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Pandemia, campanha anticomunista ou geringonça? As justificações para a derrota do PCP

Mário Cruz / Lusa

Jerónimo de Sousa

Pandemia, campanha anticomunista, geringonça ou outra coisa qualquer? O que justifica a hecatombe do PCP nas duas últimas eleições autárquicas?

A noite eleitoral foi um tombo para o PCP, que, além de não ter conseguido recuperar Almada, perdeu Loures, Montemor-o-Novo, Mora ou Alpiarça. O partido “ficou aquém dos objetivos” e foi o próprio Jerónimo de Sousa quem o admitiu. Estas autárquicas não foram felizes, mas o seu lugar enquanto secretário-geral não está à disposição.

O dirigente comunista João Oliveira considerou que os resultados eleitorais da CDU nas autárquicas são consequência de uma “prolongada e intensa campanha anticomunista” e da concentração da discussão em assuntos nacionais, em vez de locais.

Em comunicado, o membro da Comissão Política do Comité Central do PCP enalteceu que a “obtenção de mais de 450.000 votos, 9,1% do total nacional, a eleição de mais de 2.000 mandatos diretos, a que se somarão ainda umas centenas de outros, são a verdadeira dimensão do resultado da CDU”.

“Não iludindo a perda de sete municípios”, João Oliveira, que é também dirigente da bancada parlamentar comunista, sustentou que o “resultado da CDU é inseparável” de várias condicionantes, como, por exemplo, “os efeitos de uma prolongada e intensa campanha anticomunista”, para fragilizar a “reconhecida e distintiva seriedade dos eleitos” da coligação.

O dirigente do PCP acrescentou que houve uma “desfocagem alimentada ao longo de semanas da natureza e objetivos destas eleições, esbatendo o seu caráter local e a distinção nesse plano entre os vários programas eleitorais”, induzindo a uma “decisão em função de critérios de política nacional e procurando atribuir ao PCP e à CDU posicionamentos nesse plano que não tem”.

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, também já tinha criticado a falta de discussão sobre matérias locais durante a campanha autárquica, considerando que foi dominada pela “política espetáculo”.

Na nota divulgada, o líder parlamentar do PCP referiu que a pandemia e os condicionamentos associados prejudicaram o contacto típico da CDU com as populações, durante quase dois anos: “Um quadro em que estiveram suspensas, praticamente por dois anos, a vida e a atividade do movimento associativo, das organizações de reformados, da comunidade educativa e outras, com tudo o que isso induz de amputação de vivência coletiva”.

“Os milhares de mandatos obtidos pela CDU nos órgãos municipais e de freguesia corresponderão a uma decidida intervenção com que as populações podem contar. O apoio agora recolhido será integralmente posto ao serviço das populações”, finalizou.

Geringonça responsável pela hecatombe?

Desde que celebrou o acordo de governação com o PS, que ficou conhecido como geringonça, o PCP perdeu dez municípios há quatro anos e outros sete agora, escreve o semanário NOVO. Restam-lhe apenas 18 municípios (19, se se contar com Setúbal, agora nas mãos do PEV).

Antes de assinar o acordo com os socialistas, o partido de Jerónimo de Sousa tinha maioria em 34 câmaras municipais espalhadas por oito distritos.

O PCP perdeu Moita (Setúbal), Mora (Évora) e Montemor-o-Novo (Évora), que eram considerados autênticos “municípios vermelhos”. A derrota em Loures também é sintomática do panorama comunista, após ter controlado a câmara entre 1979 e 2001, tendo-a recuperado mais recentemente em 2013.

A derrocada do partido começou quando viabilizou o Executivo minoritário de António Costa. Segundo o semanário, nas autárquicas seguintes, dois anos mais tarde, o PCP perdeu dez câmaras, nove das quais para o PS.

Almada, Barreiro, Beja, Alandroal, Alcochete, Barrancos, Castro Verde, Constância e Moura saíram do controlo dos comunistas. Dos municípios perdidos, o PCP recuperou apenas Barrancos e Viana do Alentejo.

  Daniel Costa, ZAP // Lusa

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