Guerra na Ucrânia não é como o “Capuchinho Vermelho”. Papa Francisco alerta para os interesses em jogo

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Mazur / Catholic Church England and Wales

Papa Francisco

O Papa Francisco diz que, em certa medida, a guerra na Ucrânia foi “provocada”, revelando que um chefe de Estado o alertou para esse cenário, por a NATO estar “a latir às portas da Rússia”, e referindo que há muitos interesses “em jogo”.

Numa entrevista à revista jesuíta italiana La Civiltà Cattolica, o Papa Francisco condena a “brutalidade e ferocidade” das tropas russas, mas sustenta que não se pode olhar para a guerra na Ucrânia com a simplicidade de quem vê o mal contra o bem.

O Sumo Pontífice frisa que temos que nos afastar do padrão de histórias como a do “Capuchino Vermelho”, onde “o Capuchinho Vermelho era bom e o lobo era mau”.

Aqui não há bons e maus em sentido abstracto”, mas antes “elementos muito entrelaçados”, considera o Papa na entrevista concedida no mês passado, mas só agora publicada.

Na transcrição das suas palavras que é feita no site da La Civiltà Cattolica, o Papa conta que, antes do início da guerra na Ucrânia, conheceu “um chefe de Estado, um homem sábio que fala pouco“, mas “realmente muito sábio”, que lhe “disse que estava muito preocupado com o andamento da NATO“.

O Papa refere que este chefe de estado o alertou de que andavam “a latir às portas da Rússia”. “E não entendem que os russos são imperiais e não permitem que nenhuma potência estrangeira se aproxime deles”, terá dito o mesmo chefe de estado, como nota o Papa, frisando ainda que esse “homem sábio” avisou que “a situação poderia levar à guerra”.

O que estamos a ver agora “é a brutalidade e ferocidade com que esta guerra é conduzida pelas tropas, geralmente mercenárias, usadas pelos russos”, algo “monstruoso”, segundo o Papa. Mas também é preciso olhar para “todo o drama que se está a desenrolar por trás dessa guerra, que talvez tenha sido, de alguma forma, provocada ou não evitada“, nota ainda.

Francisco menciona o “interesse em testar e em vender armas” e diz que “é muito triste, mas basicamente é isso que está em jogo”.

O Papa admite que estas palavras podem ser interpretadas como uma posição “a favor de Putin”, algo que refuta. “Seria simplista e errado dizer uma coisa dessas”, nota, frisando que é, “simplesmente, contra reduzir a complexidade à distinção entre o bem e o mal, sem pensar em raízes e interesses, que são muito complexos“.

“Enquanto vemos a ferocidade, a crueldade das tropas russas, não devemos esquecer os problemas para tentar resolvê-los”, diz.

“Estamos a viver a Terceira Guerra Mundial”

O Papa lembra que há outros conflitos em países mais distantes, “em algumas áreas de África, no norte da Nigéria, no norte do Congo”, “onde a guerra continua e ninguém se importa”. Recorda também o Ruanda “há 25 anos” e fala de Myanmar e dos rohingyas.

“O mundo está em guerra”, lamenta, notando que já há alguns anos lhe ocorreu que “estamos a viver a Terceira Guerra Mundial aos pedaços”.

Assim, considera que, na Ucrânia, estamos numa “situação de guerra mundial”, com “interesses globais, venda de armas e apropriação geopolítica” pelo meio.

E este é um momento que “nos deve fazer reflectir”, segundo o Papa. “O que está a acontecer com a humanidade que teve três guerras mundiais num século?”, questiona, salientando que é “uma calamidade” e que há “todo um comércio de armas por trás disso”.

“Ucrânia é especialista em escravidão e guerras”

O Papa Francisco nota ainda que “os russos pensaram que tudo terminaria numa semana”. “Mas calcularam mal”, pois “encontraram um povo corajoso, um povo que luta para sobreviver e que tem uma história de luta”, destaca.

“A Ucrânia é especialista em sofrer com a escravidão e guerras. É um país rico que sempre foi esquartejado pela vontade daqueles que queriam apoderar-se dele para explorá-lo”, diz ainda o Papa.

