“Vamos reconstruir Notre Dame”. Catedral ficou de pé, salvaram-se as relíquias

O fogo na catedral de Notre-Dame, atingida por um grande incêndio que teve início na segunda-feira foi declarado extinto, de acordo com o porta-voz dos bombeiros de Paris, Gabriel Plus.

O incêndio começou às 18h50 (17h50 em Lisboa) na segunda-feira. Em poucas horas, grande parte do telhado ficou reduzida a cinzas. O fogo “violento” espalhou-se “muito rapidamente por todo o telhado”, em cerca de mil metros quadrados.

O incêndio terá tido início numa secção de andaimes junto ao sótão da catedral. A catedral estava a ser alvo de renovações, estando várias secções sob andaimes para se procederem a trabalhos de restauração.

A Procuradoria de Paris anunciou que os investigadores estão a considerar o incêndio na catedral de Notre-Dame como um acidente, referindo que a polícia vai avançar com uma investigação por “destruição involuntária causada pelo fogo”. O gabinete da procuradoria referiu que excluiu a hipótese de fogo posto ou a possibilidade de um ataque terrorista como causas para o início do incêndio.

O fogo consumiu toda a estrutura do teto e levou, inclusive, à queda do pináculo da catedral, momento captado em vários vídeos partilhados nas redes sociais.

Para o local foram mobilizados cerca de 400 bombeiros e usados 18 canhões de água para combater o incêndio. Um bombeiro terá ficado gravemente ferido, segundo relatos da agência Reuters.

Os bombeiros de Paris chegaram a temer não conseguir conter o fogo e que este se alastrasse ao campanário norte, o que significaria o possível colapso de duas torres que não só armazenam uma parte significativa do espólio artístico e religioso da catedral, como também contêm sinos que pesam várias toneladas. Por volta das 22h00 de segunda-feira, o comandante dos bombeiros disse que as torres estavas “salvas e preservadas”.

Do seu espólio, a Coroa de Espinhos, que só raramente é exposta em público, e a túnica de São Luís, ambas relíquias católicas de grande importância, foram recuperadas. De acordo com um jornalista no local, a Rosácea direcionada para norte na catedral – chamada La Rosace-Nord – terá sobrevivido ao incêndio. Porém, as outras três rosáceas explodiram com o calor.

Dezasseis estátuas de bronze, que foram retiradas antes das obras de reabilitação terem tido início, bem como as principais relíquias e mais importantes obras de arte, foram salvas das chamas.

Uma correspondente do Le Monde falou com Anne Hidalgo, presidente da Câmara de Paris, que lhe disse que a nave principal tinha um buraco no teto onde se encontrava o pináculo, mas que o altar e a cruz se encontravam preservadas. A mesma confirmou com Philippe Villeneuve, gestor de monumentos históricos, que “o tesouro foi conservado” mas que será feito “um inventário das obras das capelas ao redor da nave, que podem ter sido danificadas por fumo e água”.

“Juntos vamos reconstruir Notre-Dame”

Édouard Philippe, primeiro-ministro de França, exprimiu pesar pela destruição de Notre-Dame. “Não há palavras para a nossa tristeza, mas ainda estamos na luta. Esta noite os bombeiros estão a lutar, heróicos, contra o fogo, para preservar o que é possível”. O ex-presidente de França, Nicolas Sarkozy, optou por dizer o país foi marcado “no seu coração, na sua identidade, na sua história.”

O presidente da França, Emmanuel Macron, fez uma declaração em frente à Catedral de Notre-Dame enquanto os bombeiros mantinham os esforços para controlar o incêndio que deflagra desde a tarde neste histórico monumento, pedindo aos franceses união e anunciando a abertura de uma subscrição nacional para recolher fundos.

Macron disse que “o que aconteceu nesta catedral é uma terrível tragédia”, agradecendo à “extrema coragem, profissionalismo e determinação” de “quase 500 bombeiros”. Pelo seu trabalho, o presidente quis agradecer “em nome de toda a nação”.

