Israel quer usar ferramentas antiterrorismo para combater o coronavírus

World Economic Forum / Flickr

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu

Israel quer usar meios eletrónicos de contraterrorismo para rastrear os movimentos de pessoas que podem estar infetadas com o coronavírus, uma confluência de combate ao crime e saúde pública que se pode tornar comum, mesmo que suscite preocupações com a liberdade civil.

Segundo avançou o Washington Post, as autoridades israelitas não especificaram as técnicas que serão usadas, sugerindo que incluem a monitorização da localização de telemóveis dos cidadãos, presumivelmente sem o seu consentimento, bem como a inteligência eletrónica e análise de dados que o país dispõe para o combate ao terrorismo.

Benjamin Netanyahu, que anunciou a iniciativa na noite de sábado, reconheceu que o uso das ferramentas de vigilância digital pode violar a privacidade, afirmando, contudo, que é um preço aceitável para retardar a propagação do vírus.

“Somos um dos poucos países com essa capacidade e vamos usá-la. Devemos fazer tudo, como governo e como cidadãos, para não sermos infetados e não infetarmos os outros”, disse o primeiro-minsitro de Israel, país que registou 200 casos do vírus e nenhuma morte, e que já se mostrou disposto a tomar medidas abrangentes para evitar um surto maior.

Netanyahu anunciou o encerramento de restaurantes, bares e museus em todo o país por tempo indeterminado. Reuniões com mais de 10 pessoas são proibidas, num país que já tinha fechado as escolas até meados de abril e cujo governo não permite que cidadãos ou visitantes entrem no país sem uma quarentena de duas semanas.

Analistas acreditam que os sistemas de tecnologia de vigilância digital de Israel podem ser uma ferramenta de saúde eficaz, visto que a monitorização de pacientes com coronavírus e de terroristas é basicamente a mesma: verificação dos contactos.

“Nos dois casos, tenta-se rastrear a história para determinar quem esteve onde e quem conheceu quem”, disse Zak Doffman, proprietário de uma empresa de vigilância com sede em Londres, no Reino Unido, e colunista de segurança cibernética da Forbes. “Não posso imaginar que não haverá dezenas de países a pensar fazer a mesma coisa”, referiu.

De acordo com Doffman, a China, por exemplo, parece ter utilizado as suas ferramentas de vigilância em massa, incluindo o reconhecimento facial, para restringir o movimento em áreas atingidas. Já Taiwan usou os sistemas de geolocalização dos telemóveis para verificar se as pessoas estavam fora dos locais de quarentena.

No Irão, continuou o analista, o Ministério da Saúde teve que rejeitar uma aplicação de informações sobre o coronavírus, depois que se descobriu que o dispositivo incluía software de rastreamento.

Netanyahu informou que o governo pediu ao sistema judicial de Israel para pré-aprovar o redirecionamento da vigilância digital na luta pela saúde. O procurador-geral Avichai Mendelblit indicou que a medida é legal, dado o estado de emergência do país, e prometeu uma supervisão adequada.

Os defensores das liberdades civis condenaram o uso da vigilância digital na população civil. “Devemos sustentar que também temos um estado democrático para viver”, disse Merav Michaeli, membro do Partido Trabalhista do Knesset.

Também a Associação dos Direitos Civis de Israel disse que a medida é desnecessária e prejudicial. “De acordo com o que é conhecido até agora, as pessoas infetadas estão a cooperar com as autoridades na divulgação de todos os locais visitados”, disse Avner Pinchuk, advogado da associação.

“Mesmo se assumirmos que aqui e ali uma pessoa pode esquecer uma reunião ou um local específico, o benefício marginal obtido pelo rastreamento tecnológico de locais não justifica a violação grave do direito à privacidade”, acrescentou.

Simon Perry, ex-agente de inteligência da polícia, disse que as técnicas cibernéticas trazem tanto benefícios como perigos à luta contra o coronavírus em Israel.

“Essa é uma ferramenta muito eficaz para rastrear movimentos e interações entre pessoas”, disse Perry, agora professor do Centro de Pesquisa em Segurança Cibernética da Universidade Federmann. “Mas também dá um tremendo poder ao governo. Temos que ter certeza de que estamos numa situação em que isso é necessário”.

Como acontece em muitos países, Israel depende em grande parte de um sistema de honra para manter as pessoas em quarentena. Mas o governo está disposto a impor o isolamento, se necessário. No domingo, as autoridades indicaram que estão a considerar aplicar novas multas para aqueles que não obedecerem ao isolamento.

Entre os cancelamentos anunciados no fim de semana está o adiamento, para 24 de maio, do início do julgamento de Netanyahu, acusado de suborno, fraude e quebra de confiança. O processo devia começar na terça-feira, numa altura em que se tenta formar governo após uma terceira eleição inconclusiva no início do mês.

ZAP //

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