O mundo está “mais pacífico” (mas a guerra na Síria já dura há oito anos)

Morning Calm Weekly Newspaper Installation Management Command, U.S. Army / Flickr

Com o irmão nas costas, uma menina coreana foi fotografada perto de um tanque parado em Haengju, na Coreia, a 09 de junho de 1951

Embora a guerra na Síria já dure há oito anos, investigadores noruegueses determinaram que o mundo está a tornar-se cada vez mais pacífico, devido, principalmente, à diminuição de mortos em situações de conflito. Essa mudança, concluíram, deu-se depois da Guerra da Coreia, que ocorreu entre 1950 e 1953.

De acordo com o diretor de pesquisa do Instituto de Pesquisa para a Paz de Oslo (PRIO), Håvard Mokleiv Nygård, a diminuição do número de mortos em batalhas mostra que o mundo tornou-se “um lugar mais pacífico”. Segundo indicou, o paradigma foi alterado após a Guerra da Coreia, constituindo-se este momento como o “ponto de rutura”.

“Os conflitos armados antes da Guerra da Coreia mataram quatro vezes mais pessoas do que as guerras que se seguiram. A mudança após este ponto de rutura é uma indicação de que o mundo tornou-se um lugar mais pacífico”, revelou à Apollon, a 15 de fevereiro.

Para chegar a essa conclusão, durante vários anos, especialistas do PRIO utilizaram estatísticas para analisar os conflitos armados, em colaboração com profissionais desta área e do departamento de matemática da Universidade de Oslo, na Noruega. “Não poderíamos ter realizado a pesquisa sem o uso extensivo de estatísticas”, disse o diretor.

Desde a sua fundação, em 1959, o instituto tem analisado as razões que levam à guerra, como esta se desenvolve e quais as medidas que podem ser tomadas para controlar ou eliminar os conflitos, através do estudo de dados estatísticos.

Apesar de Håvard Mokleiv Nygård acreditar que o momento de rutura deu-se depois da Guerra da Coreia, especialistas que trabalham com o investigador acreditam que é “estatisticamente incerto” indicar o momento em que o mesmo ocorreu.

Morning Calm Weekly Newspaper Installation Management Command, U.S. Army / Flickr

Membros da polícia militar da República da Coreia nas ruínas de um edifício devastado, em Pohang, a 17 de outubro de 1950.

“Embora a Guerra da Coreia seja o melhor palpite, o ponto de rutura pode ter ocorrido em 1945 ou no final da Guerra do Vietname. No entanto, embora o momento seja incerto, ainda vemos uma clara diferença entre o número de mortos antes e depois do ponto de rutura”, apontou Nils Lid Hjort, professor de estatística da Universidade de Oslo.

A hipótese de que o mundo tornou-se mais pacífico foi levantada em 2011 pelo professor da Universidade de Harvard (Estados Unidos) Steven Pinker, no seu livro “The Better Angels of Our Nature” (“Os melhores anjos da nossa natureza”), que incidia sobre a violência. Muitas das suas pesquisas foram realizadas tendo por base os dados do PRIO.

Contudo, essa não foi uma teoria consensual. Para o professor Aaron Clauset, da Universidade do Colorado (Estados Unidos), a base de dados utilizada na pesquisa “não é boa o suficiente para chegar a essa conclusão”.

Håvard Mokleiv Nygård explicou: “a distribuição do número de pessoas que morrem na guerra não segue uma curva distribuída de maneira uniforme. Existem muitas guerras no meio da curva com um certo número de mortes e poucas guerras nos extremos da curva, com poucos ou muitos mortos”.

Apesar de muitas das ferramentas estatísticas utilizadas em pesquisas na área das ciências sociais funcionarem bem, a quantidade de pessoas mortas em guerras “segue padrões mais complicados”, o que levou ao trabalho conjunto do PRIO com matemáticos da Universidade de Oslo, que criaram novos métodos para analisar esses mesmos números.

Aaron Clauset acredita que a tendência registada após a Guerra da Coreia deve continuar por mais 150 anos, até que o mesmo se sinta “confortável, estatisticamente falando”, para afirmar que o mundo se tornou, de facto, mais pacífico.

Os matemáticos da Universidade de Oslo discordem da sua opinião. “Já podemos dizer agora que o mundo tornou-se um local mais pacífico”, frisou Céline Cunen, do Departamento de Matemática daquela instituição de ensino superior.

Os envolvidos nesta análise pesquisaram igualmente as circunstâncias que afetam o número de mortes numa guerra, como é o caso do nível de democracia e da intenção de negociação por parte dos países ou dos grupos, um ano antes de os conflitos irromperem.

“A nossa ideia é: quanto maior o número de relações comerciais entre os países, menor o risco de guerra”, acrescentou Céline Cunen.

Os dados utilizados nesta pesquisa provêm de uma plataforma com informações sobre todas as guerras, desde 1800. Para que uma guerra seja registada nesta plataforma, é necessário que dois países estejam em conflito e que contem com, pelo menos, mil mortos em cada um. O último registo é de 2003, quando os Estados Unidos invadiram o Iraque.

Esta análise, contudo, não teve em consideração as guerras civis, como a que ainda se mantém na Síria.

Embora tenham ocorrido menos conflitos entre estados, houve um aumento gradual nas guerras civis, a partir de 1992. Essa tendência inverteu-se em 2011, com a Primavera Árabe, tendo o número de guerras civis voltado a aumentar desde então.

Poderão as estatísticas prever uma grande guerra?

“Estes modelos podem ser usados ​​para verificar se a Primeira ou Segunda Guerra Mundial poderiam ter sido previstas, com base nos dados que tínhamos antes de as mesmas terem começado. É muito raro que um conflito inicie da noite para o dia: muitas vezes há uma escalada de algo muito pequeno para algo muito grande”, disse Håvard Mokleiv Nygård.

Um dos exemplos mais recente é a Guerra das Malvinas, em 1982, que iniciou com sanções e conflitos e terminou em guerra.

Para investigar como um conflito pode transformar-se em guerra, o PRIO utiliza outro banco de dados, que integra informações sobre todos os conflitos ocorridos desde 1946, tendo em conta somente aqueles em que foram mortas mais de 25 pessoas por dia ao longo de um ano.

“Para lidar com conflitos enquanto ainda são pequenos, precisamos entender como estes se desenvolvem. Uma vez que entendamos isso, esperamos que seja possível lidar com os mesmos e interrompê-los a tempo. Sem análise estatística, é impossível”, apontou o diretor do PRIO.

De acordo com o investigador, são poucos os recursos utilizados na prevenção. “Sabemos muito pouco sobre como evitar conflitos. É importante entender os pontos de rutura. Já conseguimos determinar que vários conflitos poderiam ter sido consideravelmente menores se as forças de paz tivessem sido mobilizadas”.

Nos próximos três anos, Gudmund Horn Hermansen, professor associado do Departamento de Matemática da Universidade de Oslo, pretende encontrar as razões pelas quais os conflitos aumentam, analisando a interação entre os protestos não violentos e os violentos, o que leva um conflito a aumentar e o que causa a interrupção de outros.

Taísa Pagno, ZAP // Apollon

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