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“Admite-se funcionário” – mas ninguém aparece. Restaurantes precisam de criatividade e de imigrantes

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Escassez de profissionais na restauração e similares e no alojamento turístico. AHRESP apresentou 9 conclusões sobre este “cenário negro”.

Entramos num restaurante em Matosinhos e reparamos que, logo à entrada, há um papel a anunciar que é preciso mais um funcionário ou funcionária.

Mas isto não estava aqui na visita anterior, já há algum tempo? Já nem sei há quanto tempo aquele papel está ali. Mas ninguém aparece. Ninguém quer trabalhar”, responde o gerente.

A 100 quilómetros de distância, em Vila Real, um papel igual. “Estou aqui sozinha nas mesas mas tenho aquele anúncio há dois anos. Ou não aparecem, ou aparecem e, logo ao segundo dia, desistem; nunca mais vêm trabalhar e não dizem nada. Preferem viver do rendimento mínimo”, lamenta a proprietária.

Foram dois relatos recentes recolhidos pelo ZAP, já neste Verão, mas que se prolongam – quer na cronologia, quer na geografia. Há muito tempo que faltam profissionais na restauração em Portugal e em praticamente todo o país há cenários semelhantes a estes dois.

Contactámos a AHRESP – Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal sobre este assunto, que reforçou a ideia de que este é um “tema recorrente” e admitiu que “há muito preocupa” a entidade.

Segundo dados da associação, no ano passado havia menos 60 mil trabalhadores de restauração e similares registados no canal oficial, em relação a 2019.

A AHRESP remeteu o seu comentário para as nove conclusões que saíram da conferência de Abril deste ano, no Porto, sobre o mercado de trabalho.

Para combater este “cenário negro”, o primeiro ponto passa por uma maior criatividade: as empresas de turismo e restauração devem “procurar empreender estratégias criativas para atrair e reter profissionais, que devem ir para além da retribuição e que podem passar por sistemas de avaliação, práticas de reconhecimento, garantias de progressão na carreira e a uma melhor conciliação entre vida profissional e vida familiar”.

O salário deve reflectir, não só o desempenho individual, mas também o colectivo. Deverão ser reduzidos os encargos fiscais, sobretudo os que estão directamente relacionados com o trabalho.

O tempo de trabalho deve ser alvo de uma gestão e de uma organização mais adequadas. A profissão deve ser mais dignificada e valorizada, passando por uma nova designação das categorias profissionais e por uma adequação dos seus conteúdos funcionais.

No caso do turismo, é “urgente” uma aposta séria e estruturada na qualificação dos trabalhadores. Nas categorias onde faltam mais profissionais, deve ser implementado um programa de formação de início de carreira, de curta duração.

A solução passa também por contratar imigrantes. Para fechar, sugeriu-se a elaboração de um “livro verde” sobre as carências nestes sectores.

  Nuno Teixeira da Silva, ZAP //

6 Comments

  1. É tudo uma questão de números: por 750 não há ninguém. Por 1500 já apareceriam alguns… Por 3000 até eu vou!

    • Será que o restaurante consegue pagar salários de 3.000€ É que, depois de pagar os fornecedores, impostos, energia, renda, etc, o que é que fica?

      Será que os clientes vão querer pagar mais, para que o restaurante lhe possa pagar 3.000€?

      Vamos começar a tratar os bois pelos nomes; enquanto a carga fiscal não reduzir, tanto a directa, como a indirecta, será sempre muito difícil conseguir pagar melhores salários, mas é sempre mais fácil dizer que o patrão não quer pagar mais…

        • Neste momento, chegámos a um extremo tal, que para termos “qualidade de vida” em Portugal, é quase preciso ser milionário. O que se paga por um restaurante ou por qualquer serviço ligado ao turismo é uma verdadeira loucura e só os turistas conseguem aguentar.

          Passámos de um extremo ao outro e se Portugal era conhecido como um destino barato, neste momento temos preços de país rico. Lisboa e Algarve são verdadeiros exemplos da vida que os Portugueses não conseguem fazer no seu dia a dia.

  2. Os médicos não querem trabalhar no serviço público, apesar de receberem, salário médio, cerca de 2000 euros líquidos, não contabilizando as horas extra, que podem chegar aos 90 euros/hora. Estamos a falar de um serviço essencial, mas nem isso convence os médicos a trabalhar no serviço público, apesar do juramento de Hipócrates, privilegiam os seus interesses e não o acesso à saúde por todos. Alegam que não faltam médicos, a Ordem dos médicos diz mesmo, que o que falta são condições… A restauração não é um serviço imprescindível, razão pela qual foi encerrado durante a pandemia. Se os médicos podem alegar que não faltam médicos, mas sim condições, muito mais legitimidade tem, os funcionários da restauração, para exigirem melhores condições, pois os seus salários são efectivamente baixos e não há qualquer questão ética associada.
    A lei da oferta e da procura é que define os salários, os patrões da restauração querem imigrantes para manterem os seus lucros, continuando a pagar salários miseráveis, manipulando a lei a seu bel-prazer. A Ordem dos médicos, qual governo sombra, estabeleceu um controlo que lhe permite gerir a oferta de modo a manter o padrão salarial e a valorização crescente dos salários, os restantes sectores devem fazer o mesmo, impedir a formação e a imigração, como faz a Ordem, pois é a única forma de conseguirem condições dignas, infelizmente. O governo, como sempre, é fraco com os fortes e forte com os fracos, por isso a Ordem governa e os restantes são (des)governados…

  3. Um bom trabalho jornalístico deveria explanar que salários oferecem aos potenciais interessados e por quantas horas de trabalho. Só isso bastava para percebermos porque não há interessados em trabalhar nestes locais.

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