Joana d’Arc: heroína injustiçada mudou o rumo da Guerra dos 100 Anos

Wikimedia

Joana d’Arc

Quando entrou na adolescência, Joana d’Arc já estava com o futuro traçado, pois a sua família já tinha escolhido um rapaz para se casar com ela. Contudo, o seu destino acabou por ser outro: teve um papel fundamental na política francesa, mas ainda assim acabou morta numa fogueira.

Casar não era exatamente o que a jovem rebelde de 17 anos tinha em mente. Filha de uma família modesta de camponeses, as vozes divinas que dizia ouvir desde os 13 anos tinham-lhe dado uma missão mais importante: expulsar os ingleses de França e permitir a coroação do legítimo herdeiro do trono – Carlos VII.

A sua profecia cumpriu-se. Em maio de 1429, depois de se apresentar ao futuro rei e o convencer a deixá-la partir para Orleães, a jovem conseguiu em apenas quatro dias suspender o cerco à cidade.

As suas consecutivas vitórias mudaram o rumo da Guerra dos 100 Anos, entre França e Inglaterra, e abriam caminho para a reunificação do país, tornando possível a coroação de Carlos VII em Reims – um acontecimento que estabeleceu o seu poder como soberano de França.

As conquistas e vitórias de Joana d’Arc aconteceram em poucos meses. Contudo, pouco tempo depois, “a donzela”, como era conhecida, foi raptada pela facção francesa que se opunha a Carlos VII. A camponesa foi vendida aos ingleses, julgada pela Igreja, condenada por heresia e acabou queimada na fogueira.

Mas como como conseguiu Joana desempenhar um papel tão decisivo na história de França, numa época em que ser mulher, analfabeta e camponesa eram fortes condicionantes?

Força inspiradora

Depois de a jovem alegar que ouvia vozes divinas, “durante o primeiro mês, teólogos examinaram-na para tentar perceber se as alegações de que era uma enviada de Deus eram verdadeiras”, explica à BBC Helen Castor, autora da aclamada biografia Joana D’Arc – A Surpreendente História da Heroína Que Comandou o Exército Francês. Também verificaram, segundo vários documentos históricos, se Joana era realmente virgem.

De acordo com a historiadora, “no segundo mês, enquanto a sua armadura estava a ser preparada, Joana recebeu formação para aprender a montar a cavalo e a usar armas no campo de batalha”. Porém, a autora recorda que os seus métodos nunca passaram pela violência, pois “em vez de um machado ou uma espada, carregava um estandarte”.

No entanto, o que acabou por ser fundamental para reverter a situação durante foi “a fé, o propósito, e a profunda convicção de que se esta liderasse as tropas contra os ingleses em Orleães, Deus estaria ao seu lado e os franceses ganhariam a batalha”.

Na época, França estava envolvida numa sangrenta guerra civil de anos entre os Armagnacs e os Borguinhões (duas fações da família real), ao mesmo tempo que enfrentava Inglaterra, que tinha interesses no trono francês.

Dividida e empobrecida, depois de ter perdido território e com um exército insuficiente e desmoralizado, França precisava de um “milagre” para sair da situação em que se encontrava. E era exatamente isso que a jovem de Domrémy oferecia.

“Joana andou de terra em terra e reuniu pequenos grupos a quem inspirou em tempos em que a França era uma verdadeira desordem”, afirma Linda Seidel, professora de História da Arte da Universidade de Chicago, nos EUA. A historiadora americana recorda que Joana “tinha bom senso e as pessoas acreditavam nela“.

As vozes divinas

Joana afirmou desde o início que suas ações eram ditadas pelas vozes que de São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida, que sempre ouviu ao longo da sua vida. Hoje em dia, esses detalhes criam algum ceticismo na história e vários autores sugerem que Joana sofria de esquizofrenia, epilepsia ou tuberculose bovina.

Mais de 500 anos após os acontecimentos, é quase impossível determinar se a jovem francesa realmente tinha algum problema mental. A BBC relembra que há registos que mostram que Joana era “forte física e psicologicamente e não parecia estar mal de saúde”.

Por outro lado, esse parecer acaba por não ser relevante, uma vez que, na época, era normal que muitas pessoas dissessem ter visões ou afirmassem receber mensagens de Deus.

“Houve grandes líderes espirituais mulheres, como Santa Teresa de Ávila na Itália, Santa Hildegarda de Bingen e várias mulheres místicas que ouviram vozes que as levaram ao triunfo e a ganhar a admiração do povo”, diz Seidel.

Seidel realça que o mais interessante é que um dos santos que inspiram Joana é Miguel, “um santo militar, que lidera o exército à vitória no fim dos tempos”.

Quando Joana foi levada a julgamento pela Igreja, o processo concentrou-se na origem das suas visões. Segundo os historiadores, não se tratava de entender se Joana tinha ouvido vozes ou não, mas sim de elucidar a sua procedência.

Queimada na fogueira

Apesar de ser respeitada e seguida pelo rei e pelos discípulos, Joana viu a sua sorte mudar drasticamente. Em maio de 1430 foi raptada por soldados franceses aliados de Inglaterra, vendida aos ingleses e condenada, sendo depois queimada na fogueira. “Todo o seu corpo se transformou em cinzas, não sobrou nada”, explica Seidel.

