Lisboa perde 60 mil habitantes em três anos. Estrangeiros substituem parte dos portugueses

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Patrícia De Melo Moreira / AFP

Não fosse a entrada de novos residentes, Lisboa teria perdido 10% da sua população. No Porto, o cenário não é muito distinto.

Cerca de 56 mil pessoas abandonaram Lisboa ao longo dos últimos três anos para se fixarem noutro município do país. Mais de metade tinha menos de 40 anos, sendo que a maioria trocou a capital pela periferia. Os dados, citados pelo jornal Expresso, constam dos Censos e foram enviados pelo Instituto Nacional de Estatística. A subida do preço das rendas e das casas terá sido um fator determinante, assim como a entrada de população estrangeira para substituir a nacional que saiu.

A mesma fonte aponta que, não fosse a entrada de novos residentes, Lisboa teria perdido 10% da sua população. No Porto, o cenário não é muito distinto. Nos últimos três anos, também cerca de 20 mil pessoas deixaram a cidade, o que equivale a 9% da população. Novamente, a maioria também é jovem e saiu para concelhos vizinhos.

Perante estes dados é possível afirmar que estamos perante uma mudança no perfil dos moradores, já que só os indivíduos com elevados rendimentos conseguem suportar as despesas inerentes à habitação. De acordo com o Expresso, o processo é particularmente visível na capital. “O processo de gentrificação está a provocar uma recomposição social do território”, descreveu Tiago Mota Saraiva, arquiteto e urbanista. “Corremos o risco de transformar Lisboa num resort caro para estrangeiros, em que os portugueses de menores rendimentos só entram como prestadores de serviços. É uma bomba-relógio.”

Jorge Malheiros, geógrafo e investigador no Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa, partilha da mesma opinião. “Há muitas estradas, mas são sobretudo de pessoas de maiores rendimentos, nomeadamente estrangeiros. Ou seja, a perda de população é mitigada à custa do agravamento da desigualdade e da transformação da cidade numa reserva habitacional dos mais privilegiados, criando uma injustiça cada vez maior no acesso ao espaço.

As mudanças para a periferia terão consequências ao nível da mobilidade e do ambiente, antecipam os especialistas. Até porque a maioria da população continua a trabalhar em Lisboa e no Porto. “O que está a acontecer é que estamos a afastá-las cada vez mais do seu local de trabalho, com graves danos ambientais e também com consequências terríveis para as suas vidas”, avisa Tiago Mota Saraiva.

Há ainda a considerar a relação entre a qualidade entre a rede de transportes de um local com os valores mais elevados dos imóveis nessa mesma área, o que resulta num afastamento para zonas onde as casas sejam mais baratas. “É precisamente essa figa que observamos nos Censos. Nas áreas metropolitanas, há centros urbanos bem servidos de transportes, mas também territórios pouco acessíveis, para onde muitas pessoas se veem obrigadas a mudar, com custos pessoais e profissionais“, aponta Rita Castel’ Branco, urbanista e especialista em mobilidade urbana.

“Essa mudança acarreta maior dependência automóvel, mais tempo em deslocações e menos qualidade de vida.”

  ZAP //

2 Comments

  1. Podia aproveitar-se essa saída de portugueses de Lisboa para reocupar o interior abandonado e envelhecido, promovendo, para começar, o teletrabalho, algo que foi quase que abandonado por muitas empresas por meras questões de mentalidade retrógrada.

    Outra medida que se poderia aplicar é sobre os imóveis habitáveis englobados em fundos de investimentos, na maioria dos casos, desabitados, o qual não pagam IMI perante a lei, o que é contraproducente, pois deveria pagar mais do que os imóveis habitados. Ou seja, imóveis desabitados deveriam pagar mais imposto, o que provocaria um aumento do mercado disponível e baixariam os preços.

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