Afinal, nem todos os pilotos kamikaze eram voluntários dispostos a morrer pelo país

Richard / Flickr

Bombardeiro torpedeiro Nakajima, Ōta (Japão), 1945

Milhares de pilotos kamikaze japoneses foram destacados para sacrificarem as suas vidas durante a 2.ª Guerra Mundial, de forma a tentar evitar o evidente fracasso do Japão. No entanto, cartas e diários desses militares revelam que nem todos se voluntariaram para essa missão.

A 27 de novembro de 1944, o céu acima do cruzador USS Montpelier, estacionado nas Filipinas, estava repleto de aviões japoneses. Enquanto os pilotos norte-americanos os combatiam, o marinheiro e tripulante James Fahey reparou que um desses aviões estava a cair, embora não tivesse sido atingido.

Segundo relatou o All That’s Interesting (ATI), poucos segundos depois, James Fahey viu outro avião japonês cair – novamente sem indícios de dano – na popa de um cruzador próximo, o USS St. Louis. A colisão gerou “uma bola de fogo, que entrou em erupção”, tendo levado à explosão do navio e à morte da tripulação.

O que o marinheiro não sabia naquele momento é que estava no meio de um ataque kamikaze – um ataque de um inimigo que não tinha a intenção de sair vivo. Os pilotos kamikaze japoneses foram a medida mais brutal e desesperada contra os militares americanos na 2.ª Guerra Mundial. E, durante um tempo, funcionou, referiu o ATI.

James Fahey pensou que era a primeira pessoa a ver um avião kamikaze em ação, mas estava enganado. No momento em que o USS Montpelier foi atacado, os japoneses já estavam a usar essa estratégia há quase um mês. O primeiro avião kamikaze atingiu o seu alvo a 25 de outubro de 1944, na Batalha do Golfo de Leyte.

De acordo com o ATI, também durante o ataque a Pearl Harbor houve um ato kamikaze, quando o piloto Fusata Iida caiu deliberadamente numa estação naval norte-americana, cumprindo uma promessa aos amigos de que, se fosse atingido, direcionaria o seu avião para um “alvo inimigo valioso”.

Contudo, somente quando a Alemanha se rendeu e a vitória dos Estados Unidos (EUA) sobre o Japão se tornou quase inevitável é que os militares japoneses começaram a considerar o envio dos seus próprios homens para a morte como uma estratégia militar.

Mesmo no Japão, poucos acreditavam que havia uma maneira de vencer a guerra. Lutavam, sim, devido ao medo das exigências americanas de “rendição incondicional”. Se pudessem tornar a batalha dolorosa o suficiente para os Aliados, os japoneses acreditavam que poderiam negociar melhores condições.

Foi o capitão Motoharu Okamura quem primeiro propôs a ideia dos pilotos kamikazes, a 15 de junho de 1944. “Na nossa situação atual”, disse ao vice-almirante Takijirō Ōnishi, comandante da 1.ª Frota Aérea do Japão, “acredito firmemente que a única maneira de virar a guerra a nosso favor é recorrer a ataques rápidos com os nossos aviões”.

Segundo Motoharu Okamura, os homens do Japão estariam dispostos a dar a vida para salvar o seu país. “Consiga 300 aviões e eu irei virar a maré da guerra”, prometeu, acrescentando que não havia “outro caminho.”

Os kamikazes “voluntários”

O esquadrão suicida de Motoharu Okamura e de Takijirō Ōnishi não era como os suicidas solitários que, no passado, haviam colidido os aviões contra os seus inimigos. Estes usavam aviões equipados com uma bomba de 250 quilos. Quando atingiam os alvos, ocorria uma explosão tal que podia desabilitar um porta-aviões – ou mesmo afundá-lo.

Para esses pilotos, não havia hipótese de sobrevivência. Alguns dos aviões kamikaze descartavam o seu equipamento de pouso assim que decolavam, um peso inútil para um piloto que não tinha intenção de voltar para casa.

