/

Exilados chechenos estão a ser perseguidos (e o rasto dos assassinos leva sempre à Rússia)

EPA

Exilados chechenos críticos do protegido do presidente russo Vladimir Putin, o líder checheno Ramzan Kadyrov, ou veteranos rebeldes chechenos que lutaram pela independência estão a ser perseguidos há vários anos. O rasto dos assassinos leva sempre à Rússia.

A mais recente vítima, Mamikhan Umarov, de 43 anos, que publicou críticas frequentes ao líder da Chechénia Kamzan Kadyrov no YouTube, foi morta a tiro em frente a um centro comercial na cidade austríaca de Gerasdorf, a norte de Viena, no sábado passado. Um russo de 47 anos fugiu de carro, foi rastreado por um helicóptero da polícia e foi preso a cerca de 160 quilómetros do local do crime. Uma segunda pessoa também foi presa.

De acordo com o jornal norte-americano The Washington Post, este assassinato não é um caso isolado: segue uma longa série de assassinatos e ataques a exilados chechenos na Europa, Turquia e Médio Oriente desde 2004, quando um ex-líder interino da Chechénia, Zelimkhan Yandarbiyev, foi assassinado num ataque de carro-bomba em Doha, capital do Catar.

Em janeiro de 2009, um dos ex-guarda-costas de Kadyrov, Umar Israilov, foi morto em plena luz do dia em Viena, na Áustria.

Alguns dos ataques, incluindo assassinatos de ex-combatentes rebeldes chechenos, foram vinculados a agências de segurança russas. Outros têm como alvo jornalistas exilados e críticos de Kadyrov, acusado por defensores dos direitos humanos de abusos contra oponentes políticos, ativistas e pessoas LGBT.

O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, deu a Kadyrov mão livre para fazer o que considerasse necessário para estabilizar a Chechénia, onde rebeldes travaram duas campanhas de independência contra Moscovo nos anos 90 e início dos anos 2000.

Os assassinatos de chechenos exilados parecem fazer parte de um padrão mais amplo de ataques em países estrangeiros, como o envenenamento do ex-oficial de inteligência militar russo Sergei Skripal e a sua filha Yulia com um agente nervoso Novichok em 2018 e o fatal envenenamento de outro ex-espião russo, Alexander Litvinenko, usando um agente radioativo, polónio-210 em 2006.

Em junho, a Alemanha acusou a Rússia do assassinato de um ex-comandante checheno, Zelimkhan Khangoshvili, de 40 anos, no parque Kleiner Tiergarten em Berlim no ano passado. O assassino, que andava de bicicleta, deu vários tiros na cabeça de Khangoshvili, cidadão da Geórgia.

Uma unidade de investigação online, Bellingcat, informou que uma unidade secreta no Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB), uma agência sucessora da KGB, executou o assassinato de Khangoshvili. O assassino foi identificado como um russo de 54 anos. O assassinato foi organizado pelo Departamento V. da unidade especial de contraterrorismo do FSB.

Bellingcat relatou que um segundo agente russo estava envolvido no assassinato de Berlim e vinculou essa pessoa a um grupo de agentes do FSB que se acredita serem responsáveis pela morte de outro checheno em Istambul em 2015.

Abdulvakhid Edilgeriev, um militante ligado à rebelião chechena contra Moscovo, estava no seu carro com a sobrinha de quatro anos quando outro carro lhe bateu com força. O homem fugiu, mas foi perseguido, fuzilado e esfaqueado na rua. A Turquia prendeu dois suspeitos russos – Yuri Anisimov e Alexander Smirnov.

De acordo com a Fundação Jameston, pelo menos sete outro chechenos form assassinados na Turquia entre 2003 e 2013. Vários outros sobreviveram a tentativas de assassinato.

Em outubro de 2017, a ex-combatente chechena Amina Okuyeva, de 34 anos, foi morta quando homens armados a emboscaram no seu carro perto de uma passagem ferroviária fora da capital ucraniana, Kiev.  As autoridades ucranianas disseram suspeitar que agentes russos ou assassinos pró-Kremlin da Chechénia tenham realizado o ataque.

No mês anterior, um carro-bomba no centro de Kiev matou Ali Timayev, um combatente checheno com cidadania georgiana.

Nos últimos meses, vários chechenos foram atacados na Europa. Um crítico de Kadyrov, o imigrante checheno Imran Aliyev, foi encontrado morto com mais de 130 facadas no hotel Coq Hardi, em França, em janeiro. As autoridades francesas disseram que um suspeito partiu para a Rússia no dia seguinte.

Semanas depois, na cidade de Gavle, na Suécia, um homem com um martelo tentou matar outro crítico de Kadyrov, Tumso Abdurakhmanov, cujo canal no YouTube tem mais de 350 mil subscritores. Abdurakhmanov culpou Kadyrov pelo assassinato de Lille. As autoridades suecas detiveram Ruslan Mamaev, um russo de 29 anos, e uma russa de 30 anos, considerada cúmplice.

Antes do assassinato de sábado, Abdurakhmanov chamou a atenção para o que chamou de abusos cometidos pelas autoridades chechenas contra a família de Umarov, o crítico checheno que foi morto a tiro em Viena.

Algumas das vítimas de assassinato da Chechénia são procuradas pelo FSB da Rússia há anos. Segundo Bellingcat, em 2012, o FSB partilhou com a inteligência alemã uma lista de procurados, incluindo 19 chechenos, cinco dos quais foram assassinados.

A Chechénia é uma república russa predominantemente muçulmana no norte do Cáucaso. Duas guerras na década de 1990 desencadearam uma onda de emigração, com muitos chechenos a fugir para a Europa Ocidental. Mais chechenos fugiram nos últimos anos por causa de desacordos com o pró-Kremlin Kadyrov, a quem os ativistas de direitos humanos acusam de repetidas violações de direitos.

  ZAP //

Deixe o seu comentário

Your email address will not be published.