“Não faz sentido nenhum”. Decisão britânica abala turismo, mas Governo já tem carta na manga

O Reino Unido decidiu que Portugal iria sair da “lista verde” de viagens internacionais devido à descoberta de novas variantes e ao aumento do número de infeções. Governo defende certificado covid.

O Presidente da República e o primeiro-ministro concordam que, com o processo de vacinação avançado, não faz sentido continuar a ler os números de infetados como se ainda pusessem em risco muitas vidas ou o SNS.

A ameaça de o Reino Unido retirar Portugal da lista verde já tinha feito soar os alarmes, e o risco de o país perder competitividade no muito disputado mercado de turismo foi um dos fatores que pesaram na decisão.

Em declarações ao Expresso, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, admite a necessidade de encontrar critérios mais “seguros” na avaliação que cada país faz dos outros porque “as decisões administrativo-políticas introduzem uma grande incerteza”.

O governante defende que o certificado covid Europa “também seja válido para os contactos com países de fora da União Europeia”, considerando que “toda esta incerteza mostra a importância do certificado entrar em vigor a 1 de julho”. Para Augusto Santos Silva, a regra deveria ser válida entre todos os países, pertençam ou não à UE (Reino Unido incluído), deve ser clara e não estar sujeita a discricionariedades.

Caso seja aceite por Boris Johnson, o certificado poderia ser visto como uma salvação para o verão, uma vez que atualmente mais de metade dos cidadãos britânicos estão já vacinados com duas doses e assim poderiam vir para Portugal sem a obrigação de quarentena.

A decisão do Governo de Boris Johnson de tirar Portugal da lista verde acabou por apanhar o Governo de surpresa.

Na véspera da decisão, o Executivo de Costa não via razões para que o Reino Unido optasse por colocar Portugal na lista laranja, nem tinha sido informado.

Marcelo não foi tão longe nas suas declarações em Sófia, mas estaria a pensar no mesmo quando alertou para a necessidade de acautelarmos “problemas em relação à Europa que nos rodeia”.

Quanto ao dilema “desconfinar mais ou menos rápido”, Marcelo Rebelo de Sousa converge agora na tentativa de travar euforias.

“Não faz sentido”

João Paulo Gomes, investigador do Instituto Dr. Ricardo Jorge (INSA) e responsável pelo acompanhamento das variantes do SARS-CoV-2, não entende como é que um dos argumentos do Governo britânico para retirar Portugal da lista verde possa ser a presença de casos de uma mutação do Nepal da variante indiana.

“Não faz sentido absolutamente nenhum como pretexto para aplicar esta medida”, defende ao Expresso.

O especialista considera “desonesta” a forma como o governo de Boris Johnson apresentou a situação.

“Dá a sensação de que Portugal é uma incubadora de problemas, quando a variante que causou todo o caos que vivemos no final de dezembro, janeiro e fevereiro foi importada do Reino Unido”, sublinhou, lembrando até que os cientistas britânicos levaram mais de dois meses a notificar as autoridades de saúde mundiais da identificação da variante inglesa.

Por sua vez, Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, também considera que “não há razão neste momento para tirarem Portugal da lista verde”.

“Para tomar essa decisão, o Reino Unido tem em conta vários critérios além da incidência. Olham para a prevalência das variantes de preocupação, a capacidade de sequenciação genómica do país, a cobertura vacinal e o ritmo de vacinação, além de critérios políticos. O que não sabemos é como é que eles combinam estes vários fatores”, referiu o investigador.

Esta quarta-feira – dia anterior à decisão – Portugal tinha 66 novos casos por 100 mil habitantes a 14 dias, uma incidência mais elevada do que no início de junho do ano passado, mas o panorama da pandemia “é hoje completamente diferente do que era há um ano”, frisa Carmo Gomes.

“Não é justificada”

O inesperado anúncio, cerca de um mês depois da luz verde, de que Portugal ia voltar ao amarelo e sair da lista de países para onde os britânicos podiam viajar sem restrições abalou a bolsa de valores de Londres, com as maiores companhias aéreas e operadores turísticos a desvalorizar entre os 3% e os 6% logo esta quinta-feira.