O presidente francês mencionou que “o pior foi evitado, ainda que a batalha não tenha sido vencida”, referindo-se à confirmação dos bombeiros do salvamento da estrutura principal.

“A Notre-Dame de Paris é a nossa história, a nossa literatura. É o epicentro da nossa vida”, caracterizou Macron, dizendo-a “de todos os franceses, mesmo daqueles que nunca aqui vieram”. Querendo deixar uma “nota de esperança”, o presidente lembrou que o edifício foi construído há 800 anos e que o povo francês “soube como construí-la e, ao longo dos séculos, como fazê-la crescer e melhorá-la”.

“Vamos apelar aos maiores talentos e vamos reconstruir Notre-Dame, porque é aquilo que os franceses esperam, porque é o que a nossa história merece, porque é o nosso profundo destino”, disse, antes de anunciar a abertura de uma subscrição nacional para recolher fundos, deixando o apelo: “Juntos vamos reconstruir Notre-Dame”.

Segundo o Le Figaro, a “La Fondation du patrimoine”, uma organização privada dedicada à salvaguarda e preservação do património francês, vai lançar uma “coleta nacional”, tendo um dos sites onde se podem fazer doações sofrido uma enchente de visitas.

A família Pinault, uma das mais ricas de França, disponibilizou cem milhões de euros para a reconstrução da Catedral de Notre-Dame de Paris, anunciou François-Henri Pinault. Também a LVMH (Moët Hennessy Louis Vuitton SE), a maior empresa de artigos de luxo do mundo, e a família Arnault, sua detentora, já anunciaram uma doação de 200 milhões de euros para a reconstrução, revela o Le Monde.

A UNESCO, órgão das Nações Unidas que tem como um dos seus vários propósitos a salvaguarda do património cultural, já informou que vai estar ao lado da França para recuperar este monumento.

“Podemos pôr o que ganhamos hoje”

Os líderes das principais instituições da União Europeia manifestaram a sua solidariedade com França na sequência do incêndio na catedral de Notre-Dame, em Paris, e a vontade de participar nos esforços de reconstrução do monumento gótico.

Num debate no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, sobre os resultados da cimeira de líderes da UE da semana passada, os presidentes da assembleia, António Tajani, do Conselho Europeu, Donald Tusk, e da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, iniciaram invariavelmente as suas intervenções com palavras de pesar pelo incêndio da véspera.

Apontando que o devastador incêndio é “uma ferida que não vai passar rapidamente”, António Tajani defendeu que “todos se devem empenhar” e avançou com a ideia, que lhe foi proposta por um eurodeputado, “de recolher dinheiro” entre os parlamentares europeus. “Vamos pôr uma caixa no exterior do plenário, podemos pôr o que ganhamos, para enviar uma mensagem de solidariedade. Conto convosco. Penso que essa mensagem do Parlamento Europeu vai fazer bem à França, aos franceses e a todos os europeus”.

Por seu lado, Donald Tusk começou por deixar “palavras de conforto e solidariedade” a França, apontando que o fazia “não apenas como presidente do Conselho Europeu, mas também como cidadão de Gdansk, (cidade polaca) 90% destruída e queimada”, durante a II Guerra Mundial, “mas posteriormente reconstruída”.

Também Jean-Claude Juncker iniciou a sua intervenção afirmando que segunda-feira “foi um dia terrível para todos que amam a França e que amam Paris”, pois o incêndio foi “uma tragédia não apenas arquitetónica”.

Marcelo enviou um “abraço sentido”

Em Portugal, umas das primeiras reações chegou do Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa enviou uma mensagem ao seu homólogo francês com um “abraço sentido”. “Uma dor que nos trespassa o olhar e logo nos marca a alma, Paris sempre Paris ferida na sua Catedral em chamas, um símbolo maior do imaginário coletivo a arder, uma tragédia francesa, europeia e mundial”, lê-se na mensagem.