A força seria apelidada de kamikaze, que, em japonês, se traduz em “vento divino”. A frase foi usada desde o reinado de Kublai Khan, no século 13, quando tufões dispersaram os mongóis que tentavam invadir o Japão. Tal como aquelas forças aparentemente sobrenaturais, “os pilotos japoneses salvariam o seu povo da destruição”.

Como previsto por Motoharu Okamura, alguns homens inscreveram-se no programa. De acordo com o que foi contado, quando o vice-almirante Takijirō Ōnishi pediu pela primeira vez, todos os homens presentes ofereceram-se como voluntários.

Medo da morte

Na propaganda japonesa, o facto de terem aceite e de se terem voluntariado era prova de que esses homens estavam dispostos a morrer pelo país. Mas a situação descrita nos diários e nas cartas dos próprios kamikazes é muito menos consistente.

Os militares relataram com orgulho que, quando o piloto Yukio Seki foi convidado para liderar a unidade kamikaze, fechou os olhos e ficou quieto por um momento, depois passou as mãos pelo cabelo e disse: “Por favor, nomeie-me para o cargo”.

Mas os comentários privados de Yukio Seki sugerem que apenas se ofereceu porque sentia que não tinha escolha. “O futuro do Japão é sombrio se for forçado a matar um dos seus melhores pilotos”, disse amargamente a um correspondente de guerra. “Eu não vou para esta missão por causa do Imperador ou do Império. Vou porque me foi ordenado”.

Muitos pilotos kamikazes compartilhavam a amargura de Yukio Seki perante a perspectiva da morte inevitável, mesmo os que se voluntariaram.

RV1864 / Flickr

Pilotos kamikaze a tomar o seu último saquê

“Não posso deixar de chorar quando penso em ti, mãe. Quando reflito sobre as esperanças que tinhas para o meu futuro, sinto-me tão triste porque vou morrer sem fazer nada para lhe trazer alegria”, escreveu à mãe um outro piloto.

Condições tortuosas

Os “voluntários” seguintes passaram por condições ainda mais duras para aceitar as suas missões suicidas. O piloto Irokawa Daikichi escreveu no seu diário que, durante o treino, estava constantemente faminto e era espancado. Os seus superiores negavam-lhe qualquer tipo de alimento e, se suspeitassem que havia comido, espancavam-no.

“Fui atingido com tanta força que não pude mais ver, nem sentir o chão”, escreveu. “No minuto em que me levantei, fui atingido novamente. [Ele] bateu-me no rosto 20 vezes e o interior da minha boca foi cortado em vários lugares pelos meus dentes”.

Os pilotos kamikaze eram espancados por qualquer tipo de deslealdade. Alguns descreveram ter sido ordenados a memorizar poemas em formas arcaicas de japonês, sendo atirados ao chão toda vez que cometiam um erro.

Quando chegasse o dia do ataque, qualquer sensação de livre arbítrio que tivessem ou algum desejo de desobedecer às ordens estaria aniquilado.

Antes de subir nos aviões, recebiam uma fita com mil pontos – designada senninbari -, em que cada ponto era feito por uma mulher diferente como agradecimento por darem as suas vidas na guerra. Como os samurais, recitavam um poema de morte e compartilhavam uma última taça de saquê com outros homens que, como eles, estavam prestes a morrer.

O primeiro ataque kamikaze

Na manhã de 25 de outubro de 1944, um esquadrão de cinco pilotos kamikaze japoneses, liderados por Yukio Seki, sobrevoou o Golfo de Leyte, nas Filipinas.

Os norte-americanos estavam totalmente despreparados para o que estava prestes a acontecer. Embora estivessem habituados a manejar armas e disparar, estavam habituados a um inimigo que, uma vez incapacitado, tentaria voltar para casa.

O primeiro kamikaze mergulhou em direção ao porta-aviões USS Kitkun Bay, apontando diretamente para o centro de comando. Contudo, o avião bateu no passadiço e caiu no mar, deixando o navio danificado, mas ainda apto.

