Atrizes e empresários norte-americanos em esquema fraudulento de acesso às universidades

Disney | ABC Television Group / Flickr

A atriz Felicity Huffman, uma das protagonistas da série Donas de Casa Desesperadas, terá feito uma “contribuição de caridade” no valor de 15 mil dólares (cerca de 13,3 mil euros) para que a filha mais velha entrasse numa das universidades

As autoridades federais norte-americanas acusaram dezenas de pais, incluindo as atrizes Felicity Huffman e Lori Loughlin, de pagarem milhões de dólares para garantir que os filhos entravam de forma fraudulenta em universidades de prestígio nos Estados Unidos (EUA), como Yale, Stanford e Georgetown.

Segundo divulgou a NPR, 33 pais terão pago ao consultor William Rick Singer para fabricar credenciais académicas e atléticas e subornar os responsáveis pelas admissões em diversas instituições de ensino superior, como Yale, Stanford, Georgetown, a Universidade do Sul da Califórnia (USC) e a Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA).

De acordo com o New York Times, este é o maior processo relacionado com candidaturas universitárias alguma vez movido pelo Departamento de Justiça dos EUA. A investigação, designada “Operação Varsity Blues”, mobilizou 200 agentes a nível nacional e levou a 50 detenções em seis estados norte-americanos, na terça-feira.

Os documentos relacionados com o caso foram revelados nesse mesmo dia, após William Rick Singer ter-se confessado culpado de vários crimes federais, desde conspiração para extorsão e lavagem de dinheiro até obstrução à justiça. John Vandemoer, ex-treinador de vela da Universidade de Stanford, fez o mesmo.

Segundo divulgou o Departamento de Justiça, William Rick Singer dirigia o Edge College & Career Network LLC, instituição de aconselhamento e preparação para faculdades, e a Key Worldwide Foundation (KWF), uma corporação sem fins lucrativos, entidades através das quais recebia os pagamentos feitos pelos pais dos alunos.

“Estamos a falar de deceção e fraude – resultados de testes falsos, credenciais falsas, fotografias falsas, funcionários das faculdades subornados”, disse o advogado Andrew Lelling, numa entrevista coletiva que decorreu em Boston, na terça-feira. O alegado esquema foi descoberto depois de o mesmo ter recebido informações sobre as atividades ilegais, que decorreram entre 2011 e fevereiro de 2019.

Também na terça-feira, um juiz de Los Angeles decidiu que Felicity Huffman, uma das estrelas da série televisiva Donas de Casa Desesperadas, poderia ser libertada sob uma fiança de 250 mil dólares (cerca de 222 mil euros) e o marido de Lori Loughlin – que continua detida -, o estilista Mossimo Giannulli, com uma fiança de um milhão de dólares (aproximadamente 887 mil euros).

Felicity Huffman terá feito uma “contribuição de caridade” no valor de 15 mil dólares (cerca de 13,3 mil euros) para que a filha mais velha entrasse numa das universidades em causa. Posteriormente, terá tentado recorrer novamente ao mesmo esquema (no momento da candidatura da sua filha mais nova à faculdade), mas acabou por desistir.

Lori Loughlin – atriz conhecida pela sua participação na série de comédia Full House – e o marido, terão concordado em “pagar subornos, no total de 500 mil dólares [cerca de 443 mil euros] para que as suas duas filhas fossem recrutadas” pela equipa de remo da Universidade do Sul da Califórnia, segundo a BBC.

Entre os acusados encontram-se ainda diretores executivos de empresas privadas e públicas, corretoras de valores e investidores imobiliários, o co-presidente de um escritório de advocacia global, administradores de exames e treinadores universitários.

Esses últimos são acusados de aceitar subornos de milhões de dólares para garantir que determinados alunos fossem aceites nas instituições de ensino, ao abrigo de programas teoricamente reservados para jovens atletas promissores, acabando por acolher estudantes que não preenchiam os requisitos académicos e atléticos necessários.

Numa dessas ocasiões, William Rick Singer e os seus co-conspiradores fizeram pagamentos de 250 mil dólares [222 mil euros] numa conta bancária na Universidade do Sul da Califórnia (USC), para financiar a equipa de polo aquático, então comandada de treinador Jovan Vavic. Este terá então recrutado dois alunos indicados pelo consultor.