O primeiro-ministro, António Costa, por seu turno, transmitiu ao chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, e à presidente da Câmara de Paris, Anne Hidalgo, mensagens de solidariedade pelo “terrível incêndio” na Catedral de Notre-Dame. “É um pouco da nossa história da Europa que desaparece sob as chamas“, escreveu António Costa.

A ministra portuguesa da Cultura, Graça Fonseca, enviou uma mensagem de solidariedade ao seu homólogo francês, Franck Riester, pelo incêndio na Notre-Dame, que considerou um “momento terrível para França e para o mundo”. “Quero exprimir a nossa sincera solidariedade com França e consigo, em particular, e dar conta da disponibilidade do Governo português no apoio às autoridades francesas”, escreveu a ministra portuguesa.

“Grande é a tristeza com o incêndio na catedral de Notre-Dame, coração religioso e artístico de Paris e referência maior para todos nós. Estamos próximos da cidade, da diocese e do seu arcebispo, certos da ressurreição que tudo tem em Cristo!”, escreveu o cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente.

Catarina Martins manifestou-se solidária com os franceses. “Que imagens terríveis. Notre Dame é arte e memória que nos toca a todos. Toda a solidariedade para com quem combate o fogo e com os franceses”, escreveu Catarina Martins na sua conta na rede social Twitter. Também a presidente do CDS-PP, Assunção Cristas, expressou hoje “grande tristeza” pelo incêndio na catedral.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, declarou estar “horrorizado” com as imagens do incêndio que devasta a catedral de Notre-Dame, “uma joia única do património mundial que reina sobre Paris desde o século XIV”.

As reações chegaram de todos os cantos do mundo. Desde o Vaticano até à Comissão Europeia, passando pelo Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos, Espanha, Rússia e Brasil.

A Catedral de Notre-Dame de Paris, ou Cathédrale Notre-Dame de Paris, é uma das mais antigas catedrais francesas em estilo gótico. A sua construção foi iniciada em 1163, é dedicada a Maria, Mãe de Jesus Cristo, e situa-se na praça Paris, na pequena ilha Île de la Cité, na capital francesa, rodeada pelas águas do Rio Sena.

A icónica catedral é palco do romance “Notre-Dame de Paris”, publicado em 1831 por Vítor Hugo, que deu ao mundo o famoso Corcunda de Notre-Dame. Situando os acontecimentos na catedral durante a Idade Média, a história segue as desventuras de Quasímodo, que se apaixona por uma cigana de nome Esmeralda.

MC, ZAP // Lusa

 

 

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5 COMENTÁRIOS

  1. Boa tarde e as minhas sentidas palavras de apoio aos Franceses.
    Também me emocionei ontem à noite, pois é um legado que se perde, por muito que se reconstrua, nunca será a mesma coisa.
    Nunca fui a Paris, e consequentemente, só conheço (e mal) a Notre-Dame pelo cinema, livros, etc.
    Mas graças a Deus, à sorte, ou aos homens e mulheres que bravamente combateram as chamas, para já, ainda ninguém morreu.
    Ainda bem que estão a surgir apoios e verbas avultadas, mas não deixa de ser algo inanimado… mas pergunto: e Moçambique?! Onde tantas vidas se perderam, dezenas (senão centenas) de milhar estão ainda mais miseráveis e pobres, à mercê de doenças ou da maldade humana… para UM PAÍS, c/perda de algumas CENTENAS de vidas humanas, porque não há uma ajuda assim?
    Santa Páscoa para todos.

    • Concordo plenamente!
      Sempre foi assim, ajudar os ricos, explorar e desprezar pobres.
      Quanto ofereceu o estado mais rico do mundo “VATICANO” para a catedral?
      Boa páscoa.

  2. Apesar de não ser em Portugal senti um enorme desgosto pelo que se abateu sobre este marco histórico da humanidade.
    Estava mesmo angustiado ao ver as notícias, ainda bem que se pode reconstruir e recuperar.

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