Do subsolo sírio à nomeação ao Óscar: hospitais em tempos de guerra numa “era de impunidade”

Zouhir Al Shimale / EPA

Bombardeamento em Aleppo, Síria

The Cave é o nome de uma produção que esteve nomeada para o Óscar de Melhor Documentário de 2020. É também o lugar onde hospitais sírios se escondem para salvar vidas longe de bombardeamentos e ataques aéreos, numa realidade tão dura que chega à ficção – mas não o é.

Liderados pelo cardiologista Hassan al-Araj, trabalhadores humanitários sírios construíram um hospital no interior de uma caverna, cerca de 50 metros abaixo da superfície. O objetivo era proteger o estabelecimento de saúde dos bombardeamentos constantes de que a província rural de Hama é alvo.

Mas os ataques continuaram. Em abril de 2016, Araj foi atingido e morto num ataque aéreo à entrada do hospital Cave, que foi ganhou o nome do especialista em sua homenagem.

Quase 10 anos de guerra devastaram o sistema de saúde da Síria, na sequência do que os trabalhadores humanitários descrevem como anos de campanha de ataques aéreos e bombardeamentos do regime russo e de Bashar al-Assad.

“Até ao momento, a comunidade internacional tem-se mostrado incapaz de responsabilizar as partes responsáveis ​​pelos abusos cometidos durante o conflito”, lê-se num relatório divulgado na quarta-feira, intitulado A decade of destruction (Uma década de destruição), pelo International Rescue Committee (IRC).

No documento, que surge no momento em que a Síria se aproxima do 10.º aniversário do conflito, lê-se que um terço dos inquiridos testemunhou diretamente um ataque a uma unidade de saúde e metade disse ter receio de procurar assistência médica com medo de ser vítima de uma investida.

Em comunicado, David Miliband referiu que a Síria era uma espécie de “poster child – termo usado para descrever o uso de uma fotografia de uma criança com alguma doença para arrecadar dinheiro ou recrutar voluntários por uma causa ou para uma determinada organização – numa “era da impunidade, onde as regras da guerra são ignoradas e os ataques à saúde em violação ao direito internacional continuam sem consequências”.

Segundo o Independent, o presidente do IRC também alertou que o país pode, em breve, tornar-se “o modelo de guerras futuras”, temendo que “a ilegalidade e a brutalidade da última década se tornem a norma, e não a exceção”.

The Cave e a nomeação ao Óscar

Permanecer à tona numa cidade constantemente bombardeada e em que a destruição é a palavra de ordem é difícil, mas manter um hospital nestas circunstâncias de guerrilha torna-se um desafio quase impossível. Daí que o hospital de Hama não seja o único a esconder-se sob o solo acidentado para assegurar proteção.

A região de Al Ghouta esteve cercada por Bashar al-Assad durante cinco anos, por ser um reduto das forças de oposição ao Presidente sírio. Lá também nasceu um hospital subterrâneo, construído praticamente debaixo da terra pelos resistentes durante o cerco, com o objetivo de salvar o maior número de vidas possível.

A unidade de saúde era chefiada de forma inédita por uma mulher, a médica Amani Ballour, uma liderança que foi olhada de lado por muitos homens, que ainda acreditam que o lugar das mulheres é em casa.

Esta é a história de The Cave, um documentário filmado entre 2016 e 2018, que traz para a tela a guerra civil na Síria como pano de fundo.

O filme foi nomeado para o Óscar de Melhor Documentário de 2020 e foi realizado pelo sírio Feras Fayaad. Durante 1h40 é possível ver uma cidade destruída; pessoas cercadas pelas forças do regime; adultos, crianças e bebés feridos; numa narrativa dura da realidade do país.

O Público escreve que o realizador visitou vários hospitais subterrâneos na Síria e ficou surpreendido por ver que, nestes sítios, homens e mulheres podiam trabalhar em conjunto. Talvez até o único lugar no país em que as mulheres podiam trabalhar.

Mas tudo começou em 2011, quando Feras Fayaad esteve preso. O realizador foi torturado durante 15 meses por causa de um filme sobre um poeta que se tentava exprimir apesar da censura. Em 2013, um ataque químico fez com que centenas de pessoas morressem: as ruas encheram-se, uma vez mais, de feridos graves que lutavam pela vida.

A luta que dificilmente se faz sozinha conta com a ajuda de especialistas e, nessas imagens, Fayaad ficou impressionado com duas médicas que trabalhavam rapidamente para tentar salvar o máximo de vidas possível. Uma delas era Amani.

“Conseguia imaginar ali a minha mãe, as minhas irmãs, as mulheres que foram torturadas durante o tempo em que estive preso. Todas as suas histórias convergiam nesta mulher, a doutora Amani, que não estava só a fazer o seu trabalho enquanto médica; estava a desafiar os estereótipos e preconceitos que a sociedade síria tem sobre as mulheres”, contou Fayaad, citado pelo National Geographic.

Três cineastas acompanharam Amani durante dois anos e capturaram os desafios do quotidiano da médica. O documentário foi realizado à distância por Fayyad, que se encontrava exilado depois de ter sido preso e torturado na Síria.

“Quando as pessoas viam as câmaras a seguir-me, conversavam muito. Temos uma cultura contra as mulheres, as mulheres devem ficar em casa, casar e ter filho”, contou a médica. “Não foi fácil para toda a Síria ver-me.”

À medida que os bombardeamentos a hospitais se iam multiplicando, o regime deu aos médicos a possibilidade de fugirem, mas essa questão nem chegou a estar em cima da mesa de Amani.

O regime bombardeou os túneis de ligação entre o hospital subterrâneo e o mundo exterior, pelo que, a dada altura, começou a fazer-se sentir a escassez de comida e de medicamentos. Alguns elementos da equipa que participou na produção faleceram.

“Tínhamos um terapeuta para a equipa, os editores, tradutores, o [realizador] Feras [Fayyad]”, salientou a produtora dinamarquesa Kirstine Barfod, numa intervenção pública em Los Angeles. “Ajudou-nos com ferramentas porque todos fomos afetados. Ainda estamos a receber terapia“, confessou.

  Liliana Malainho, ZAP //

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