Doente de covid-19 acusa Hospital de São João de ocultar informação sobre nódulo no pulmão

Manuel Fernando Araújo / Lusa

Hospital de Campanha no São João, Porto

Uma doente que sofreu de covid-19 e esteve internada nos cuidados intensivos do Hospital de São João, no Porto, entre março e abril, acusou aquele hospital de lhe ter sonegado a informação de que ficou com um nódulo num pulmão.

Devido à covid-19, Ana Loura, de 67 anos, esteve 24 dias internada, entre 12 de março e 5 de abril. Em declarações à agência Lusa, disse que há um relatório de uma TAC [tomografia computadorizada] do Hospital de São João que fala num nódulo num dos pulmões e aconselha a ser vista e tratada após a crise pandémica, “mas tal nunca é referido na nota de alta” hospitalar, nem sequer oralmente.

Isso foi-me sonegado pelo Hospital de São João. Já mandei um mail a reclamar e até agora não tive resposta. Mas é um dado importante para quem tem uma alta [hospitalar], que é saber que tem um problema, que pode ter sido provocado pela covid-19, pode ser uma sequela e não vem referido na nota de alta”, criticou.

Ana Loura contou que só descobriu que tem um nódulo e que tem de ser acompanhada após sentir muito cansaço e se ter dirigido ao centro de saúde em Vila do Conde, no distrito do Porto.

Contactada pela Lusa, a presidente do Conselho Clínico do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) da Póvoa de Varzim e Vila do Conde, Maria José Campos, explicou que recomendou à paciente Ana Loura que deveria ser acompanhada por um pneumologista, acrescentando que “a doente recuperada foi avaliada como utente esporádica” naquele centro de saúde.

A Lusa questionou a Administração Regional de Saúde do Norte (ARS Norte) e fonte oficial explicou que o acompanhamento de doentes pós internamento por covid-19 prossegue “de acordo com as orientações definidas pela Direção-Geral da Saúde”.

“Existe articulação entre o hospital – Sistema de Gestão de Alta – e a equipa de Saúde Familiar da Unidade de Saúde onde os mesmos se encontram inscritos, para esse efeito”, lê-se numa nota por escrito enviada à Lusa.

Fonte médica do São João explicou à Lusa, por seu turno, que o Centro Hospitalar não tem capacidade para seguir todos os doentes internados no Serviço de Infecciologia, no pós alta hospitalar.

“Numa altura de emergência, com dezenas ou centenas de doentes a aparecerem nos hospitais e com outros doentes em situação de não covid que estão a ser tratados, não podem os hospitais assegurar tudo e mais alguma coisa. As tarefas têm de se dividir”, explicou à Lusa António Sarmento, diretor do Serviço de Infecciologia do São João, assumindo que ali se assegura o tratamento na doença ativa, internando se for grave, e menos grave acompanhando no domicílio.

Numa segunda fase, o acompanhamento tem de ser feito pelo médico do doente, sublinhou António Sarmento.

Ana Loura ficou com sequelas

As pessoas que sofreram de covid-19 podem ficar com sequelas como nódulos nos pulmões, falhas de memória ou queda de cabelo, contou Ana Loura.

“A memória. Já tenho 67 anos e a memória já não é o que era [quando era mais nova], mas piorei muito” depois do internamento, disse.

O aparecimento de um nódulo num dos pulmões que desconhecia antes de sofrer de covid-19 e uma queda abundante do cabelo são outras das sequelas que Ana Loura disse estar a verificar depois da alta hospitalar da covid-19, em 5 de abril.

O meu cabelo embranqueceu de um dia para o outro. Já era grisalho, mas agora está predominantemente branco”, contou, referindo que também continua a sentir “muito cansaço”.

Reformada da profissão de técnica de telecomunicações aeronáuticas na empresa NAV na Ilha de Santa Maria (Açores) e ativista envolvida em várias causas sociais e culturais naquela ilha, saiu dos Açores no dia 17 de fevereiro, para estar presente no Correntes D’Escritas de 19 a 22 de fevereiro.

Questionada pela Lusa sobre se estaria disponível para participar num estudo científico sobre as sequelas que a covid-19 deixa nos doentes recuperados, respondeu que está disponível.

“Claro que sim. Devo isso ao resto do universo. Aliás, já me inscrevi naquele programa de recolha de plasma. Eu acho que temos a obrigação de estar disponíveis para colaborar naquilo que for preciso”, assumiu.

Em entrevista recente à agência Lusa, o diretor do Serviço de Infecciologia do São João, António Sarmento, admitiu poder-se avançar com um estudo científico sobre as sequelas que a covid-19 deixou nos doentes recuperados “quando as coisas acalmarem”.

As sequelas das doenças geralmente manifestam-se ao fim de semanas ou meses, explicou António Sarmento.

No caso da covid-19, uma doença “nova e desconhecida” é “impossível, para já, no mundo alguém dizer, seja na América, seja cá, com que sequelas as pessoas vão ficar”, afirmou. “Não sabemos”, reconheceu António Sarmento, referindo que é “provável que fiquem com as sequelas duma pneumonia”.

O diretor do Serviço de Infecciologia ressalvou ainda que há “sequelas de cuidados intensivos” que são “comuns a qualquer patologia que obrigue a internamento em cuidados intensivos”, mas que depois são “reversíveis”.

Uma pessoa que esteve parada, sedada e ligada a um ventilador pode ter “sequelas neuromusculares”, “sequelas pulmonares” e podem ser “sequelas psiquiátricas ou psicológicas”, e, por esses motivos pode sentir “atrofias musculares”, “cansaço brutal”, “falta de forças”, “stress pós traumático”, que tem a ver com uma sedação prolongada, descreveu.

Em Portugal, morreram 1.184 pessoas das 28.319 confirmadas como infetadas, e há 3.198 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.

// Lusa

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