Medidas para conter pandemia mudaram rotas de tráfico de droga, diz ONU

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As medidas para conter a pandemia de covid-19 interromperam as rotas de tráfico por via aérea e há “uma redução drástica ou aumento da interdição” por terra, informou na quarta-feira a ONU.

Segundo um relatório publicado na quarta-feira pelo Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC), sediado em Viena, “algumas cadeias de suprimentos de drogas foram interrompidas e os traficantes estão a procurar rotas alternativas, incluindo marítimas, dependendo dos tipos de estupefacientes contrabandeados”.

De acordo com a agência Lusa, o mesmo relatório indicou que “drogas sintéticas, como a metanfetamina, tendem a ser traficadas pelos continentes pelo ar mais do que outros tipos de drogas” e, “portanto, é provável que as restrições às viagens aéreas tenham um efeito particularmente drástico nessa carga ilegal”.

A maior parte da cocaína é traficada por mar e grandes cargas continuam a ser detetadas nos portos europeus durante a pandemia. Quanto à heroína, até agora tem sido traficada por terra, “porém, devido à pandemia, as rotas marítimas parecem ser cada vez mais usadas no tráfico”, “como mostram as apreensões no Oceano Índico”, disse o UNODC.

“O tráfico de canábis, no entanto, pode não ser afetado da mesma forma que a heroína ou a cocaína, uma vez que sua produção ocorre frequentemente perto dos mercados consumidores e os traficantes ficam menos dependentes de remessas longas e transregionais de grandes quantidades da droga”, argumenta a agência.

Relativamente às tendências de consumo, vários países relataram escassez de medicamentos na venda a retalho, o que, na análise da UNODC, “pode levar a uma diminuição geral no consumo, mas principalmente das drogas consumidas principalmente em locais de lazer”.

No entanto, no caso da heroína, uma escassez no suprimento a retalho pode levar ao consumo de substâncias nocivas produzidas no país, tendo a falta deste opiáceo sido relatada por países da Europa, Sudoeste Asiático e América do Norte, enquanto alguns estados europeus alertaram que os consumidores deste tipo de estupefaciente “podem até mudar para o [medicamento] fentanil e seus derivados”.

A UNODC sublinhou que também foi relatado um aumento no uso de produtos farmacêuticos como benzodiazepinas, que já viram o seu preço a aumentar para o dobro em determinadas áreas. Outro padrão prejudicial resultante da escassez de drogas é o aumento no uso de estupefacientes injetáveis e a partilha de equipamentos injetores.

Todos estes fatores, alertou a agência, “podem potenciar o risco de propagar doenças como VIH/sida, hepatite C e a próprio covid-19”. O risco de overdose “também pode aumentar” entre os consumidores de drogas injetáveis e que estão infetados com covid-19.

Já nas tendências da produção de medicamentos, o UNODC considerou que “as restrições resultantes do bloqueio poderão dificultar a produção de opiáceos, com os principais meses de colheita no Afeganistão sendo de março a junho”.

“Devido às restrições derivadas da covid-19, talvez não seja possível ou se esteja disposto a viajar para áreas onde a papoila é cultivada no país, o que poderia afetar a colheita deste ano”, explicou.

A produção de cocaína também parece ser prejudicada na Colômbia, acrescentou o UNODC, “pois os produtores sofrem com a escassez de gasolina”. Enquanto isso, na Bolívia, a covid-19 está a limitar a capacidade das autoridades estaduais de controlarem o cultivo de coca, “o que poderá levar a um aumento na produção” desta substância.

No Peru, no entanto, uma queda no preço da cocaína sugere uma redução nas oportunidades de tráfico, adiantou a agência, analisando que este facto “pode desencorajar o cultivo de coca no curto prazo, embora a crise económica iminente possa levar mais agricultores a adotar o cultivo de em todos os principais países produtores de cocaína”.

Um declínio no comércio internacional da atual pandemia pode também levar à escassez no fornecimento de precursores, vitais para o fabrico de heroína e também para drogas sintéticas, afirmou o organismo da ONU.

Uma oferta limitada no México, por exemplo, parece ter interrompido a fabricação de metanfetamina e fentanil, enquanto no Líbano e na Síria isso está a afetar a produção de captagon. A República Checa, por outro lado, admite esperar uma escassez de metanfetamina pelas mesmas razões.

“A longo prazo, a desaceleração económica causada pela pandemia da Covid-19 tem o potencial de levar a uma transformação duradoura e profunda dos mercados de medicamentos, que só pode ser totalmente compreendida após mais pesquisas”, advertiu.

As dificuldades económicas causadas pela Covid-19 podem afetar pessoas que já estão em posição de desvantagem socioeconómica mais do que outras, admitiu a UNODC.

Os dados que permitiram esta informação foram reunidos pela UNODC diretamente de autoridades governamentais, escritórios de campo da agência da ONU, fontes abertas e informações dos media, resumidas no relatório “Covid-19 e mercados de drogas”.

Com base nos dados recebidos, a agência forneceu “algumas observações e suposições em primeira mão sem tirar conclusões geralmente válidas”, o que “acontecerá mais tarde, depois de pesquisas mais profundas serem feitas no campo”.

 

Lusa //

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