de dois mil milhões de dólares (cerca de 1,8 mil milhões de euros) em ajuda prometida.

“Há um risco real de que possam morrer mais pessoas devido ao impacto económico da Covid-19 do que pelo próprio vírus”, notou o responsável, citado pelo Washington Post.

O Guardian informou que são necessários 350 milhões de dólares (aproximadamente 323 milhões de euros) para reforçar a rede que levará alimentos e material médico – incluindo equipamentos de proteção individual – para os locais onde essa ajuda é necessária.

Mesmo antes da crise de Covid-19, Beasley apelava para um aumento do financiamento de ajuda alimentar aos países mais necessitados, cujos sistemas alimentares estavam em rutura devido aos conflitos e aos desastres naturais.

O diretor executivo do Programa Alimentar Mundial, David Beasley

“Já dizia que 2020 seria o pior ano desde a Segunda Guerra Mundial, com base no que previmos no fim do ano passado”, indicou o diretor executivo. A pandemia, que ninguém poderia prever, “levou-nos a um território desconhecido”, salientou. “Agora, esta é uma tempestade perfeita. Estamos a prever uma fome generalizada de proporções bíblicas”.

Avançando que é impossível prever como estará a situação daqui a quatro semanas, Beasley defendeu que “se conseguirmos dinheiro e mantivermos as cadeias de suprimentos abertas, poderemos evitar a fome. Podemos parar com isso se agirmos agora”.

O diretor executivo do Programa Alimentar Mundial pediu aos países que não implementem proibições de exportação ou outras restrições que possam influenciar o fornecimento de alimentos além-fronteiras. Defendeu ainda que o dinheiro, por si só, não será suficiente. “Precisamos de dinheiro e acesso – não um ou outro, ambos”, declarou.

O responsável apontou para uma queda acentuada nas remessas para o exterior que prejudicará países como o Haiti, o Nepal e a Somália; uma perda de receita no turismo que terá impacto negativo na Etiópia, por exemplo; e o colapso dos preços do petróleo, que prejudicará países de baixa receita, como o Sudão do Sul, onde o petróleo representa 99% do total das exportações.

O relatório da ONU apresentado na quinta-feira revelava que os refugiados estão “particularmente vulneráveis” aos impactos económicos e à doença. “A Covid-19 é potencialmente catastrófica para milhões que já só estão presos por um fio”, disse o economista-chefe da agência, Arif Husain, num comunicado divulgado com o relatório.

“É um golpe para milhões [de pessoas] mais, que só podem comer se tiverem um salário”, acrescentou Husain. “Só era preciso mais um choque – como a Covid-19 – para empurrá-los para além do limite. Precisamos agir coletivamente agora para mitigar o impacto desta catástrofe global”, frisou.

“Estamos juntos nisto. Podemos impedir que isso se torne uma fome generalizada. Mas precisamos agir com rapidez e inteligência”, apontou ainda Beasley, diretor executivo do Programa Alimentar Mundial, que, em 2019, ajudou 100 milhões de pessoas, com um orçamento de cerca de 7,5 mil milhões de dólares (à volta de 6,9 mil milhões de euros).

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