Direita religiosa está a “sabotar” a luta contra a covid-19 na Coreia do Sul

Republic of Korea / Flickr

Comboio KTX a ser desinfetado, em Seul, na Coreia do Sul

A relutância da direita religiosa sul-coreana em obedecer às regras sanitárias está a deixar o Governo preocupado. Teme-se uma segunda vaga do novo coronavírus no país.

O facto de a Coreia do Sul ter suspendido os serviços religiosos durante a pandemia de covid-19 não agradou a todos. Como seria de esperar, os cristão sul-coreanos não estão contentes com a decisão e comparam os líderes de Seul aos da sua vizinha Coreia do Norte.

“Essa coisa do coronavírus é uma farsa total”, disse Hwang, um membro de 68 anos da Igreja Sarang Jeil, um grupo presbiteriano com milhares de seguidores. “É como uma caça às bruxas. Eles estão a tentar matar a nossa igreja. O governo está a usar o vírus para transformar o nosso país num estado comunista”.

As autoridades sanitárias da Coreia do Sul estão a preparar-se para uma segunda vaga da doença. O país registou 23.455 casos positivos e 395 mortes desde o início da pandemia. O número de casos diários está sob controlo, mas teme-se que haja um aumento.

Grupos de oposição associados a igrejas politicamente ativas estão já a planear uma série de protestos em massa na capital nas próximas semanas, escreve o OZY. Levar a cabo estas manifestações em plena pandemia deixa muitos de pé atrás.

“Estamos muito preocupados que outra grande manifestação possa resultar em infeções em massa, especialmente devido ao número de pacientes assintomáticos e casos não rastreáveis”, disse Yang Ji-ho, chefe da equipa de política sanitária da cidade de Seul, ao Financial Times.

Como tal, Seul avançou com uma ação judicial contra a igreja Sarang Jeil, exigindo uma indemnização de 4 milhões de dólares devido ao papel numa manifestação em agosto.

A igreja não cumpriu a quarentena obrigatória e pôs em risco os habitantes da capital sul-coreana. Sarang Jeil nega responsabilidades, apesar de centenas dos seus membros testarem positivo para o novo coronavírus após a manifestação.

Minah Kim, professora e especialista em religião na Coreia do Sul na Universidade Nacional de Incheon, diz que as denominações cristãs há muito estão “entrelaçadas” com a política, mantendo fortes laços com as ditaduras militares e com o movimento de democratização nos anos 80.

Na Coreia do Sul, os líderes destas igrejas são comparados aos pregadores evangélicos dos Estados Unidos, que aumentaram o apoio ao Presidente Donald Trump. Eles desempenham um papel importante nos debates sociais, opondo-se a mudanças nos direitos dos homossexuais, aborto e políticas de refugiados.

O Presidente sul-coreano, Moon Jae-in, está a tentar garantir a cooperação da direita religiosa para controlar a pandemia.

“Oração ou serviços religiosos podem trazer paz à mente, mas não podem defender-nos contra o vírus. Todas as religiões deveriam aceitar que a quarentena não é o domínio de Deus, mas o domínio da ciência e da medicina”, disse Moon, que ele próprio é católico praticante.

Choi In-shik, secretário-geral de um grupo de direita religiosa, tem uma opinião diferente.

“Proibir comícios públicos por causa de uma doença não acontecia nem mesmo sob a ditadura”, disse. “É nosso dever como cidadãos democráticos criticar e proteger-nos contra o Governo”.

ZAP ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. Isto do poder das religiões se querer sobrepor ao superior interesse das populações…
    – Santa ignorância ou infames ditaduras?

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