EUA têm o dobro dos homicídios da Síria (mas um terço da Rússia)

Nos Estados Unidos (EUA) ocorrem, anualmente, cerca de cinco assassinatos por cada 100 mil habitantes, mais do dobro dos homicídios na Síria. Este número, contudo, representa apenas um terço das vítimas registadas na Rússia.

A conclusão foi divulgada pelo WorldAtlas, em janeiro de 2018, que recorreu a dados do United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC) para identificar de que forma determinados fatores influenciam a taxa de homicídios, que tem aumentado em alguns locais do mundo.

Com base nessa informação, o site criou uma tabela com a taxa de mortes por homicídio em 198 países, e a listagem traz alguns resultados surpreendentes.



Portugal, considerado o 4.º país mais pacífico do mundo no relatório do Índice Global da Paz, desenvolvido pelo Institute for Economics & Peace e divulgado em junho de 2018, ocupa a 162ª posição da tabela, atrás de 38 países, com 0,97 mortes anuais por homicídio por ano por cada 100 mil pessoas.

Curiosamente, a Síria, em guerra civil desde 2011, aparece na 128.ª posição, com apenas 2,2 mortes por 100 mil pessoas – menos de metade do número de homicídios dos EUA, que aparecem na 81.ª posição.

Com presença frequente nos media, devido a tiroteios, atentados e ataques com mortes em massa, os EUA registam no entanto um terço das mortes ocorridas na Rússia, país no qual se registam, anualmente, cerca de 11,3 mortes por cada 100 mil pessoas, devido a este tipo de crime.

Segundo uma pesquisa do Pew Research Center, divulgada em 2017, aproximadamente  40% dos americanos tinham, pelo menos, uma arma de fogo, estimando-se que os EUA liderem o ‘ranking’ de civis armados no mundo, com 270 milhões de unidades.

Ora, segundo os dados avançados pelo WorldAtlas, a maioria dos assassinatos na América são cometidos com armas de fogo, havendo especialistas que apontam a sua disponibilidade como uma das principais contribuições para altas taxas de homicídio.

Contrariamente ao que se passa nos EUA, e apesar da elevada mortalidade por crimes com armas de fogo, alguns países da América Latina já restringiram a posse e o porte, como é o caso do Brasil (12.º país do ranking), onde a taxa de mortes caiu. Noutros países, como a Venezuela, o uso foi proibido, tendo, no entanto, a taxa aumentado – catapultando o país para a 3.ª posição da tabela.

Pobreza e crime: haverá relação?

Os países com as maiores diferenças entre ricos e pobres, avançou o WorldAtlas, são quatro vezes mais propensos a sofrer crimes violentos do que os restantes, diferenças essas mais frequentemente encontradas em países em fase de desenvolvimento social e económico, na América Latina e em África.

De facto, são países desses dois continentes que se encontram nas primeiras 20 posições da tabela, como El Salvador (1.º no ‘ranking’), Honduras (2.º) e Jamaica (4.º), provando que a pobreza e o crime estão relacionados.

Nos três países referidos, o crime organizado – envolvendo ‘gangues’ e tráfico de drogas – é dos fatores que mais contribui para as altas taxas de homicídios. Esse tipo de delito é cometido, maioritariamente, por jovens do sexo masculino que, em consequência, são também os que têm maior probabilidade de se tornarem vítimas.

O consumo de drogas e álcool está igualmente relacionado a elevados índices de assassinatos, com a intoxicação por essas substâncias a aumentar o risco de envolvimento (como culpado ou vítima) em assassinatos.

Os conflitos internos e a instabilidade política são outras das variáveis que influenciam negativamente a taxa de homicídios, como acontece em El Salvador, país que se encontra em fase de recuperação devido à guerra civil (decorrida entre 1979 e 1992) e onde ocorrem cerca de 109 homicídios por cada 100 mil habitantes, a cada ano.

Já nas Honduras, o segundo país da lista, acontecem cerca de 64 crimes do género por cada 100 mil habitantes, com a cidade de San Pedro Sula, ao noroeste do país, a contabilizar grande parte dos crimes. O país tem também a maior incidência de mortes por armas de fogo no mundo.

mattzor / Flickr

Jovens do sexo masculino têm maior probabilidade de se tornarem vítimas – ou criminosos.

A Venezuela tem a terceira maior taxa de homicídios, com 57 vítimas por cada 100 mil pessoas. A capital, Caracas é uma das cidades mais perigosas do mundo e a segunda “mais assassina”.

Seguem-se a Jamaica (à volta de 43 mortes por 100 mil pessoas), Lesoto (38), Belize (34,4), África do Sul (34,27), São Cristóvão e Névis (33,55), Guatemala (31,21) e Trinidad e Tobago (30,88).

Inteligência Artificial para prevenir crimes

Apesar de o Reino Unido ocupar a 165.ª posição da lista desenvolvida pelo WorldAtlas, em  Inglaterra o número de homicídios tem vindo a aumentar, especialmente em cidades e bairros nos quais as desigualdades sociais e económicas são mais visíveis.

As forças policiais britânicas, conta o NewScientist, já estudavam formas de prever onde e quando os crimes podem acontecer. Agora, procuram também descobrir quem cometerá os mesmos, com uma ferramenta desenvolvida com recurso à Inteligência Artificial – algo como Minority Report, filme de ficção científica de 2002 de Steven Spielberg e protagonizado por Tom Cruise, a tornar-se realidade.

Essa ferramenta, quando finalizada, permitirá identificar, em diversas situações, indivíduos em risco de cometer um crime ou tornar-se uma vítima de arma de fogo ou de escravidão moderna.

A tecnologia, cujo protótipo estará pronto em março de 2019, será utilizada para analisar diferentes bancos de dados policiais locais e nacionais, que contêm registos de crimes, de buscas e de regimes de custódia, além de relatórios de pessoas desaparecidas.

O objetivo é que possa ser utilizada por todas as forças policiais do Reino Unido, faltando ainda ser determinada forma como as informações recolhidas serão utilizadas. Uma das hipóteses é permitir uma intervenção precoce de trabalhadores sociais ou de saúde, evitando crimes ou protegendo potenciais vítimas.

Entre os especialistas as opiniões sobre esta tecnologia dividem-se. Alguns, inclusive, já expressarem a sua preocupação quanto à ética e à proteção de dados, à repetição de preconceitos já existentes no policiamento tradicional e à recolha de dados.

No entanto, por muito que a tecnologia possa permitir uma melhor prevenção de crimes, para a taxa de homicídios diminuir, tal como referiu o WorldAtlas, são necessárias políticas focadas nas áreas mais problemáticas e nas comunidades em risco, bem como sistemas de justiça eficazes, complementados com investigações eficientes e julgamentos justos.

Qualquer solução para evitar o aumento da taxa de homicídios, ou até mesmo reduzi-lá, requer dedicação por parte dos governos, a nível local e internacional, de forma a dar prioridade à proteção da vida humana.

Taísa Pagno, ZAP //

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