Outro exemplo é o da ex-técnica de futebol feminino da Universidade de Yale, Rudy Meredith, que terá recebido 400 mil dólares (355 mil euros) para designar uma potencial aluna como recruta para a equipa – aumentando as suas perspetivas de admissão – apesar de saber que esta não praticava o desporto a nível competitivo.

Tendo a estudante sido aceite, os seus pais terão pago a William Rick Singer aproximadamente 1,2 milhões de dólares (1,07 milhões de euros), incluindo 900 mil dólares (798 mil euros) para uma das contas beneficentes da KWF.

Em abril passado, Rudy Meredith – que renunciou ao seu cargo em novembro – terá reunido com o pai de uma segunda potencial aluna, num hotel em Boston, reunião que foi gravada secretamente pelo FBI. Durante a mesma, a ex-treinadora ofereceu-se para recrutar a filha do homem para a equipa de futebol, em troca de 450 mil dólares (399 mil euros).

“Em muitos casos, [William Rick Singer] ajudou os pais a tirar fotografias encenadas dos seus filhos em desportos específicos”, contou Andrew Lelling. “Noutras ocasiões, terá usado imagens retiradas da Internet e trocado o rosto dos atletas pelo das crianças”.

Os documentos do tribunal também apresentam provas de um esquema de manipulação de notas de exames, através de subornos feitos às autoridades responsáveis pelos testes.

O consultor terá orquestrado cenários nos quais os estudantes realizaram provas supervisionadas numa escola pública em Houston e numa escola preparatória particular em West Hollywood, na Califórnia. Para tal, terá pago aos administradores Niki Williams (Houston) e Igor Dvorskiy (Califórnia) 10 mil dólares (8,9 mil euros) por teste.

Para garantir uma pontuação alta, terá ainda contratado Mark Riddell, de 36 anos, “para fazer os exames no lugar dos alunos, para dar aos alunos as respostas corretas durante os exames ou para corrigir as suas respostas” depois do teste.

As autoridades acreditam que a maior parte dos jovens não teria conhecimento de que a sua admissão à faculdade era conseguida através do pagamento de um suborno, não existindo também provas de que as universidades estivessem envolvidas. No entanto, alguns estudantes estariam conscientes do esquema, acredita o FBI.

Para Andrew Lelling, “as verdadeiras vítimas neste caso são os estudantes que trabalham duro”, que foram afastados de vagas nas universidades por causa de “alunos muito menos qualificados e das suas famílias que simplesmente compraram a sua admissão”.

Taísa Pagno //

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13 COMENTÁRIOS

  1. E a política racista imposta pela esquerda americana da “affirmative action” esté em investigação também, com Harvard à cabeça. Pesquisam por “David Hogg” e Harvard

    • O que é que isto tem a ver com esquerda ou direita? Trata-se de algumas dezenas de pais ricos a cometerem fraude e suborno para os filhos entrarem nas universidades pretendidas, e uma série de funcionários das respectivas universidades a deixarem-se corromper.

      Não se preocupe. É nos States, pelo menos alguns vão levar com uma valente pena de prisão.

      • Tem a ver com o controlo estatal das entradas nas universidades, para onde a raça conta. A esquerda implementou um sistema racista de entrada nas universidades.
        A partir do momento que a entrada nas universidades não é um sistema claro de meritocracia, o sistema passou a ser currompível

        • Disparate. São universidades privadas, geridas privadamente, qual controlo estatal. Está a referir-se a affirmative action, prática algo dúbia, concordo.

          • A imposição da politica racista Affirmative Action é imposta pelo Estado às universidades privadas, portanto sendo privadas os criterios de entrada estão sob controlo Estatal

            • Ainda não percebi o que é que isso tem a ver com responsáveis universitários se deixarem corromper e permitirem que terceiros façam os testes em vez dos alunos… como se isso não pudesse acontecer em qq universidade. Mas acredito que o Joaquim queira mesmo fazer disto um caso político, portanto tudo serve.

              Affirmative Action tem alguma razão de ser.

            • Se acha que a affirmative action tem razão de ser, você é racista. Tem a ver porque, num sistema que não é claro e preciso, dá espaço aos corruptos de se deixarem corromper

  2. E isto é alguma novidade?!
    De onde acham que vem a maioria do financiamento (secreto) de muitas das “prestigiadas” universidades (privadas) americanas?!
    Pois…

    • A diferença é também que este financiamento não foi para a universidade, foi diretamente para a conta bancária dos responsáveis que se deixaram corromper. A universidade só tem a perder com este caso. O prestígio e imagem pública destas universidades fica certamente abalada.

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