A falhar pagamentos e com 260 mil milhões de dívida – como é que a Evergrande chegou até aqui?

Noel Celis / AFP

A situação da imobiliária chinesa Evergrande, que tem uma dívida maior do que a economia portuguesa, está a deixar o mundo ansioso sobre uma eventual repetição da história da crise de 2008, que começou com a queda do grupo Lehman Brothers.

Já há vários dias que se temia este desfecho, que acabou mesmo por se confirmar. A gigante imobiliária chinesa Evergrande falhou o pagamento dos juros de um dos seus títulos de dívida no prazo previsto, o que está a agitar ainda mais os mercados.

Acabava na quinta-feira o prazo para pagar 83,4 milhões de dólares, cerca de 71 milhões de euros, de juros de uma dívida contraída pela empresa no valor de dois mil milhões de dólares, mas a empresa não conseguiu honrar o compromisso.

O presidente do grupo, Xu Jiayin, sublinhou na quarta-feira à noite que o grupo deve “fazer todo o possível para honrar” os seus compromissos.

Contrair empréstimos para se continuar a construir foi uma práctica recorrente das imobiliárias chinesas, que surfaram na crista da onda do crédito quase ilimitado concedido por investidores que queriam aproveitar o “milagre económico chinês”, que tem sido o principal motor do crescimento mundial, e pela banca do país.

Mas o mercado está a dar sinais de saturação, com estimativas a apontar para que hajam 65 milhões de casas vazias na China. Vários blocos de apartamentos têm inclusivamente sido demolidos por estarem desocupados ou inacabados e de acordo com os cálculos da consultora Rhodium Group, os três mil milhões de metros quadrados de habitações por vender dariam para alojar 90 milhões de pessoas.

Os ciclos de acumular dívidas para pagar outras dívidas começou a preocupar as autoridades chinesas, que impuseram no ano passado três novas regras para controlar o endividamento descontrolado: os passivos das empresas não podem ser mais que 70% dos activos, o rácio da dívida líquida sobre o capital tem de ficar abaixo de 100% e o rácio de liquidez sobre a dívida de curto prazo tem de superar os 100%.

A Evergrande não cumpre nenhuma das três regras e não pode contrair mais empréstimos. Juntando-se isto à redução dos preços imobiliários e falta de vendas, a bolha de crescimento rebentou e a empresa está em muitos apuros.

Nas próximas semanas, a gigante imobiliária tem ainda mais juros e amortizações de dívida para pagar, mas espera-se que haja mais incumprimentos, especialmente no pagamento a investidores estrangeiros, o que tem deixado os mercados agitados. Espera-se que a Evergrande entre numa situação de default, ou seja, quando já tem um atraso no pagamento de mais de 30 dias.

Recorde-se que a empresa tem uma dívida de 260 mil milhões de euros, um valor maior do que toda a riqueza em Portugal, emprega 200 mil pessoas e é responsável por 3,8 milhões de empregos indirectos.

A Evergrande tem mais de 1300 projetos em 280 cidades em toda a China. De momento, as autoridades chinesas não responderam publicamente às preocupações, mas o banco central tem injectado mais dinheiro numa tentativa de estabilizar o sector financeiro.

O sector imobiliário representa também 29% do PIB da China, segundo os cálculos do economista Kenneth Rogoff, um número muito acima da outras grandes economias do mundo, pelo que a estagnação nas vendas não traz bons agoiros para a economia chinesa.

Entre 2000 e 2009, a economia da China cresceu a um ritmo anual superior a 10%. Entre 2010 e 2019, abrandou um pouco, mas mesmo assim conseguiu assegurar um crescimento médio anual de 7,7%.

O país foi também o principal motor do crescimento mundial, segundo o FMI, tendo sido responsável entre 2013 e 2018 por 28% da variação do PIB mundial.

Dada a influência do gigante asiático na economia mundial, o receio de uma crise na China mexeu com a cotação do petróleo e levou a que Wall Street fechasse segunda-feira com uma das piores sessões do ano. Vários bancos chineses estão também a divulgar a sua exposição à dívida da empresa numa tentativa de acalmar os mercados.

Uma eventual insolvência da Evergrande tem também feito soar alarmes e receios de que possa desencadear uma crise como a de 2008, que começou quando o grupo Lehman Brothers sucumbiu aos créditos imobiliários sem qualidade, os designados “subprime”, seguindo-se um efeito dominó a nível mundial.

Pode a insolvência da Evergrande desencadear uma crise económica como a de 2008?

Apesar da agitação dos mercados, muitos analistas acreditam que a situação da Evergrande não vai atingir as proporções alcançadas em 2008 e que o governo chinês vai intervir.

Para o analista do Landesbank Baden-Württemberg Karl Haeling “o risco de contágio só existe se as autoridades chinesas deixarem a Evergrande cair totalmente na falência, mas isto não faz sentido para a China, dado os problemas internos e os cortes de emprego que isso ia causar”.

Mattie Bekink, diretora de Informação Corporativa da revista “The Economist” para a China, partilha da mesma opinião, esperando que o governo intervenha e que não permita “que o incumprimento da empresa se espalhe pelo sistema bancário”. “Os impactos de um grande calote da Evergrande seriam notáveis”, avisa.

Já os especialistas do Société Général acreditam que a crise da Evergrande “pode infligir danos duradouros às condições de crédito e à atividade económica chinesa”, e que a falta da honra aos compromissos financeiros “provavelmente contribuirá para a desaceleração económica em curso na China, que ancora o crescimento global e a inflação e prejudica os preços dos bens de consumo”.

Já a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, tentou acalmar os ânimos, afirmando que “na Europa e na área do euro em particular, a exposição directa seria limitada”. “No momento, o que estamos a ver é um impacto e uma exposição centrados na China”, acrescentou Lagarde.

A Casa Branca também está, por enquanto, tranquila. “Trata-se de uma empresa chinesa, cujas actividades estão sobretudo concentradas na China“, realçou a porta-voz Jen Psaki. “Dito isto, acompanhamos sempre os mercados mundiais, incluindo a avaliação de todos os riscos para a economia dos EUA e estamos prontos a reagir de maneira apropriada, se necessária”, acrescentou.

  Adriana Peixoto, ZAP //

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6 COMENTÁRIOS

  1. overproduction
    Toda gente sabe que existem na China inteiras cidades fantasma.
    É para mostrar progresso.
    Mas primeiro mandaram o inglês embora

  2. Dar o passo maior do que a perna dá nisto! Por cá também acontece o mesmo, por isso estamos nós a pagar as más gestões de certos empresários e banqueiros!

    • Por acaso o último caso parecido aconteceu nos EUA com uma “empresa” que, no dia anterior à falência, tinha triple A (nota máxima) das agências de rating!…

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