Em conjunto, contas feitas pelo jornal The Guardian, que acrescentou à lista também a fabricante de motores de avião Rolls-Royce, Ryanair, EasyJet, British Airways, TUI e Intercontinental Hotels desvalorizaram mais de dois mil milhões de libras (2,3 mil milhões de euros) – só esta quinta-feira.

Um porta-voz da British Airways disse à Sky News que a notícia foi “incrivelmente dececionante e confusa”, acrescentando que “o Reino Unido atingiu um ponto crítico e precisa de viajar urgentemente com países de baixo risco, como os EUA, para reiniciar a economia, apoiar as indústrias devastadas e reunir as famílias”.

O presidente-executivo da EasyJet, Johan Lundgren, disse que a decisão foi um “grande golpe” e defende que “não é justificada pela ciência”.

Em declarações à Sky News, o secretário de Estado das comunidades, Robert Jenrick, assume que a decisão de retirar Portugal da lista verde do Reino Unido é “frustrante”, tanto para os portugueses como para os milhões de britânicos que gostariam de passar férias no estrangeiro no verão de 2021.

Por outro lado, os viajantes que planeavam visitar Portugal no verão também estão furiosos.

Os turistas britânicos que se encontram atualmente em Portugal enfrentam agora uma corrida para regressar ao Reino Unido antes que as novas regras entrem em vigor, na madrugada de terça-feira, 8 de junho, a partir das 4 horas.

Os países na “lista amarela” estão sujeitos a restrições mais apertadas, nomeadamente uma quarentena de 10 dias na chegada ao Reino Unido e dois testes PCR, no segundo e oitavo dia.

Ana Isabel Moura, ZAP //

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17 COMENTÁRIOS

  1. E a carta que o governo tem na manga, é o quê?… O Certificado Covid Europa, para o qual o Reino Unido se vai estar nas tintas?… Este Portugal é só bluffs. Tá sempre pronto é pra baixar a calcinha ao Reino Unido, pra depois levar coices de gratidão. Mas Portugal deve gostar.

  2. Não há grande diferença entre os dois governos: Portugal e Inglaterra.

    Nunca sabemos com o que podemos contar. Aqui e lá não se entendem os comportamentos, por tão absurdos.

  3. Tudo isto, vai muito para lá do que nos fazem querer!
    1º Pandemia/doença
    2º Desmoralização
    3º Economia
    E assim nos afundam pelos pontos fulcrais!
    Solução, “carimbar” todo mundo…

  4. Quanto mais tempo insistirem no turismo britânico e demorarem a diversificar o turismo com outros países, pior. Essa é que devia ser a carta na manga.

  5. Quando a decisão de um país de deixar em quarentena as pessoas que visitam Portugal, nos deixa de calças na mão, diz muito do tipo de economia que temos. Somos um pas de pedintes que vivemos com a mão estendida para a Europa esperando fundos comunitários e esperando que nos venham visitar. Qualquer lobby mais forte, qualquer problema internacional nos vai deixar económicamente de rastos. É isto que temos ao fim de quase 50 anos de Liberdade , habituamo-nos a viver assim, não queremos produzir, os empresarios são mal vistos e estupidamente taxados de todas as formas possiveis e imaginarias, toda a gente quer ter um emprego no Estado para ganhar bem fazendo pouco e ter uma reforma que a maioria dos portugueses não pode sonhar … mas produzir e criar riqueza no pais , isso nem pensar, isso é coisa de governos competentes e infelizmente nunca tivemos. Olhem para a Irlanda .

    • Não somos Irlanda nenhuma. Essas comparações só lembram quando na escola diziam a um aluno com mais dificuldades: “Vês o teu colega que boas notas que tem?” – esquecendo-se de que se calhar o colega não tem os mesmos problemas em casa, vem de famílias com melhores condições de vida, etc…

      Portugal depende largamente do Turismo e não há que dizer isso com desdém. Cada país tem a riqueza que tem e a nossa é o clima, porque felizmente não depende dos Portugueses, senão já nem isso havia.

      • 100% com o sr Miguel Queiroz. Somos Portugal, tenho as nossas limitações e as nossas características culturais. Atrevo-me a dizer que a culpa maior do nosso “atraso” propalado por alguns “politicamente incorrectos” é desses politicamente incorretos, que adoram apontar esses problemas, mas não fazem ou pensam em como eliminar esses problemas…Mais fácil verborrear….

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