Coronavírus vitimiza indígenas idosos e coloca em risco línguas já ameaçadas de extinção

Marcello Casal Jr / ABr

A propagação do coronavírus nas tribos indígenas da Amazónia tem causado a morte de anciãos e, consequentemente, potencializado a extinção de dialectos antigos, já fragilizados devido ao desenvolvimento, à globalização e às novas tecnologias, que impulsionaram o domínio de algumas línguas.

Numa reportagem do Washington Post, divulgada na terça-feira, os jornalistas Terrence McCoy e Heloísa Traiano contam a história do indígena Aritana Yawalapiti, de 71 anos, fluente em cinco idiomas, que durante a entrevista escolheu falar num idioma que praticamente ninguém no mundo entende.

“Awiri nuhã”, disse o ancião na língua dos Yawalapiti, uma tribo indígena da floresta amazónica. “Cuide das pessoas. Cuide da terra. Cuide da floresta”. Com a sua morte, o filho Tapi tornou-se no novo líder da tribo e o número de pessoas que falam a sua língua fluentemente caiu de três para duas, ambas com mais de 70 anos.

À medida que o coronavírus se propaga, invadiu territórios que abrigam algumas das línguas mais ameaçadas do mundo. Ao atingir os idosos, o vírus está a dizimar os últimos falantes de línguas antigas.

No Peru, o coronavírus atingiu a região de Loreto, ameaçando dezenas de línguas. Na Austrália, linguistas suspenderam uma expedição para catalogar palavras com o último falante fluente de Warriyangga e Thiinma para proteger o homem de 86 anos do risco de infeção. Na Índia, o único país com línguas mais ameaçadas do que o Brasil, os investigadores dizem que as condições podem ficar terríveis.

“De alguma forma, as pessoas ainda não acordaram para a morte dessas línguas”, disse Anvita Abbi, investigadora indiana que passou duas décadas a estudar a língua Sare, vendo o seu último falante a morrer este ano. “É assim que as línguas morrem: gradualmente, gradualmente, gradualmente e depois de repente”, explicou.

É um processo que Tapi, de 42 anos, vem tentando adiar há anos. Devido à diminuição de falantes fluentes, criou uma iniciativa para documentar e recuperar um idioma que entendia, mas falava pouco. Começou por entrevistar o pai, passando depois por viajar para fora da floresta com o intuito de contactar outros linguistas do Brasil.

Já antes da pandemia, o mundo corria o risco de perder mais de um terço dos seus 6.800 idiomas. Centenas ficaram no século passado, com a chegada do desenvolvimento a vilas isoladas e com a migração para centros urbanos. Quase 600 estão criticamente ameaçadas, segundo a UNESCO, e cerca de 150 são faladas por, no máximo, 10 pessoas.

Marcello Casal Jr / ABr

“No final deste século, teremos um número significativo de línguas a desaparecer”, indicou Irmgarda Kasinskaite, que trabalha com diversidade linguística na agência cultural da Organização das Nações Unidas (ONU). “Não percebemos que algo se foi até que o perdemos”, acrescentou.

Quando uma língua morre, afirmam os linguistas, o mundo perde mais do que apenas palavras. Perde conceitos, padrões de pensamento, história.

Segundo a reportagem do Washington Post, poucos lugares refletem melhor a diversidade e a fragilidade da língua do que as florestas do Brasil, país que já conteve dialetos que permaneceram isolados ao longo de milhares de anos. Quando os colonizadores europeus chegaram, escreveu o linguista Aryon Rodrigues, eram faladas 1.175 línguas no país.

Atualmente, restam menos de 230, a maioria ameaçada. O novo coronavírus já matou 205 líderes indígenas, que serviram como registos vivos para pessoas sem registos escritos. A maioria tenta transferir o seu conhecimento para a geração seguinte antes de morrer, mas caso a sua morte chegue mais cedo, o seu conhecimento e história desaparecem com eles.

“Quando perdemos o nosso líder, perdemos muito do nosso conhecimento cultural”, referiu Julio Karai, do povo Guarani Mbya, cujo líder morreu com o coronavírus em julho.

Sawarawia Asurini, membro da tribo Asurini, do estado amazónico do Tocantins, contou que quando o coronavírus atacou, a sua tribo tinha apenas duas dúzias de ancestrais. Agora seis estão mortos. “É uma perda, não há palavras. Os anciãos eram uma história viva para nós. Agora, o número de pessoas que falam a língua é muito pequeno”, disse.

De acordo com Tapi, a história do seu povo – cujos antigos falantes eram fluentes em Yawalapiti – foi marcada por doenças, guerra, pobreza e fome. Quando o explorador alemão Karl von den Steinen fez contacto com a tribo, em 1887, esta mal tinha comida para lhe oferecer. A partir daí, as coisas nunca melhoraram.

Na década de 1930, ataques de outras tribos levaram à morte de muitos dos seus membros e à fuga dos restantes da sua aldeia ancestral. Incapazes de se reagruparem, foram absorvidos por outros grupos. Apesar de os Yawalapiti terem sobrevivido, a sua língua enfraqueceu. Quando casaram com elementos de outras tribos, os seus filhos raramente falavam Yawalapiti. Mesmo depois de terem criado uma nova aldeia, o número de falantes fluentes continuou a cair. Quando Tapi era criança, restavam menos de 20.

“O meu pai disse: ‘Nunca podes deixar isso acabar. O idioma faz parte da nossa cultura. Se a língua morrer, as pessoas perderão metade da sua cultura'”, contou.

Para pesquisar e manter a língua viva, Tapi viajara centenas de quilómetros até a Universidade de Brasília, passando meses longe da família, residindo num apartamento na cidade, longe da floresta. Nesse tempo, transcreveu as palavras, codificou a sua gramática, registou os seus ritmos, escrevendo um livro didático para ensinar as gerações futuras.

O pai de Tapi, Aritana, foi um poderoso líder indígena, conhecido no país pela sua diplomacia e intelecto e por ter sido personagem principal numa novela brasileira. Este reconheceu a importância da missão do filho, que passou anos a catalogar as palavras e as peculiaridades, revisando longas meditações registadas pelo pai e outros anciãos.

Aritana acabou por morrer em agosto. “Perdemos um pouco da nossa história”, disse a sua filha Kaiti Kna Aguiar. “Uma amputação”, sublinhou Walamatiu Yawalapiti, de 35 anos, que ouviu a língua enquanto crescia e começou a ensinar o básica às crianças.

Para os linguistas, os idiomas à beira da extinção raramente conseguem ressurgir. Ao invés disso, desaparecem silenciosamente. “Agora são apenas dois [falantes], que vivem separados, e não na própria comunidade Yawalapiti”, frisou Ana Suelly Arruda Câmara Cabral, linguista da Universidade de Brasília que supervisiona as pesquisas de Tapi.

O antropólogo Adelino Mendez, que passou duas décadas a estudar a tribo, viu Tapi crescer até à idade adulta. A maior parte da tribo mostrou pouco interesse em aprender Yawalapiti, optando por outras línguas indígenas ou português. A única pessoa jovem que se sentou com os antigos e absorveu a sua língua foi o atual líder, apontou.

Os jornalistas sublinharam que Tapi sabe que pode falhar e que pode ser tarde demais. Mesmo assim, este planeia continuar a registar as palavras e a visitar os dois últimos falantes fluentes. O líder da tribo deverá defender a sua tese em novembro. Mesmo que a língua não seja mais falada, Tapi afirmou que o idioma não será esquecido.

ZAP //

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