Identificada estrutura da proteína que transporta o coronavírus. Há duas estirpes diferentes

NIAID / Flickr

Uma equipa de cientistas chineses identificou a estrutura completa da proteína ACE2, que o coronavírus usa para entrar nas células humanas, o que pode facilitar o desenvolvimento de possíveis terapias antivirais.

O estudo, publicado esta quarta-feira na revista científica Science, é assinado por investigadores de três instituições da China, país onde o coronavírus, que provoca a doença Covid-19, foi detetado pela primeira vez, no final do ano passado.

A equipa, liderada por Renhong Yan, do Instituto Westlake de Estudos Avançados, analisou e descreveu a estrutura da proteína ACE2, que não se conhecia totalmente até agora. É a proteína ACE2 que o novo coronavírus “sequestra” para entrar nas células humanas.

Os cientistas mapearam, em nível atómico, a estrutura completa da enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2), o ponto de entrada nas células humanas para o coronavírus, na presença de um transportador de aminoácidos neutro chamado B0AT1.

De acordo com o Shine, o ACE2 funciona como companheiro do B0AT1 que medeia a captação de aminoácidos neutros nas células intestinais de maneira dependente de sódio. Os cientistas argumentaram que a estrutura do ACE2 completo pode ser revelada na presença de B0AT1.

Os cientistas misturaram a proteína do novo coronavírus com o complexo ACE2-B0AT1 e reconstruiram a imagem 3D do complexo ternário. A proteína de pico de coronavírus liga o domínio peptidase da ACE2 para causar uma infeção.

Esta ligação abre a porta da célula humana para que o vírus introduza o seu material genético. A máquina que produz as células humanas confunde esse material – ácido ribonucleico (ARN) viral – com o seu próprio ARN e começa a seguir instruções para fazer proteínas virais. Em questão de horas, há milhões de cópias de ARN viral das quais são reunidas cópias do vírus que irrompem na célula para infetar outras.

Yan et al / Science

O SARS-CoV-2 (dourado) interage com a proteína ACE2 (azul). Imagem do microscópio crioelectrónico (cryo-EM)

Os resultados mostram que o domínio de ligação ao recetor do novo coronavírus é semelhante ao do SARS, mas várias variações de sequência e desvios conformacionais podem alterar a afinidade do ACE2 pelo vírus.

“A nossa descoberta não só ajuda a compreender a mecânica da infeção viral” como também “facilita o desenvolvimento de técnicas de deteção do vírus e possíveis terapias antivirais”, disseram os autores do estudo, citados na revista.

Há duas estirpes do vírus (e uma é mais agressiva)

Além deste novo avanço, há ainda um outro. De acordo com a agência Reuters, cientistas na China a estudar a origem da epidemia viral do novo coronavírus dizem ter descoberto duas estirpes principais do vírus que podem estar a causar infeções.

O estudo preliminar descobriu que uma estirpe mais agressiva do novo coronavírus, associada ao surto na cidade de Wuhan, corresponde a 70% das amostras analisadas, enquanto 30% estava ligada a uma estirpe menos agressiva. A prevalência do vírus mais agressivo decresceu em meados de janeiro.

“Estes resultados apoiam fortemente a necessidade urgente de estudos mais abrangentes, que combinem dados genómicos, dados epidemiológicos e registos clínicos dos sintomas de pacientes com a Covid-19”, escreveu a equipa num artigo publicado na terça-feira na revista National Science Review.

Os investigadores, da Faculdade de Ciências da Vida da Universidade de Pequim e do Instituto Pasteur de Xangai, sob alçada da Academia Chinesa de Ciências, advertem que o estudo examinou uma quantidade ainda limitada de dados e que é necessário analisar mais dados para compreender melhor a evolução do vírus.

O surto de Covid-19, detetado em dezembro, na China, e que pode causar infeções respiratórias como pneumonia, provocou cerca de 3.200 mortos e infetou mais de 94 mil pessoas em 80 países, incluindo oito em Portugal. Das pessoas infetadas, cerca de 50 mil recuperaram.

MAPA INTERATIVO: CASOS CONFIRMADOS DE CORONAVIRUS Fonte: Johns Hopkins University
 

Há ainda registo de vítimas mortais no Irão, Itália, Coreia do Sul, Japão, França, Hong Kong, Taiwan, Austrália, Tailândia, Estados Unidos da América, Filipinas e Iraque.

A Organização Mundial de Saúde declarou o surto de Covid-19 como uma emergência de saúde pública internacional e aumentou o risco para “muito elevado”.

ZAP // Lusa

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1 COMENTÁRIO

  1. Lendo este artigo acerca da enzima ACE2, diz que “funciona como companheiro do BOAT1 que medeia a captação de aminoácidos neutros nas células intestinais de maneira dependente de sódio”.
    Conseguimos deduzir que o sódio é relevante na interação que esta mesma enzima tem no seu meio de atuação.
    Entao será possível que o sódio ou composto de sódio possam ter influencia.
    Gostaria de ter uma opinião mais exata sobre esta ideia.

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