Pesadelos bizarros ou sonhos com celebridades. Comer queijo antes de dormir influencia o sono?

Já desde os anos 60 que a hipótese de se comer queijo antes de dormir causa pesadelos está em cima da mesa, apesar de ainda não haver provas científicas nesse sentido.

É uma hipótese que já está em cima da mesa desde os anos 60. Em 1964, um investigador verificou uma correlação estranha, quando notou que um paciente seu deixou de ter pesadelos quando parou de comer entre 30 e 50 gramas de queijo cheddar todas as noites.

Já em 2005, o Conselho Britânico do Queijo debruçou-se sobre este fenómeno e financiou um estudo que concluiu que comer queijos azuis, como o gorgonzola e o roquefort, causa sonhos estranhos e intensos. O queijo cheddar causava algo ainda mais bizarro — sonhos com celebridades.

Apesar de não ter sido revisto por pares e de não ter muita credibilidade na comunidade científica, este estudo trouxe novamente o tema a discussão. Afinal, comer queijo antes de dormir causa ou não sonhos esquisitos?

Não há grandes provas nem de que sim, nem de que não, escreve a BBC Brasil, mas o predomínio dessa teoria poderá ser suficiente para que ela se torne verdade, como uma profecia que se auto-realiza, segundo Tore Nielsen, professor de psiquiatria da Universidade de Montreal, no Canadá, e director do laboratório de sonhos e pesadelos da instituição.

“Apenas saber que o queijo afecta os pesadelos poderá induzir sonhos, pois as pessoas são sugestionáveis“, afirma.

O alto teor de lactose do queijo também pode ser a causa. Um estudo de Nielsen, publicado em 2015, concluiu que apenas 17% dos inquiridos nota uma diferença nos sonhos dependendo do que come, mas os lacticínios foram os alimentos mais frequentemente relatados como causadores de sonhos perturbadores.

“É muito possível que esses efeitos se devessem a pessoas portadoras de intolerância à lactose. É como um efeito indirecto no qual a lactose produz sintomas como gases, inchaços e diarreia — que influenciam os sonhos, baseados em fontes somáticas como essas. E, mesmo que se tenha algum tipo de intolerância, pode acontecer que se coma esses alimentos de vez em quando”, explica.

Mas há um problema: há dados que mostram o contrário. Uma meta-análise recente de 14 estudos e testes de controle conduzidos entre 1974 e 2019 indicou que, como parte de uma dieta equilibrada, o leite e os laticínios podem até melhorar a qualidade do sono.

Esta reputação do queijo pode também ser explicada pelo costume de se comer este alimento na última refeição à noite. Comer qualquer alimento antes de dormir poderá afectar a qualidade do sono, já que a temperatura do nosso corpo varia enquanto dormimos e, se esse equilíbrio não for mantido, o nosso sono pode ser prejudicado.

Comer antes de dormir, por exemplo, causa um aumento da temperatura corporal, o que pode prejudicar o nosso sono, e muitas vezes o queijo fica com a culpa.

“Uma razão pela qual o queijo e os pesadelos andam juntos é porque comer mais tarde antes de dormir apresenta grandes possibilidades de prejudicar o sono e o queijo pode ser de difícil digestão“, afirma Charlotte Gupta, investigadora da Universidade Central de Queensland, na Austrália, que recentemente publicou uma análise da relação entre a alimentação e o sono.

Mas existem algumas pesquisas que sugerem que, embora comer refeições nocturnas altamente energéticas possa aumentar a nossa temperatura corporal ao longo da noite, isso não significa necessariamente uma má noite de sono.

Sabe-se que o aumento da temperatura corporal afecta os nossos sonhos de outras formas. As febres, por exemplo, são associadas a sonhos intensos e alucinações. Estudos de sonhos durante acessos de febre sugeriram que eles tendem a ser mais bizarros que os sonhos em temperatura normal.

Ainda é preciso pesquisar se o queijo é capaz de induzir um aumento suficiente da temperatura corporal para causar sonhos como os verificados em acessos de febre.

Não existem muitas pesquisas sobre os mecanismos por trás da qualidade da alimentação e do sono, mas podem estar relacionados com o triptofano, um nutriente envolvido na síntese da hormona do sono, a melatonina.

O triptofano é libertado à noite e está relacionado com o sono, sendo encontrado em alimentos ricos em proteínas, incluindo queijo e também carne — especialmente carne de peru — além do peixe, trigo sarraceno, aveia e tofu.

A inspiração para Drácula?

Fora da área científica, esta associação entre comida e pesadelos pode ter sido a origem de algumas das histórias de terror mais antigas que conhecemos. Bram Stoker, por exemplo, aparentemente inspirou-se num sonho intenso que teve depois de comer caranguejos para escrever Drácula.

Já a história do Sr. Jekyll e do Dr. Hyde pode haver ocorrido para Robert Louis Stevenson num sonho após um farto lanche, ao final da noite.

“Comer perto da hora de dormir não é algo que incentivamos, mas, se o fizer, é melhor comer alimentos que sabemos que são mais propensos a melhorar o sono“, segundo Charlotte Gupta. A lista inclui alimentos ricos em triptofano, como carne, peixe e tofu.

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A qualidade do nosso sono também poderá ser afetada pela forma como comemos queijo e outros alimentos, e não apenas pelo conteúdo da nossa alimentação. Gupta concluiu na sua pesquisa, por exemplo, que a falta de horários normais para as refeições também pode prejudicar a qualidade do nosso sono.

Ir para a cama com fome e sede poderá também causar sonhos mais intensos, segundo a pesquisa de Tore Nielsen. “Os pacientes que relataram manter períodos mais longos entre as refeições tiveram sonhos mais intensos — e sabemos que o jejum é historicamente associado a sonhos intensos”, segundo ele. Mas isso é baseado em crenças espirituais e não em evidências científicas.

Quando tomada para análise, a relação entre o queijo e os pesadelos parece ter tantos buracos quanto um queijo suíço. Mas evidências mais genéricas indicam que aquilo que comemos — e de que forma nos alimentamos — poderá fazer a diferença entre uma boa noite de sono e uma noite terrível.

O importante é que podemos tentar melhorar o nosso sono mudando a alimentação, segundo St-Onge. “As pessoas devem prestar atenção ao que elas comem durante o dia e como elas se sentem e dormem, alterando o que for necessário”, remata.

  ZAP //

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