Luaty Beirão termina greve de fome. “Não vou desistir de lutar”

João Porfírio / Lusa

Vigília por Luaty Beirão em Lisboa

O rapper e ativista angolano Luaty Beirão, internado sob detenção numa clínica de Luanda, terminou a greve de fome de protesto, mas avisou que não vai desistir de lutar pelo fim da “greve humanitária e de Justiça” em Angola.

“Estou inocente do que nos acusam e assumo o fim da minha greve. Sem resposta quanto ao meu pedido para aguardamos o julgamento em liberdade, só posso esperar que os responsáveis do nosso país também parem a sua greve humanitária e de justiça“, afirma Luaty Beirão, na carta enviada pela família à Lusa e na qual anuncia o fim da greve de fome, que na segunda-feira completou 36 dias.

O músico e ativista, que também tem nacionalidade portuguesa, é um dos 15 angolanos em prisão preventiva desde junho, sob acusação de atos preparatórios para uma rebelião em Angola e de um atentado contra o Presidente da República.

Os restantes 14 aguardam julgamento no hospital-prisão de São Paulo, em Luanda, tendo Luaty Beirão pedido anteriormente para sair da clínica privada onde se encontra por precaução para se juntar aos colegas, em solidariedade.

“À sociedade: Não vou desistir de lutar, nem abandonar os meus companheiros e todas as pessoas que manifestaram tanto amor e que me encheram o coração. Muito obrigado. Espero que a sociedade civil nacional e internacional e todo este apoio dos media não pare”, escreve Luaty Beirão na mesma declaração, sob o título “Carta aos meus companheiros de prisão”.

O ativista angolano reclamava excesso de prisão preventiva, exigindo aguardar julgamento – entretanto marcado para 16 de novembro, em Luanda, – em liberdade, como prevê a lei angolana para este tipo de crime.

dr redeangola.info

Luaty Beirão, músico luso-angolano, 33 anos.

Na carta, a que a Lusa teve acesso, Luaty Beirão, que assina com os heterónimos musicais “Brigadeiro Mata Frakuzx” ou, mais recentemente, “Ikonoklasta”, um dos rostos de contestação ao regime angolano, reconhece o apoio, nacional e internacional, pela “libertação” destes ativistas.

“No nosso país muita coisa mudou e outras lamentavelmente se repetem. Soube dos limites serem ultrapassados, com mamãs espancadas e vigílias à porta de igrejas, reprimidas cobardemente. Isto expôs a fragilidade de quem nos governa. E a prepotência, incompetência e má-fé demonstradas na gestão do nosso processo, trouxeram-nos até aqui. Cada decisão contra, acabou por resultar a favor de mais e maior atenção. Ainda assim, a força parece desproporcional”, escreve Luaty Beirão.

Dirigindo-se diretamente aos restantes 14 ativistas detidos, atira: “Não vejo sabedoria do outro lado. Digo-vos o que disse noutras situações semelhantes: Vamos dar as costas. E voltar amanhã de novo. Vou parar a greve”.

Criticando a forma como este processo foi gerido pelas autoridades angolanas, Luaty Beirão afirma que “de todos os modos a máscara já caiu” e “a vitória já aconteceu”.

“E o mérito a seu dono: foi o próprio regime que, incapaz de conter os seus próprios instintos repressivos, foi, a cada decisão, obviando a vã promessa de democracia, liberdade de expressão e respeito pelos direitos humanos”, afirma o ativista.

Acrescenta que os que contestam o regime angolano, liderado desde 1979 por José Eduardo dos Santos, já não são “arruaceiros” ou “jovens revús [revolucionários]”, nem sequer “estamos sós”.

“Em Angola, somos todos necessários. Somos todos revolucionários. Foi assim que o nosso país nasceu, mas, desta vez, lutamos por uma verdadeira transformação social, em paz”, concluiu a carta, assinada por Luaty Beirão.

/Lusa

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4 COMENTÁRIOS

  1. Finalmente uma boa notícia. Angola está longe de ser um país perfeito, mas precisa mais de paz e serenidade do que de individuos alucinados que buscam fama a todo o custo.

    • Tu é que deves andar alucinado…
      Angola precisa é que aquela corja de ladrões do regime angolano (que roubam diariamente milhões o a povo angolano) desaparecem da face da terra!!

  2. Fico satisfeito com a decisão de Luaty de interromper a greve de fome e preservar a sua vida para futuros combates.
    O que já era evidente foi agora exposto com mais veemência ; o despotismo do governo angolano, onde impera a corrupção, o compadrio, o favorecimento pessoal, onde a justiça é letra morta e os tribunais são simples fantoches nas mão de uma nomeklatura poderosa e imoral.

  3. O povo angolano não precisa de mártires necessita urgentemente de manter a calma e lutar com inteligência, este foi mais um capítulo triste na história de Angola – o de um guerrilheiro da palavra que foi apanhado a conspirar um plano de caos no país e depois salvou-se com uma “greve de fome”. A luta não se faz de cobardes mas de gente forte e que leva suas convicções até ao fim.

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