“Lamentável que se fale em desconfinamento”. Peritos pedem “cautela” no levantamento de restrições

José Sena Goulão / Lusa

“Acho lamentável que se fale sequer em desconfinamento”. São as palavras de António Diniz, diretor do Hospital de Campanha de Lisboa, que defende que faltou liderança e planeamento no combate à pandemia.

Em entrevista ao semanário Expresso, António Diniz, diretor do Hospital de Campanha de Lisboa, considerou que, nesta terceira vaga, faltou planeamento e houve conceções erradas. “Quanto tempo levou a que se considerasse a utilização de máscaras? Puseram até um travão. Quando foi dito que os especialistas estavam divididos sobre o encerramento das escolas, só havia um, uma opinião irracional e sem fundamento”, referiu.

“O problema é que era necessário ter mantido a clareza, a coerência e a capacidade de antecipação, que definem um modelo de liderança. Os discursos não podem ser contraditórios. Estivemos sempre a reagir ao vírus e não a antecipar o que iria acontecer. É preferível tomar decisões agressivas e depois abrandar, do que ser gradual”, defendeu.

Em relação ao atual confinamento, o especialista considerou que “o confinamento é a última medida para tentar controlar uma situação epidémica. É necessário testar muito, com resultados em tempo útil e de forma periódica. E falta a vacinação, provavelmente a arma mais poderosa, que tem de ser muito transparente”, continuou.

António Diniz rejeitou que tenha havido “alarmismo” nesta terceira vaga. “Como é possível que se fale em alarmismo quando tínhamos 300 mortes por dia só de covid e filas de ambulâncias para aceder aos hospitais? Eu conheço profissionais de saúde que estiveram, com covid, seis horas à espera para entrar no hospital, ao frio, e regressaram a casa sem serem observados”, afirmou.

Apesar de defender que “o país não andar eternamente a confinar e desconfinar”, o perito disse achar “lamentável que se fale sequer em desconfinamento”. “Mostra que não se aprendeu nada com os erros”, rematou.

Desconfinamento deve ser por fases e sem precipitações

Em declarações ao Jornal Económico, o matemático Carlos Antunes, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e cujos cálculos são transmitidos a epidemiologistas que aconselham o Governo, o recolhimento domiciliário obrigatório foi essencial para diminuir o número de novas infeções e controlar a pandemia.

Segundo o especialista, o confinamento permitiu “uma forte diminuição e controlo da incidência” da covid-19. “Esta forte desaceleração iniciada entre 25 e 28 de janeiro permitiu reduzir o número de casos a metade em apenas 14 dias (de 12,4 mil para 6,2 mil casos), quando em março do ano passado o conseguimos em 22 dias (de 870 para 435 casos)”, indicou

O diretor clínico do maior hospital do país defendeu que o próximo desconfinamento deve ser feito por fases, com cautela e sem precipitações, porque há ainda muito para descobrir sobre o potencial de crescimento das novas variantes do coronavírus.

Em declarações à agência Lusa, Luís Pinheiro, diretor clínico do Hospital de Santa Maria, lembrou que quando se pensar em desconfinar tal deve acontecer: “de forma faseada, muito criteriosa e muito cautelosa, acima de tudo porque o vírus continua a existir, inclusive com variantes que ainda não conhecemos bem qual a sua repercussão e o seu potencial de crescimento”.

Caso contrário, defendeu, “tal como agora estamos a assistir a uma descida muito significativa dos casos”, se se reverter demasiado depressa as medidas atuais, também irão voltar a subir com a mesma velocidade”. “Isso é algo que nenhum de nós quer”.

Luís Pinheiro destacou a tendência, nos últimos dias, para a “estabilização na pressão de internamento, nomeadamente na enfermaria, também traduzível por uma menor necessidade de afluxo à urgência”. Contudo, alertou: “Não esperamos que essa mesma estabilização ou diminuição da pressão se manifeste já em termos de UCI [Unidades de Cuidados Intensivos]”.

Tem que ver com a evolução natural da doença, em que classicamente começam a controlar-se o número de casos, a seguir é que começa a haver estabilização nas necessidades de internamento e, no último momento, será de esperar que comece também a haver uma diminuição do número de óbitos”, explicou.

Maria Campos, ZAP // Lusa

 

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