“São Picassos e Rembrandts modernos”. Guardar a pele tatuada é a nova tendência de luto

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Save My Ink Forever

Tatuagem recuperada pela Save My Ink Forever.

Depois de joias com cinzas e cabelo das pessoas, guardar a pele tatuada de entes queridos mortos é a nova tendência nos Estados Unidos.

Lidar com a morte de um ente querido é sempre uma altura conturbada na vida de todos. A forma de honrar a memória dessa pessoa é tipicamente feita através de um funeral e da decoração da campa com flores. No entanto, há maneiras mais originais de fazê-lo.

A Save My Ink Forever é um serviço de tatuagem que transforma tinta recuperada dos corpos de entes queridos falecidos em autênticas peças de arte.

“A nossa missão é ajudar a continuar a história de um ente querido. Esperamos garantir que o espírito e o legado dos seus entes queridos possam viver nas próximas gerações”, lê-se no site da Save My Ink Forever “Criamos mais do que apenas uma imagem. Você recebe a tatuagem real, que se torna uma obra de arte emoldurada”.

O processo proprietário único desenvolvido pela empresa norte-americana altera permanentemente a estrutura química da pele de uma forma que preserva a tinta e evita a sua decomposição.

A empresa trabalha com funerárias privadas em 21 estados dos EUA e já se expandiu para o Canadá e o Reino Unido.

“Esta é a sua cerimónia funerária”, disse Kyle Sherwood, preservador de tatuagens e COO da Save My Ink Forever, em declarações à VICE. “Isto significa mais para eles do que uma missa na igreja”.

O processo de remoção e preservação da tatuagem está longe de ser simples, podendo demorar até três meses. Os clientes começam por indicar a área onde a tatuagem está localizada e o seu aspeto. Depois, um agente funerário licenciado retira o tecido ao redor da tatuagem e envia-o para o laboratório da Save My Ink Forever.

“A gratidão das famílias quando recebem a peça e ficam tipo ‘Oh meu Deus, eu sinto que eles estão aqui, eu vi esta tatuagem todos os dias e agora eu tenho um pedaço dessa pessoa comigo,'”, detalha Sherwood.

“As pessoas pegam em cinzas e transformam-nas em diamantes. Na era vitoriana, cortavam cabelos e faziam colares. Isto não é diferente”, atirou.

Sherwood refere-se à Eterneva, a empresa norte-americana que transforma cinzas ou cabelo de entes queridos — e animais de estimação — em diamantes, que podem ser colocados em anéis ou colares.

Embora possa parecer algo bizarro para muitos, a verdade é que a empresa tem tido relativo sucesso nos Estados Unidos. A Eterneva começou a ganhar popularidade quando foi ao programa televisivo “Shark Tank”, onde empresas procuram o investimento de magnatas em troca de uma percentagem do negócio.

A Save My Ink Forever espera conseguir atingir um sucesso semelhante. A expansão para Canadá e Reino Unido é exemplo de que caminha nessa direção. No entanto, a empresa ainda lida com algumas barreiras legais.

Não há leis nos EUA que permitam expressamente que um agente funerário corte um pedaço de pele de uma pessoa e envie-o para uma empresa para que seja preservado.

Todavia, muitos estados têm as chamadas “leis de abuso de cadáveres” que proíbem o tratamento de restos mortais de uma maneira que o tribunal considera “desrespeitosa”.

O consultor jurídico da empresa, Don Ferfolia, diz que a escusa de responsabilidade que as famílias assinam absolve o agente funerário e a Save My Ink Forever de qualquer problema.

“Nós temos padrões de qualidade”, disse Sherwood, garantido que “tudo é tratado de maneira digna”.

“Alguns desses artistas [tatuadores] são Picassos e Rembrandts modernos que simplesmente não recebem o crédito que merecem porque são tinta e pele em vez de tinta e tela”, realçou o COO da Save My Ink Forever.

  Daniel Costa, ZAP //

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