De certa forma, “é como se a história tivesse predisposto a Ucrânia para ser um país heróico” “e “ver esse heroísmo toca os nossos corações”, refere.

Francisco trata, assim, de fazer o elogio ao “heroísmo do povo ucraniano” que “não tem medo de lutar”. “Um povo trabalhador e ao mesmo tempo orgulhoso da sua terra”, nota.

O Papa lembra também que é preciso ver “o drama humano da guerra” para lá do “cálculo geopolítico” e de “estudar as coisas minuciosamente”. “Reflectir sobre isso ajudaria muito a humanidade e a Igreja”, destaca.

Papa quer encontrar-se com Patriarca Kirill

Nesta entrevista à La Civiltà Cattolica, o Papa revela ainda que espera encontrar-se com o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa Kirill em Setembro, num evento inter-religioso no Cazaquistão. Kirill é um aliado próximo de Putin e que apoia a guerra na Ucrânia.

O Papa e Kirill deveriam encontrar-se, neste mês, em Jerusalém, mas o encontro foi adiado devido à guerra, “para que o nosso diálogo não fosse mal interpretado“, salienta o Papa.

Francisco diz ainda à La Civiltà Cattolica que teve “uma conversa de 40 minutos com o Patriarca Kirill”, onde este lhe terá lido “uma declaração em que dava as razões para justificar a guerra“. “Irmão, não somos clérigos do Estado, somos pastores do povo”, terá respondido o Papa, segundo diz o próprio.

Note-se que Kirill repreendeu o Papa Francisco depois que este lhe ter pedido, através de uma entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, que não fosse o “menino do altar” do Kremlin.

  Susana Valente, ZAP //

9 Comments

  1. Raio …….o que é que deram a beber ao velhote !… A NATO é má , a Rússia é muito sabia e a Ucrânia brilla de coragem !…Quanto ao Papa virou Politiqueiro !

  2. Fala do que sabe E tem toda a razão no que diz.
    Gostariamos que o Coreia do Norte viesse montar armas nucleares junto à nossa fronteira?
    A Nato deve ter mais cuidado no que faz.

    • “Fala do que sabe”…
      Hahahahaaa… ele fala com seres imaginários!…
      Que armas nucleares montou a NATO, perto da Rússia, onde e quando??
      A Coreia do Norte faz fronteira com a Europa/Portugal??
      Enfim… a ignorância e a falta de noção dão esses comentários…

  3. Este também está a ficar senil…
    O Papa representa uma associação mafiosa (a maior do mundo!), cheia de telhados de vidros e com ideias dos tempos medievais e, em vez de tratar disso – pode começar pela pedofilia (onde a Igreja faz de conta que não se passa nada!), agora deu em comentador político!…

  4. O Papa como sul-americano subscreve a visão dos seus concidadãos do continente. Diaboliza a NATO e justifica a invasão russa transferindo para este país a ideia que foi provocado. Tretas, nesta guerra temos um país invasor, a Russia, o agressor e um país invadido e agredido, a Ucrânia. A posição do Papa faz-me lembrar aqueles maridos que batem nas mulheres e depois justificam-se que a culpa foi delas porque estava a pedi-las.

  5. O PAPA tem toda a razão no que diz
    Os Portugueses gostariam que o Coreia do Norte viesse para a fronteira de Portugal com o seu armamento nuclear

  6. Pretender atribuir como causa desta agressão a presença da NATO junto à fronteira da Rússia é uma falácia utilizada pelos apoiantes do totalitarismo putiniano, ou se quiserem, pelo neo-sovietismo oligárquico. Isso não passa de um pretexto pois a entrada da Ucrânia na NATO seria um processo difícil de se concretizar. A invasão da Ucrânia faz parte de um programa de expansão da Rússia neo-soviética muito semelhante ao ocorrido no período da 2ª GG com a Alemanha Nazi e que já se iniciara com a Chechénia e Geórgia e vai ter continuidade nos próximos anos com os países bálticos, a Finlândia e a Polónia, velhas ambições do imperialismo Russo recriadas agora pelo antigo espião do KGB.

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