Com hospitais no limite, modelos computacionais podem ajudar a manter as portas abertas

Jean-Christophe Bott / EPA

Modelos computacionais podem ser aplicados para ajudar a fazer uma melhor gestão das camas disponíveis para o internamento de doentes infetados com o novo coronavírus.

A covid-19 está a causar pressão nos serviços de saúde em todo o mundo. Na semana passada, mais de 80% das camas de cuidados intensivos em Inglaterra estavam ocupadas, com avisos de hospitais a atingirem o seu limite nos próximos dias.

Em Portugal, a situação não é muito distinta. Vários hospitais do SNS atingiram o limite, ou estão prestes a atingir, devido ao aumento de internamentos de doentes covid. Lisboa e Vale do Tejo é a região do país mais afetada; na região Centro, os hospitais estão praticamente no limite; e os hospitais de Beja e Évora estão com ocupação plena nos Cuidados Intensivos.

Devido à natureza incerta da pandemia, é difícil prever com certeza quantas camas serão necessárias. Uma opção seria reduzir as admissões de pacientes não-covid, mas isso normalmente é uma alternativa de último recurso.

Diante de um aumento inesperado nos internamentos, os gerentes responsáveis pelo planeamento de camas hospitalares têm relativamente poucas alavancas à sua disposição. Infelizmente, eventos imprevistos, como a rápida disseminação de novas variantes, tornam mais fácil tomar decisões erradas.

É aqui que as equipas de modelação académica podem fornecer orientação prática e aconselhamento a nível hospitalar, nacional e local.

Em meados de março de 2020, novos casos confirmados de covid-19 no Reino Unido estavam a aumentar muito rapidamente. Londres parecia ser a mais atingida, mas a situação começava a tornar-se crítica também na Escócia, onde uma equipa de investigadores tem trabalhado com o serviço nacional de saúde escocês.

Os conselhos hospitalares estavam a ser fortemente aconselhados pelo governo escocês a reduzir substancialmente os internamentos de pacientes não-covid e as salas de cirurgia foram transformadas em salas com camas covid-19. Além disso, os pacientes internados por outros motivos, muitos deles idosos, tiveram alta assim que possível ou foram transferidos para lares.

No entanto, no final de março de 2020, os investigadores já previam que o pico de casos seria atingido nas duas primeiras semanas de abril. Em consequência, os planos para reduções adicionais em cuidados de saúde não-covid poderiam ser arquivados num estágio anterior do que seria possível de outra forma, e os gerentes hospitalares poderiam contemplar o futuro com maior confiança.

Como funcionam os modelos computacionais?

Os modelos computacionais que estimam a necessidade de camas hospitalares, seja em unidades de cuidados intensivos (UCI), unidades de cuidados continuados (UCC) ou enfermarias gerais, precisam de ter em consideração alguns fatores-chave.

Isso inclui o número de novas infeções, a proporção estimada de pessoas infetadas que requerem internamento hospitalar, o tempo de internamento provavelmente necessário e o número de camas já ocupadas, seja por pacientes com covid-19 ou por pessoas internadas por doenças não relacionadas.

Como a força total da pandemia de covid-19 começou a tornar-se nacionalmente aparente, uma questão chave era quantas camas de cuidados intensivos seriam necessárias localmente para o aumento iminente de pacientes infetados.

A equipa de investigadores colaborou, então, com o departamento de saúde pública e construiu um modelo que mostrava o impacto dos novos casos esperados de covid-19, com um perfil de idade detalhado, sobre o uso de camas de UCI, UCC e enfermarias gerais num horizonte de planeamento de seis a oito semanas.

O modelo resultante, publicado em novembro na revista científica Impact, forneceu aos executivos do National Health Service Lanarkshire (NHSL) uma ferramenta para prever as necessidades críticas durante a pandemia.

Um dos pontos fortes desta tecnologia foi a capacidade de incorporar dados locais detalhados – por exemplo, perfis de idade, distribuição de tempo de internamento, grupos de contágio locais – no quadro nacional.

A situação atual

Essencialmente, o mesmo cenário enfrentado em março de 2020 está a acontecer agora. Os casos de covid-19 aumentaram muito rapidamente durante o período de Natal e Ano Novo, à medida que a nova variante do coronavírus se estava a consolidar.

Como antes, surgiram questões urgentes sobre o quanto a atividade de saúde não-covid deveria ser reduzida. Novamente, os investigadores estão a inserir os dados de casos e perfis de idade mais recentes no modelo computacional para apoiar os gerentes hospitalares na tomada dessas decisões difíceis.

Já está a ficar claro que as atuais medidas de confinamento no Reino Unido estão a ter um efeito de amortecimento significativo sobre o crescimento de novos casos em Lanarkshire e noutros lugares.

E essa nova tendência de queda nos casos já se reflete nas últimas previsões dos investigadores, apresentadas na semana passada, para a ocupação de camas nas próximas seis semanas – que mostram uma redução substancial em comparação com as previsões de há apenas duas semanas.

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1 COMENTÁRIO

  1. Por cá, há por aí vários hospitais particulares e parece já não serem poucos e afinal o que faz o governo para que funcionem em paralelo com o SNS? O objetivo é curar doentes ou apenas negócio?

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