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A Internet vai implodir em breve? Vamos deixar de acreditar nela?

O que vai acontecer à Internet com o crescente uso de deepfakes? Vai deixar de ser uma fonte de informação fiável? Do “dividendo do mentiroso” à implosão da “autoestrada da informação”, eis algumas teorias.

“É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que foram enganadas”.

Ironicamente, até esta mítica frase atribuída a Mark Twain tem origens possivelmente enganosas: não há provas de que foi o autor quem a escreveu. Quando a Internet apareceu, dizia-se que ia ser uma “super autoestrada da informação”, e assim foi. Hoje, há quem diga que o asfalto segue em direção a um beco sem saída de desinformação.

Há 10 anos (ou menos), nunca pensaríamos estar aqui, perante o possível colapso da própria verdade. Num piscar de olhos, os deepfakes estão em todo o lado: nunca foi tão fácil criar imagens de alta qualidade, som e vídeo tão convincentes, tão “reais”. Muitos destes conteúdos, já não conseguimos dizer se são reais ou não. O “ver para crer” está a perder-se na Inteligência Artificial.

Em Portugal, um em cada três portugueses contacta diariamente com informações falsas ou incorretas e 81% admitem sentir-se preocupados com a sua capacidade de identificar conteúdos verdadeiros na Internet. Guerras (37%), a política (28%), economia e custo de vida (19%) e imigração (17%) são os temas onde notam mais desinformação, segundo o relatório “Vamos falar sobre Desinformação”, da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), divulgado esta terça-feira, que conclui que uma notícia falsa pode espalhar-se até seis vezes mais rapidamente do que uma verdadeira.

O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy a pedir ao seu exército parar de lutar e a dizer que a Ucrânia se rendeu, logo no início da invasão russa, foi um dos primeiros exemplos de deepfake de guerra que assustou o mundo. E fintando casos como o fim do fact-checking em redes sociais gigantes como o Facebook, para refletir sobre o mais recente exemplo polémico: as imagens ao estilo Ghibli, agora ao alcance de qualquer um de nós com uma subscrição no ChatGPT. Quem começasse a ver anime hoje, acreditaria que Hayao Miyazaki, num exemplo de dedicação e trabalho artístico árduo, demorou um ano e meio a desenhar esta cena de movimento de uma multidão, que no ecrã, para os nossos olhos, dura apenas quatro segundos?

E no que toca a deepfakes, a IA ainda vai aperfeiçoar mais as suas falsificações. Como vamos conseguir verificar se o que estamos a ver, ouvir ou ler é real? Se é verídico, num mundo em que o jornalismo, que deve estar cada vez mais atento, já não é o único a informar o mundo?

Com cada vez mais conteúdo e informações falsos, inclusive partilhadas por líderes políticos mundiais, vamos deixar de acreditar plenamente no que vemos em ecrãs? As redes sociais vão tornar-se obsoletas no fornecimento de informação?

Do “dividendo do mentiroso” ao fim desta Internet

Pensando mais à frente, há quem descreva um futuro em que as pessoas vão  negar provas verdadeiras com cada vez mais frequência, alegando que o que está perante nós é um deepfake — e vice-versa. É o “dividendo do mentiroso”, descrito por investigadores como os professores de direito Danielle Citron e Robert Chesney. Veremos acontecimentos reais serem considerados falsos — e acontecimentos falsos serem considerados reais.

Outros especialistas colocam a hipótese de a Internet do futuro ser dividida em zonas “fiáveis” e “não fiáveis”, com ecossistemas muito isolados de comunicação verificada, enquanto o resto da Internet passará a ser vista como “forasteira”, “misfit“, um poço de desinformação. Teríamos uma Internet fragmentada, “bombardeada” com tecnologia de proteção e blockchains para autenticar conteúdos digitais.

Há quem vá mais longe. O astrofísico e comunicador científico Neil deGrasse Tyson prevê “uma Internet em que os deepfakes são tão bons que mesmo as pessoas que acreditavam que as notícias falsas eram reais deixarão de acreditar nelas, porque pensarão que são falsas”.

“O dia em que isso acontecer representará uma implosão da integridade da informação de toda a Internet“, disse à conversa com Peter H. Diamandis: a Internet “deixará de ser uma fonte de informação objetiva”. Esse cenário será “o fundo do poço” para a Internet, reforçou noutro podcast. “a informação objetiva na Internet deixará de ter valor, porque ninguém sabe qual é a informação objetiva”.

Estaríamos perante uma nova era de adaptação, como a que vivemos hoje. Talvez, sob a forma de retrocesso. “Vamos voltar aos livros e a falar fisicamente com as pessoas”, antevê o astrofísico — um cenário que aponta como possível já nos próximos 5 anos.

Outros especialistas, mais otimistas, garantem que a Internet não vai acabar, mas vai tornar-se cada vez mais difícil de utilizar, e que vamos todos precisar de ajuda para saber o que é real. Sugerem por exemplo o combate de conteúdos falsos gerados por IA com… IA, num jogo constante de gato a perseguir rato.

A educação para a literacia mediática poderá vir a ser uma disciplina obrigatória na escola? Instituições de confiança, como museus, ONGs ou as universidades, vão voltar a ser fontes de informação primárias, em vez de canalizarem informação através de grandes empresas de media?

Mas se deixarmos de acreditar na Internet, talvez a IA venha a perder o seu poder de induzir em erro, e os criadores de informações falsas parem de o fazer, pelo menos desta forma. Talvez esse ceticismo aumente o escrutínio por parte do leitor. Mas há também quem diga que as pessoas acreditam naquilo que querem acreditar, ouvem o que querem ouvir e veem o que querem ver.

Tomás Guimarães, ZAP //

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