EUA deram carta branca a abusos sexuais de crianças no Afeganistão

As forças militares norte-americanas colocadas no Afeganistão fecharam os olhos a casos de abusos sexuais de crianças recorrentes entre elementos das unidades de segurança afegãs. Esta é a conclusão de uma investigação feita por um grupo de fiscalização governamental.

O Inspector Geral Especial para a Reconstrução do Afeganistão (The Special Inspector General for Afghanistan Reconstruction ou SIGAR no original em Inglês) divulgou esta semana, um relatório considerado “tão explosivo” que esteve assinalado como “Secreto”, com a recomendação de que não deveria ser divulgado antes de 9 de Junho de 2042, conforme relata a ABC News.

Este documento analisou a forma como o Departamento de Defesa (DoD na sigla original em Inglês) e o Departamento de Estado dos EUA lidaram com as denúncias de abusos sexuais de menores cometidos por membros das forças militares afegãs.

A investigação foi solicitada em 2015, por elementos do Congresso norte-americano depois de uma notícia do The New York Times sobre o crescente número de casos de abuso sexual de crianças entre militares e polícias afegãos, no âmbito de uma prática conhecida no Afeganistão por bacha bazi” (algo como “rapaz brinquedo”).

Alguns comandantes afegãos mantinham (e provavelmente, ainda mantêm) rapazes menores como escravos sexuais. E o SIGAR conclui que estas situações eram amplamente conhecidas entre os militares norte-americanos colocados no Afeganistão, nomeadamente entre as altas patentes, sem que nada fosse feito.

Superiores encorajavam militares a “ignorar” abusos

O The New York Times avança que os militares que denunciavam os abusos acabavam por ter as suas “carreiras destruídas pelos seus superiores” que os encorajavam a “ignorar a prática”.

O jornal conta o caso de um antigo oficial das Forças Especiais, o Capitão Dan Quinn, que diz que agrediu um comandante afegão por manter um rapaz acorrentado à sua cama, como escravo sexual. Acabou por ser demitido do comando na sequência do episódio.

“Estávamos a pôr pessoas no poder que faziam coisas que eram muito piores do que o que os Talibãs faziam”, refere Quinn, que entretanto deixou as Forças Armadas norte-americanas.

Outro caso apontado pelo The New York Times é o do Sargento de Primeira Classe Charles Martland, “um Boina Verde altamente condecorado”, que terá sido forçado a deixar o Exército depois de ter espancado um oficial da polícia afegã que raptou e violou um rapaz.

A juntar a estes casos há ainda a morte suspeita do marine Gregory Buckley que foi assassinado num posto de segurança, onde estava colocado a par de um comandante que era conhecido por manter “um séquito de rapazes bacha bazi“. Foi morto por “um dos rapazes do comandante” depois de ter apresentado queixa deste, conta o The New York Times.

Cláusula permitiu fazer vista grossa à Lei

O relatório do SIGAR constata que entre 2010 e 2016, houve 5.753 denúncias de “abusos flagrantes dos Direitos Humanos” no Afeganistão, muitas das quais referindo-se ao abuso de menores.

Perante estes casos, o Pentágono teria que cortar os fundos destinados às unidades militares implicadas, mas tal nunca sucedeu, sublinha a ABC News.

O grupo de fiscalização analisa a forma como foi aplicada a chamada Lei Leahy que retém fundos destinados ao Afeganistão, no caso de evidências comprovadas de violação dos Direitos Humanos. Apesar do conhecimento dos abusos sexuais, o Secretário de Estado da Defesa recorreu a uma cláusula que permitiu fazer vista grossa à referida Lei e manter o apoio financeiro às forças de segurança afegãs.

O SIGAR entrevistou 37 pessoas e organizações ao longo da investigação, notando que 24 disseram ter conhecimento do abuso sexual de crianças.

O relatório foi solicitado durante a presidência de Barack Obama e inclui apenas dados até 2016, antes de Donald Trump ter tomado posse como presidente, apesar de ter sido terminado em Junho de 2017.

Susana Valente SV, ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. A humanidade não tem limites e a porcaria do mal sobrepõe-se ao bem! O mais grave nisto tudo é, de que as pessoas sabendo desta crueldade e monstruosidade, ficaram em silêncio e compactuaram com estes actos! Não entendo o que é que os estados unidos foram lá fazer? Foram combater a merda que lá existe e no entanto, outra merda para lá foi! Porque os americanos não pegam nesta corja humana e os fuzilam?! Isso não são pessoas, são lixo humano..Comandantes de policia e oficiais afegãos??!? E ainda castigam os soldados que os denunciam?! É nojento demais..nem sei o que escrever, sinceramente!

    • Se os EUA se metem nos assuntos dos outros é porque se metem, se não se metem, é porque não se metem. Preso por ter cão e por não ter. A verdade é que isto é um assunto para ser resolvido pelas autoridades locais, não por uma força estrangeira. Os EUA foram para lá para resolver o problema Al Qaeda e encontrar o Bin Laden, não para resolver os problemas que o país já tinha. Por muito atroz que isso seja.

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