A execução de Joana d’Arc

A especialista frisa que “os ingleses não queriam que restasse nenhum sinal dela, nenhuma relíquia que pudesse ser recuperada e que pudesse inspirar um movimento religioso em seu nome”. Na altura, o Rei Carlos VII não conseguiu interceder de modo a proteger Joana. “O silêncio foi sua resposta”.

O rei limitou-se a escrever uma carta a comunicar que Joana tinha-se tornado muito arrogante, orgulhosa e havia deixado de ouvir o rei, por isso acabou por ser raptada e não contava mais com o apoio de Deus.

Depois da sua morte, demorou quase um quarto de século para que a atenção se centrasse novamente na sua história. Após vários anos, o julgamento foi revisto e anulado, e a heroína foi declarada inocente da acusação de heresia.

Vinte e cinco anos após a sua morte, França havia saído vitoriosa, o reino estava reunificado sob o comando de Carlos VII, as cortes floresciam e a arte e a poesia tinham recuperado os seus sinais vitais.

Ana Isabel Moura Ana Moura, ZAP //

PARTILHAR

6 COMENTÁRIOS

  1. “Houve grandes líderes espirituais mulheres, como Santa Teresa de Ávila na Itália (…)”
    Esta citação contém um erro: Santa Teresa de Ávila era espanhola, porque nasceu e viveu na cidade castelhana de Ávila, situada entre Salamanca e Madrid. Ainda hoje é possível visitar em Ávila o convento onde essa santa viveu grande parte da sua vida.

  2. “(…) um dos santos que inspiraM Joana é Miguel (…)“

    e não

    “(…) um dos santos que inspira Joana é Miguel (…)”

    A concordância faz-se com “os santos”, logo, “inspiram”!
    Atenção à língua portuguesa!
    Gosto muito do ZAP, mas já é a “n-ésima” vez que vos alerto para este erro!

RESPONDER

Tweet de Elon Musk afunda Bitcoins (e dá força à criptomoeda que nasceu como meme)

A Tesla vai deixar de aceitar Bitcoins como forma de pagamento. A revelação foi feita por Elon Musk numa publicação no Twitter e levou à queda do valor da criptomoeda no mercado. A par disso, …

Investigadores criam nova solução para óculos de realidade virtual e aumentada

Uma equipa de investigadores criou uma nova tecnologia para fornecer óculos de realidade virtual que não parecem "olhos de inseto". Num novo artigo publicado na Science Advances, os especialistas descrevem a impressão de ótica de forma …

Genética da população portuguesa pode explicar deficiência de vitamina D

Investigadores portugueses concluíram que a população portuguesa tem uma prevalência superior à média europeia de algumas alterações genéticas que levam a uma predisposição para o défice de vitamina D. Este estudo, coordenado pelo Centro Cardiovascular da …

Polónia quer comprar casa de campo francesa (para recuperar o legado de Marie Curie)

A Polónia quer comprar e renovar a casa de campo francesa de Marie Curie e transformá-la num museu, naquele que é um esforço para reivindicá-la como génio científico e pioneira polaca. Embora tenha nascido na Polónia, …

Min Nyo é jornalista, cobriu os protestos em Myanmar e foi condenado a 3 anos de prisão

Min Nyo, um jornalista birmanês de 51 anos, foi condenado a três anos de prisão pela sua cobertura dos protestos na sequência do golpe de Estado em Myanmar. Min Nyo, que trabalhava para a DVB (Voz …

McDonald's e Casa Branca unem-se para sensibilizar população a ser vacinada

Numa parceria com a Casa Branca, a cadeia de fast food norte-americana também está a dar o seu contributo para sensibilizar a população para a vacinação contra a covid-19. A ideia é promover informações relevantes sobre …

Voo "para lado nenhum" esgota em tempo recorde. Bastaram 2,5 minutos

A companhia aérea australiana Qantas vendeu os bilhetes para o próximo "voo para lugar nenhum" em tempo recorde: 2,5 minutos. A Qantas está a promover um novo "voo para lugar nenhum" que dará aos famintos por …

Todos queriam "O Senhor dos Anéis". Mas cinemas chineses foram obrigados a exibir filmes de propaganda

Pequim ordenou que os cinemas chineses divulgassem propaganda em homenagem ao Partido Comunista. Os cinéfilos do país, que clamam pelos filmes de Hollywood, revoltaram-se. A 1 de abril, no dia em que entrou em vigor um …

Presidente da República condecorou Jorge Coelho a título póstumo

Marcelo Rebelo de Sousa condecorou, a título póstumo, o antigo ministro e dirigente socialista Jorge Coelho com a grã-cruz da Ordem do Infante D. Henrique. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou esta quinta-feira, …

Comer caladas, autocarro sem parque, pavilhão sujo: assim foi uma final europeia

Episódios quase inacreditáveis rodearam a final feminina da Taça EHF. O diretor da equipa vencedora conta tudo o que aconteceu (e há muito para contar). O Rincón Fertilidad Málaga conquistou a Taça EHF feminina desta época. …