Os dois pilotos seguintes saíram-se ainda pior. Mergulharam em direção ao porta-aviões USS Fanshaw Bay, mas ambos foram atingidos no ar por fogo antiaéreo antes que pudessem causar algum dano.

Os dois últimos kamikazes mergulharam na direção de um terceiro navio, o USS White Plains, sob fogo pesado. Crivado de balas, a missão parecia um fracasso total. Porém, um dos aviões – a lenda diz que pilotado por Yukio Seki – virou subitamente e bateu no convés de outro porta-aviões, o USS St. Lo.

Os explosivos do avião de Yukio Seki detonaram o porta-aviões de oito mil toneladas, que entrou em chamas. Os norte-americanos tiveram que se esforçar para salvar o maior número possível dos 889 tripulantes a bordo antes que o mesmo se afundasse.

Conclusão: Cinco aviões japoneses tinham caído e, com esses, cinco pilotos. Mas esse primeiro esquadrão kamikaze derrubou um porta-aviões e matou mais de 100 homens. A primeira experiência do Japão com caças kamikaze foi, assim, um sucesso.

O crescimento do programa kamikaze

Nas 48 horas seguintes ao primeiro ataque, outros 50 pilotos kamikaze foram enviados para o Golfo de Leyte. Ao todo, essa experiência de Takijirō Ōnishi atingiu sete transportadores e 40 outros navios, cinco dos quais afundaram.

No decurso da guerra, milhares de homens sacrificaram a vida ao atacar os inimigos (o Japão fixou o número em quatro mil, enquanto os EUA calcularam 2.800 pilotos kamikaze mortos). Tornar-se-iam numa das maiores forças de ataque do Japão, mesmo quando os norte-americanos aprenderam a adaptar-se.

Na batalha final do Teatro do Pacífico – Batalha de Okinawa -, foram enviados cerca de 1.465 aviões kamikaze para embater contra alvos inimigos, somente nesse confronto.

O programa kamikaze foi extremamente eficaz – apesar de apenas 14% dos pilotos terem atingido os seus alvos. De acordo com algumas estimativas, estes foram responsáveis ​​por 80% das perdas dos EUA na fase final da guerra.

Os líderes militares japoneses estavam a preparar mais aviões e barcos suicidas para a invasão norte-americana. Se a guerra não tivesse terminado antes que o exército dos EUA tivesse que invadir as praias do Japão, esse teria encontrado uma onda de esquadrões suicidas diferentes de qualquer outro que já tinham visto.

O fim do programa

O programa kamikaze terminou com a guerra. No início de agosto de 1945, depois de os EUA lançarem as bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki e o Exército Soviético começar a passar pela Manchúria, ficou claro que não havia nada que o Japão pudesse fazer para mudar o seu destino.

Para muitos dos pilotos que deram as suas vidas, este era o final esperado. Muitos, antes de voar para a morte, escreveram cartas para as mães lamentando o facto de desperdiçarem as vidas numa guerra fútil.

“Eu tenho que aceitar o destino da minha geração: lutar na guerra e morrer”, escreveu um desses pilotos.

Milhares de jovens não voltaram para casa. Mas, segundo o manual que o governo japonês lhes forneceu antes de partirem nas suas últimas missões, antes de morrerem, viriam as suas mães uma última vez. “Naquele momento, quando o avião atingir alvo, verás o rosto da tua mãe”, lia-se no documento.

“Estarás relaxado e um sorriso aparecerá no teu rosto. A doce atmosfera dos teus dias de infância retornarão. E poderás até ouvir um som final, como a quebra de um cristal. Então já não és mais”, acrescentava o manual.

TP, ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. Bando de loucos – basta ver para o que eles fizeram aos países vizinhos (até Timor invadiram!), para se perceber que o japunas não batem nada bem da bola!…
    Tiveram que levar com duas “castanhas” para aprender que o mundo não era todo deles e que não valia tudo…
    E, é normal haver “voluntários” à força!…

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