Dois meses ao leme da AR e Santos Silva está como Fernando Pessoa: “sinto é saudades do futuro”

António Cotrim / Lusa

Augusto Santos Silva, presidente da Assembleia da República

Para Augusto Santos Silva, que completa dois meses enquanto presidente da Assembleia da República, o momento mais marcante foi a audição do Presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy.

O Parlamento arrancou os trabalhos desta legislatura há dois meses e, neste período, o grande momento que marcou Augusto Santos Silva foi a audição do Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy.

“Do ponto de vista pessoal, o mais emotivo para mim foi a sessão com o Presidente [ucraniano Volodymyr] Zelensky. Desde a primeira hora que considero que a Ucrânia é vítima de uma invasão. Isso, evidentemente, tem despertado enorme comoção, solidariedade”, contou, em declarações à CNN Portugal.

Antes de assumir o cargo de presidente da Assembleia da República, Santos Silva foi, durante vários anos, ministro dos Negócios Estrangeiros.

Questionado sobre se tem saudades dessas funções, principalmente numa fase em que a diplomacia vive grandes desafios, o ex-ministro não tem hesitou: “Não, não. Estou como o Fernando Pessoa. Sinto é saudades do futuro. Há uma regra que eu sigo religiosamente: pasta de que saia é passado.”

Ainda assim, a visão institucional obriga-o a escolher outro grande momento vivido nestes dois meses findos: “para a Assembleia da República, evidentemente a votação da proposta de Orçamento do Estado é o momento alto. Porque, num certo sentido, fechou uma crise que tinha sido aberta em outubro passado”, justificou.

Augusto Santos Silva assumiu funções enquanto presidente da Assembleia da República a 29 de março e, nessa altura, prometeu ser “imparcial”. Nestes dois meses, houve situações em que as bancadas não socialistas o acusaram de não estar a cumprir a promessa.

Um desses episódios remete para o início de abril, quando André Ventura, do Chega, falava no Parlamento sobre a comunidade cigana em Portugal.

Santos Silva interrompeu o deputado quando começou a personalizar o tema, falando de um “cigano fugido noutro país depois de ter morto um PSP”. “As minorias não devem ser confrontadas, mas também não podem ser apaparicadas ao ponto de ignorarem que têm de ter os mesmos deveres que todos os portugueses”, dizia Ventura, antes de ser interrompido pelo presidente da AR.

“Não há atribuições coletivas de culpa em Portugal”, atirou Santos Silva, tendo sido aplaudido pelos deputados.

À CNN Portugal, o responsável político lembrou esse momento, afirmando que “a única interrupção que fiz foi a do deputado André Ventura” porque “estava com toda a razão para o fazer“. “Estava a assistir a uma criminalização coletiva”, acrescentou ainda.

No final das negociações do Orçamento do Estado para 2022, o deputado Carlos Guimarães Pinto, da Iniciativa Liberal, acusou Augusto Santos Silva de “falta de independência” na condução dos trabalhos.

O diário lembra que o deputado queria “distribuir literatura sobre o efeito que a inflação tem” na receita fiscal quando o presidente da Assembleia da República o interrompeu para dizer que “a Assembleia da República não é a escola”.

Para justificar esse momento, Santos Silva referiu que não era ele que estava a conduzir os trabalhos nesse dia. “Na Assembleia da Republica não há professores nem alunos. A regra é que todos nós somos deputados e falamos livremente”, disse.

No geral, e ao fim de dois meses em exercício, o balanço é “muito positivo”. O que exigiu maior habituação, confessou, foi a nova composição das bancadas.

  ZAP //

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