Mel norte-americano ainda contém resíduos radioativos de testes nucleares da Guerra Fria

Um novo estudo revelou que o mel norte-americano ainda contém traços de precipitação radioativa de testes nucleares nas décadas de 1950 e 1960.

Em causa está o césio-137, um isótopo que é uma relíquia dos testes da bomba atómica realizados durante a Guerra Fria.

Jim Kaste, geoquímico ambiental da Universidade William & Mary, relatou que 68 das 122 amostras de mel do Maine até à Florida mostram quantidades variáveis de césio-137.

A contaminação de alimentos com césio-137 levantou preocupações após os incidentes nucleares em Chernobyl e Fukushima, os níveis de césio-137 Kaste encontrou no mel estão muito abaixo dos níveis que levaram as autoridades a retirar alimentos do mercado após os desastres daquelas centrais nucleares.

“Não estou a tentar dizer às pessoas que não devem comer mel. Eu alimento os meus filhos com mel”, disse o autor principal do estudo, em comunicado. “Eu como mais mel agora do que quando comecei este projeto.”

Como é que o césio-137 chegou ao mel?

Kaste oferece uma hipótese para as várias etapas em que o césio-137 percorreu distâncias enormes até chegar aos potes de mel de colmeias na costa leste da América. A hipótese também aborda por que é que este tende a aparecer mais em algumas áreas do que noutras.

O césio-137 é um subproduto da fissão urânio-plutónio, um componente da precipitação das explosões de teste da bomba H realizadas pelos Estados Unidos e pela União Soviética em locais que vão do Novo México e Nevada às Ilhas Marshall, e ao arquipélago Ártico russo Novaya Zemlya.

Os testes variaram em magnitude e Kaste considera impossível determinar qual das bombas produziu o césio-137 encontrado em qualquer região, muito menos em qualquer pote de mel específico.

“Sabemos que a produção de césio-137 nos locais do Pacífico e da Rússia foi mais de 400 vezes a produção das explosões do Novo México e Nevada”, disse o investigador. “Uma única bomba russa, a Bomba Tzar, era mais de 50 vezes mais poderosa do que todos os testes de Nevada e Novo México combinados.”

Kaste explicou que o que não caiu na terra perto dos locais de teste flutuou na atmosfera – e na estratosfera, no caso de explosões maiores.

Os ventos predominantes levaram o césio para leste o isótopo cair na terra, à boleia da chuva abundante do leste dos Estados Unidos.

A análise de Kaste sobre o mel de fonte única mostrou algumas tendências. Por exemplo, as amostras de mel da Virginia Piedmont eram virtualmente isentas de césio. Em comparação, o mel da Carolina do Norte para o sul mostrava a presença de césio-137. O mel da Florida apresentava muitos resíduos radioativos.

A culpa é do solo

Como o césio foi trazido à terra pelas chuvas, faria sentido que as áreas com a maior precipitação anual tendessem a produzir mel misturado com césio. Mas não foi esse o caso. O segredo da ligação entre o césio e o mel estava na química do solo, principalmente no teor de potássio.

Segundo os cientistas, o mel misturado com césio vinha de solos com baixo teor de potássio. “O potássio é um nutriente importante para as plantas”, disse Kase. “E os átomos de potássio e césio são muito semelhantes.

As plantas em busca de potássio absorveram o césio. Segundo Kaste, a substituição não aconteceu onde o solo era rico em potássio. Contudo, em solo com baixo teor de potássio, as plantas absorvem o que parece ser a segunda melhor opção, passando o isótopo através do néctar para as abelhas.

As abelhas biomagnificam o césio no processo de fabricação do mel.

A busca pelo mel

Kaste e Paul Volante iniciaram a busca de mel em grande parte do leste dos Estados Unidos. “Basicamente, comecei apenas a encontrar produtores de mel”, disse Volante. “Precisava de verificar se eram produtores locais de mel em pequena escala. (…) Normalmente colocávamos [o mel] numa placa de Petri de 150 mililitros”.

Depois, a amostra do mel entra num detetor gama, onde fica durante alguns dias. O detetor regista as interações das partículas gama emitidas conforme o césio-137 decai.

Segundo Volante, o césio-137, com a sua meia-vida de cerca de 30 anos, continua a ser a forma dominante de poluição por radiação ionizante no meio ambiente, mesmo 60 anos após o término dos testes nucleares.

A infiltração do césio-137 na dieta humana tem sido motivo de preocupação há algum tempo. Segundo Kaste, o governo dos Estados Unidos realizou testes generalizados para a presença de césio-137 e outros radionuclídeos da era da Guerra Fria em leite até aos anos 1980. Os registos mostraram níveis mais altos de contaminação em amostras da Flórida.

Porém, não há registo de que o leite tenha sido retirado do mercado devido aos altos níveis de césio-137, acrescentou Kaste, reiterando que os estudos o com mel não devem despertar qualquer preocupação para o consumo humano.

“O que vemos hoje é uma pequena fração da radiação que estava presente durante as décadas de 1960 e 1970”, disse. “Não podemos dizer com certeza se o césio-137 tem algo a ver com o colapso das colónias de abelhas ou o declínio da população.”

O investigador espera que o trabalho do mel ilustre a longa vida dos poluentes ambientais, particularmente as formas imprevisíveis como os contaminantes podem circular pelo meio ambiente. O césio-137 é um “legado poluente”, rematou Kaste.

Este estudo foi publicado na revista científica Nature Communications.

Maria Campos, ZAP //

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