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Após 12 anos de Netanyahu no poder, Israel tem um novo primeiro-ministro

BrookingsInst / Flickr

Naftali Bennett, o novo primeiro-ministro de Israel

O Parlamento de Israel aprovou, este domingo, o Governo de coligação do novo primeiro-ministro Naftali Bennett, que sucede a Benjamin Netanyahu, que esteve no poder cerca de 12 anos.

Dos 119 deputados presentes, de um Parlamento de 120, 60 votaram a favor da nova coligação, que integra oito partidos que vão desde a direita à esquerda, incluindo o apoio de um partido árabe.

Cinquenta e nove deputados, a maioria do partido Likud, de Benjamin Netanyahu, e de partidos de extrema-direita e ultraortodoxos, opuseram-se a esta nova solução governativa para Israel.

O Parlamento israelita aprovou, assim, um voto de confiança no “Governo de mudança” liderado pelo líder da direita radical Naftali Bennett e pelo líder centrista Yair Lapid.

“O que está a acontecer aqui é basicamente democracia. (…) Um novo Governo a substituir o anterior, tal como deve ser”, disse Bennett, citado pelo jornal Público, tendo agradecido também a Netanyahu pelos seus anos “de serviço pelo país”.

Já o primeiro-ministro cessante afirmou que, “se Deus quiser”, vai derrubar o novo Governo, que considerou “perigoso e esquerdista”, “mais cedo do que imaginam”.

“We’ll be back soon” [“Voltaremos em breve”], atirou Netanyahu no final do discurso, em inglês, para que os inimigos o percebessem.

Bennett lidera a formação Yamina, que conseguiu apenas sete deputados nas legislativas de março, mas o acordo de rotação da coligação anti-Netanyahu para formação de um Governo determina que seja o primeiro a chefiar o Executivo, cedendo depois o cargo a Lapid (líder do Yesh Atid, o segundo mais votado, com 17 deputados), que será primeiro-ministro até 2025.

Isto menos de dois meses depois de ter prometido na televisão “não (…) deixar Lapid tornar-se primeiro-ministro” porque é “um homem de direita” e para si “os valores são importantes”.

Bennett anunciou, assim, que formaria um Governo com o seu “amigo”, porque a alternativa era forçar o país a mais eleições, as quintas legislativas em dois anos. “Ou podemos parar esta loucura”, adiantou.

“Não será pedido a alguém para desistir da sua ideologia, mas todos terão que adiar a realização de alguns dos seus sonhos”, disse a propósito da heterogénea coligação governamental. “Vamos concentrar-nos no que pode ser feito, em vez de discutir sobre o que é impossível”, adiantou.

Quem é Naftali Bennett

Filho de imigrantes norte-americanos, nascido a 25 de março de 1972, em Haifa, norte de Israel, Naftali Bennett serviu na unidade de elite das Forças de Defesa de Israel “Sayeret Matkal”, tal como Netanyahu, e depois foi para a Faculdade de Direito na Universidade Hebraica.

Na década de 2000 é uma das figuras destacadas da “nação das startup” com a sua empresa de cibersegurança Cyotta, que vendeu por 145 milhões de dólares (cerca de 119 milhões de euros) em 2005.

No ano seguinte dá o salto para a política, entrando para o partido Likud, no qual se torna o braço direito de Netanyahu.

Dois anos mais tarde, Bennett deixa o Likud para dirigir durante algum tempo o Conselho Yesha, a principal organização representante dos colonos israelitas na Cisjordânia, embora o milionário nunca tenha vivido num dos colonatos considerados ilegais pela lei internacional.

Em 2012, assume a liderança da formação Lar Judaico (sionismo religioso), que se junta depois a outros micro-partidos para formar a Yamina, e desde 2013 já ocupou cinco pastas ministeriais.

A última, a da Defesa em 2020, levou-o no auge da pandemia do novo coronavírus em Israel a organizar uma espetacular mobilização do Exército para gerir a crise.

Dado como politicamente morto há dois anos e apesar do fraco resultado nas últimas legislativas, Bennett conseguiu manobrar e tornar-se indispensável nas complexas negociações para formar uma coligação governamental.

Vai ser o primeiro chefe de Governo religioso na história do Estado hebreu, usando o quipá e respeitando com rigor o Shabat, o dia de descanso do judaísmo, ao sábado.

“A esquerda não faz compromissos fáceis, quando me concede (…) o papel de primeiro-ministro”, declarou no início das negociações, que construiu toda a sua carreira política seguindo a linha da direita dura e partidária do “Grande Israel”.

Foi com as suas musculosas declarações nacionalistas que Bennett conseguiu seduzir uma parte dos colonos. Exemplos: o conflito com os palestinianos não pode ser resolvido, tem de ser suportado como “um estilhaço nas nádegas”; não há ocupação israelita na Cisjordânia porque “nunca houve um Estado palestiniano”; os “terroristas devem ser mortos, não libertados”, a propósito dos prisioneiros palestinianos em Israel.

Ao Irão prometeu um “Vietname” se a República Islâmica continuasse, segundo ele, a implantação militar na vizinha Síria.

Mas o pai de quatro filhos e residente na próspera cidade de Raanana (centro), também destoa do meio da direita religiosa por não ter como prioridade a questão do lugar da religião no Estado e por personificar um certo liberalismo de valores, por exemplo nas questões LGBT.

Para Evan Gottesman, da organização judaica-norte-americana Israel Policy Forum, Naftali Bennett tem “uma imagem feita à medida para um público desesperado por um substituto legítimo para Netanyahu”.

  ZAP // Lusa

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